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Pensar a crise da democracia e o aumento de ditaduras com o teatro de Bernardo Santareno

Em Ribatejo Cool

 A peça “O Judeu”, de Bernardo Santareno, está na base da produção “A Arder”, de João Garcia Miguel, protagonizada por jovens, que equaciona a crise da democracia e se estreia na sexta-feira, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém.

O amor, o medo, o teatro português e a relação com o poder, assim como a situação atual que o país e o mundo atravessam, não apenas devido à pandemia de covid-19, são também abordados na peça, acrescentou à agência Lusa João Garcia Miguel, que assina o texto, o espaço cénico e dirige o espetáculo.

A ditadura económica e o crescimento de conservadorismo de direita, que o mundo atual atravessa, no estrangeiro como em Portugal”, foram, segundo João Garcia Miguel, o foco do trabalho de atores de “A Arder”.

A Arder” é também um pretexto para “que cada um pense no que arde dentro de si”, num “tempo em que as ditaduras estão aí e a crescer”, como estavam “no tempo de Bernardo Santareno”, frisou, sobre o escritor nascido há cem anos.

“Como é possível um Trump ter sido eleito nos Estados Unidos, um Bolsonaro no Brasil, o populismo continuar a crescer em Portugal, e o PSD ter feito um acordo com o Chega para conseguir viabilizar um governo na região?”, exemplificou, a propósito, João Garcia Miguel.

Sete jovens em formação teatral e de grupos locais de teatro compõem o elenco da peça, cujo texto foi escrito a partir de leituras conjuntas que fizeram de “O Judeu”, de Santareno, com João Garcia Miguel e os atores Miguel Moreira e Sara Ribeiro.

“Impossível de pôr em cena, [a peça ‘O Judeu’] foi feita apenas no D. Maria II em 1981, um ano após a morte do dramaturgo, com a crítica unânime em considerá-la má”, referiu João Garcia Miguel.

Por isso, direcionaram o trabalho no sentido da “alegoria e da dimensão simbólica” do texto original de Bernardo Santareno, “que acaba por fazer a história do teatro português nos séculos XVII e XVIII”, frisou.

“Alem disso, fala de um homem coartado e aprisionado no tempo e numa vivência de luta constante entre o conservadorismo e a liberdade”, observou o encenador, sublinhando, sobre o texto, tratar-se de “algo atualíssimo, nos dias que correm”.

A peça “O Judeu” centra-se na vida de António José da Silva, o autor de comédias e óperas do original Teatro do Bairro Alto, nascido em 1705, no Brasil, à época colónia portuguesa. Filho de cristãos-novos, como então se designavam os judeus convertidos, foi alvo de um processo pela Inquisição, baseado em testemunhos de espiões inflitrados na prisão.

A interpretar a peça, que tem uma única representação em Santarém, vão estar André Salvador, Inês Paulino, Lena Edvardsen, Margarida Ferreira, Patricia Bocut, Rafael Raimundo e Rui Silva.

Deverá ainda contar com a participação especial dos atores Miguel Moreira e de Sara Ribeiro.

O trabalho cojunto do texto que dá mote a “A Arder” contou também com a aprticipação do bailarino e coreógrafo Francisco Camacho.

Em fevereiro de 2021, a peça “A Arder” estrear-se-á no Teatro Ibérico, sede da companhia João Garcia Miguel.

A interpretar estarão Miguel Moreira, Sara Ribeiro, outra atriz ainda por definir, num trabalho que contará também com Francisco Camacho, adiantou à Lusa João Garcia Miguel.

Depois de duas semanas no Ibérico, o espetáculo seguirá para itinerância.

“A Arder” é uma produção conjunta dos teatros Aveirense (Aveiro), Teatro Cine de Torres Vedras, Teatro Ibérico e Teatro Sá da Bandeira.

Nascido em 19 de novembro de 1920, em Santarém, António Martinho do Rosário formou-se em Medicina e especializou-se em psiquiatria, mas foi com o pseudónimo literário Bernardo Santareno que se tornou conhecido, do público em geral. Morreu a 29 de agosto de 1980, com 59 anos.

“A Promessa”, adaptada ao cinema por António de Macedo (longa-metragem selecionada para o Festival de Cannes), “O Lugre”, “O Crime da Aldeia Velha”, “António Marinheiro ou o Édipo de Alfama”, “O Pecado de João Agonia”, “O Judeu”, “A Traição do Padre Martinho” e “Português, Escritor, 45 Anos de Idade” são algumas das peças de Bernardo Santareno, que se destacaram nos palcos.

O autor também escreveu poesia (“A Morte na Raiz”, “Romances do Mar”, “Os Olhos da Víbora”) e relatos de viagens, nomeadamente em “Nos Mares do Fim do Mundo”, onde testemunha a saga dos pescadores da antiga frota bacalhoeira portuguesa, contrariando a visão pacífica, oficial, divulgada pela ditadura, das condições de trabalho e da pesca.

Bernardo Santareno foi um dos médicos que acompanhou as longas campanhas pesqueiras, realizadas no final dos anos de 1950, integrado na equipa do navio hospital Gil Eannes e nos arrastões Senhora do Mar e David Melgueiro, onde testemunhou as precárias condições de trabalho, de salubridade e longas jornadas, muitas vezes ininterruptas, de dezenas de horas, a que os pescadores, mal pagos, eram sujeitos.

No passado mês de janeiro, o Teatro do Noroeste pôs em cena, em Viana do Castelo, o espetáculo comunitário “Gil Santareno Eannes”, a bordo do navio hospital, para “celebrar” a ligação do médico e dramaturgo português à embarcação, envolvendo mais de 40 atores amadores, com idades entre os 12 e os 88 anos, que participaram nas oficinas da companhia.

Ontem, a companhia Escola de Mulheres estreou a peça “O Punho”, a derradeira de Bernardo Santareno, numa homenagem ao dramaturgo, nascido há cem anos, e à encenadora Fernanda Lapa, que morreu no passado dia 06 de agosto, e que tem nesta obra também o seu último trabalho para palco.

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