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Exposição e colóquios entre comemorações do centenário de Bernardo Santareno em Lisboa

Em Ribatejo Cool

Uma exposição bibliográfica sobre a obra de Bernardo Santareno e a exibição de excertos de peças com textos do autor constam das iniciativas com que a Escola de Mulheres comemora o 100.º aniversário de nascimento do dramaturgo.

Em simultâneo com a estreia da peça “O Punho”, a derradeira peça de Santareno, na quinta-feira, com que a companhia materializa a homenagem e a necessidade de “honrar o pedido e a vontade” da encenadora Fernanda Lapa, falecida em agosto, estará patente uma exposição bibliográfica da obra do escritor, no Clube Estefânia. A mostra pode ser visitada até 20 de dezembro.

No sábado, às 16:00, a companhia que após a morte de Fernanda Lapa tem direção artística de sua filha Marta e do ator e produtor Ruy Malheiro, exibirá o documentário “Bernardo Santareno Português Escritor Médico”. Trata-se de um trabalho para a RTP do jornalista e realizador português Luís Filipe Costa, que morreu em julho último, aos 84 anos.

“O Punho”, uma criação coletiva que se estreia na quinta-feira, no espaço da companhia, o Clube Estefânia, tem versão cénica de Fernanda Lapa, que iniciou e organizou as comemorações nacionais do centenário do autor de “O Judeu” e “A Promessa”.

Fernanda Lapa foi “grande amiga pessoal” do dramaturgo e médico António Martinho do Rosário, que conhecera quando tinha 15, 16 anos e com quem chegou a trabalhar na Fundação Sain, uma organização de apoio e integração de cegos adultos, sobretudo de homens que perderam a visão durante a Guerra Colonial.

Ligou-os uma “amizade e cumplicidade enorme” que se foi sedimentando, cada vez mais ao longo dos tempos, entre a atriz e “o ser humano incrível” que era o médico e dramaturgo, como Fernanda Lapa contara à Lusa, em março último, por ocasião do Dia Mundial do Teatro, quando lhe coube ler a mensagem da Sociedade Portuguesa de Autores.

Com versão cénica elaborada por Fernanda Lapa durante o primeiro confinamento, a montagem de “O Punho” seguiu todas as pistas deixadas pela atriz e encenadora. Tanto a nível do figurino, como do elenco, do espaço cénico e da vontade de a peça ser uma criação conjunta entre toda a equipa.

Fernanda Lapa morreu no passado dia 06 de agosto, aos 77 anos.

Com estreia agendada para quinta-feira, dia do centenário de nascimento de Bernardo Santareno, “O Punho” foi a última obra do escritor. Datada do ano da sua morte, 1980, teve edição póstuma em 1987.

No dia 28, às 16:00, a Escola de Mulheres promove um colóquio, em que propõe a comemoração “do autor e homem”, que especialistas em literatura consideram o maior dramaturgo português do século XX.

“Português Escritor 40 anos de Saudades” é o título da iniciativa, apelando ao título de outra das peças do autor, “Português, Escritor, 40 anos de Idade”, estreada em 1974.

O colóquio contará com a participação de amigos de longa data de Bernardo Santareno, como os atores José Sinde Filipe, Luís Lucas, Françoise Ariel, também produtora, e Isabel Medina, que cofundou a Escola de Mulheres com Fernanda Lapa, assim como do encenador Nuno Carinhas.

A iniciativa será moderada por Marta Lapa, que também chegou a conhecer o escritor.

As comemorações do centenário de nascimento do militante antifascista, homem de esquerda e ativista – pontos comuns com Fernanda Lapa – contam ainda com a exibição de excertos do vídeo de “BernardoBernarda”, uma criação de 2005 da Escola de Mulheres, com encenação de Nuno Carinhas.

No dia 12 de dezembro, às 16:00, serão exibidos extratos em vídeo da peça “A Promessa”, de Bernardo Santareno, uma encenação de João Cardoso para o Teatro Nacional S. João (TNSJ), estreada em finais de 2017.

A falar sobre esta peça estará o pintor, cenógrafo, figurinista e encenador Nuno Carinhas, que fez a direção artística do TNSJ durante cerca de dez anos, até à nomeação de Nuno Cardoso, no final de 2018.

Nascido em 19 de novembro de 1920, em Santarém, António Martinho do Rosário formou-se em Medicina e especializou-se em psiquiatria, mas foi com o pseudónimo literário Bernardo Santareno que se tornou conhecido, do público em geral. Morreu a 29 de agosto de 1980, com 59 anos.

“A Promessa”, adaptada ao cinema por António de Macedo (longa-metragem selecionada para o Festival de Cannes), “O Lugre”, “O Crime da Aldeia Velha”, “António Marinheiro ou o Édipo de Alfama”, “O Pecado de João Agonia”, “O Judeu”, “A Traição do Padre Martinho” e “Português, Escritor, 45 Anos de Idade” são algumas das peças de Bernardo Santareno, que se destacaram nos palcos.

O autor também escreveu poesia (“A Morte na Raiz”, “Romances do Mar”, “Os Olhos da Víbora”) e relatos de viagens, nomeadamente em “Nos Mares do Fim do Mundo”, onde testemunha a saga dos pescadores da antiga frota bacalhoeira portuguesa, contrariando a visão pacífica, oficial, divulgada pela ditadura, das condições de trabalho e da pesca.

Bernardo Santareno foi um dos médicos que acompanhou as longas campanhas pesqueiras, realizadas no final dos anos de 1950, integrado na equipa do navio hospital Gil Eannes e nos arrastões Senhora do Mar e David Melgueiro, onde testemunhou as precárias condições de higiene, de salubridade e as jornadas de trabalho, muitas vezes ininterruptas, de dezenas de horas, a que os pescadores, mal pagos, eram sujeitos.

No passado mês de janeiro, o Teatro do Noroeste pôs em cena, em Viana do Castelo, o espetáculo comunitário “Gil Santareno Eannes”, a bordo do navio hospital, para “celebrar” a ligação do médico e dramaturgo português à embarcação, envolvendo mais de 40 atores amadores, com idades entre os 12 e os 88 anos, que participaram nas oficinas da companhia.

Em setembro, a Câmara de Santarém apresentou o programa de celebrações do centenário do escritor, com iniciativas de divulgação da obra, em curso durante este trimestre, que passam por espetáculos, produções para escolas, debates e animação de rua.

Este programa prevê a estreia da peça “A Arder”, a partir da obra “O Judeu”, pela Companhia João Garcia Miguel, na próxima sexta-feira, às 20:00, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém.

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