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Reina a solidão nas ruas

Em Opinião

Muitos leitores sabem o trágico significado da frase reina a paz nas ruas de Varsóvia, não se comparando, nem de perto nem de longe, a paz que tem reinado na maioria das ruas e ruelas do nosso terrunho, as comparações são odiosas, nestes dias de solidão nas ruas, no domingo, enquanto caminhei peripateticamente a fim de cumprir o preceituado pela manutenção do corpo e fui observando o comportamento dos gatos a deglutirem restos de comida caída em redor dos contentores, pensei nos desgraçados de Varsóvia e de outras referências de sinistros morticínios porque a maldade humana os produz.

Numa rua onde passo todos os dias enrolando os pés, um vizinho diz a outro: então também tens um cão? É para poderes sair à rua? O interpelado respondeu encolhendo os ombros, o acantonamento obrigatório obriga a astúcia, daí o recurso ao fraldiqueiro de ladrar efeminado e frenético para usufruir da dilatação do espaço sem preocupações de infringir as normas sanitárias impostas pelo governo.

A escritora de Benavente, Natércia Freire, escreveu Solidão sobre as searas, nesse livro ressoa a profundeza de uma pungente solidão em plena época salazarista, com tudo quanto isso significava, ao invés Armando Baptista Bastos, o irónico BB repórter da vida airada e outras vidas, é autor de Cão Velho entre flores, sendo opostas personalidades especialmente no que tange à ideologia e militância política, a solidão afligia um e outro, tal como neste tempo de pandemia enerva e irrita as mulheres e homens que respeitam a exclusão social porque o medo e o bom senso prevalecem sobre a estupidez que se manifesta aqui e além.

Trago à colação uma poetisa e prosadora ribatejana olvidada pelo tempo e um escritor amigo da vanidade prestes a ser atacado pela mesma moléstia que atingiu Natércia Freire, no intuito, mais uma vez, de arranhar a face de quem me lê com a finalidade de ajudar a esmoer a solidão de todos os dias, incluindo os sábados, domingos e feriados os quais os amigos da farândola afirmam ser especiais. E, não o sendo, só se distinguem pela carga simbólica com que os ornamentamos.

Armando Fernandes

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