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Mãe, Senhora, ouve-me, que o meu filho venha são e salvo da guerra: Uma assombrosa viagem pelo correio dirigido a Nossa Senhora de Fátima

Em Ribatejo Cool

A obra de investigação de que resultou esta reportagem jornalística intitula-se A Caixa de Correio de Nossa Senhora, é seu autor António Marujo, um jornalista com largos créditos e pergaminhos na área da temática religiosa; afoitou-se à leitura de um bom número de dezenas de milhar de mensagens dirigidas a Nossa Senhora de Fátima, com os temas mais díspares (declarações, pedidos de saúde ou de emprego para o próprio ou para outras pessoas, amores proibidos e confessados, crimes escondidos, orações pela paz no mundo e pela conversão da Rússia, pedidos angustiantes para que filhos, maridos e familiares envolvidos nas guerras viessem sem beliscadura, obra editada pelo Círculo de Leitores e Temas e Debates, outubro de 2020. Investigação estimulante, o próprio autor observa que estas mensagens revelam muito do que era o país, há poucas décadas, marcado ainda pelo analfabetismo, pobreza e falta de proteção social. E revelam, também, muito do que foi e é importante na vida de milhões de portugueses e estrangeiros, os anseios e as expetativas transversais a todas as sociedades – fé e descrença, amores e desamores, saúde e dinheiro, afetos e sexualidade, preocupações com a guerra e a paz, mas há muito mais. Décadas pautadas por terríveis sobressaltos e todas estas mensagens espelham a complexidade das motivações dos devotos da Senhora da Azinheira.

O Correio de Nossa Senhora abrange oito milhões de mensagens, António Marujo centrou-se em cerca de 50 mil em língua portuguesa, abrangendo desde a década de 1940 até 1977. Houve a preocupação de preservar o anonimato. O que seguramente fascinou o investigador, e agora fascina o leitor, é um país desconhecido, mostram a escolaridade, o grau da fé, a ligação das pessoas com a mãe protetora. Alguém observa ao autor que a forma de os fiéis se dirigirem à Virgem não é a mesma que é usada nas celebrações litúrgicas e oficiais, escreve-se com declarada intimidade, sente-se a proximidade (sabes quem eu sou, não é preciso descrever a minha pessoa), mas também há o tratamento formal, a humildade na súplica, uma natural intervenção da Virgem para acabar com a miséria, a pobreza ou a doença. Temos aqui uma rosa-dos-ventos dos modos religiosos e testemunhos da experiência vivida.

É tocante muitas vezes o tom familiar, tudo isso vem a propósito dos estudos, dos amores desavindos, das paixões mal contidas, confissões de crianças que sentem o assédio sexual até mesmo em casa, há mesmo quem se dirija à Mãe de Deus num firme jogo da sinceridade: “Olha eu não sei o que dizer-te da verdade do que sinto por ti, mas quero amar-te, amar-te muito porque sei que me amas e és minha mãe. Quero ter-te como modelo, quero sentir algo grande por ti. Vais ajudar-me, não vais. Tenho a certeza que sim, porque tu amas-me muito. Adeus mãezinha, um beijo…”. Há quem escreva por razões que têm a ver com a fé, a vida religiosa e a reforma da Igreja, há quem venha pedir ajuda para se conhecer a vocação religiosa, chega-se mesmo a pedir apoio para o melhor voto dentro da congregação a que pertence a quem faz o apelo.

A paz é outro tema reincidente, a própria Lúcia pergunta à Senhora “Quando acaba a guerra?”, isto a 13 de maio de 1917, Fátima nasce no aceso da I Guerra Mundial, vai-se prestar a imensa turbulência no conflito entre a República e a Igreja, as aparições marcarão o Estado Novo e farão parte da normalização instituída por Salazar. Vão chovendo durante décadas apelos à paz em todas as línguas, de todos os continentes. As aparições da própria imagem da Virgem serão estimuladas em todos os pontos da Europa, fala-se na conversão da Rússia, na luta contra o comunismo, basta pensar no aproveitamento feito durante a Guerra Civil de Espanha; mas há as questões também da não-crença, do ateísmo e da perseguição religiosa. Como observa o autor, quando termina a II Guerra Mundial Lúcia não tem qualquer dúvida em atribuir a Salazar um papel quase messiânico, em 1945, numa carta dirigida ao cardeal Cerejeira, escreve: “O Salazar é a pessoa que Ele (Deus) escolhida para continuar a governar a nossa Pátria… a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo nos caminhos da paz e da prosperidade”. E depois o autor discreteia sobre a relação dos Papas com Fátima ao longo de décadas.

E chegamos assim à guerra colonial, é um dos acervos mais impressionantes do correio de Nossa Senhora, começa logo em 1961, prolongar-se-á durante todo o período da guerra. No subcapítulo intitulado “Salvai o meu filho de não ir para a tropa”, atenda-se ao que escreve António Marujo: “Até 1974, quando a revolução do 25 de Abril põe termo ao conflito, há cerca de 150 mil mensagens em português arquivadas em Fátima, quase sempre com pedidos genéricos pela paz”. Alude-se à paz nos territórios abrasados pela guerra e outros, são apelos pungentes na maioria cartas escritas por mães e irmãs e também esposas. Pede-se para vir são e salvo como se pede para não ir para lá, mas quem vai combater leva a figura de Nossa Senhora, Fátima passa a ser um símbolo a que os jovens mobilizados para a guerra se podiam agarrar. Um estudioso observa ao autor que “Fátima serviu, em muitas circunstâncias, para alimentar o nacionalismo colonial. As pessoas acreditavam que estavam a fazer um combate com sentido. Quando, durante a guerra colonial, os peregrinos se deslocam a Fátima, fazem-no para pedir proteção, é um desidrato que também é coberto por uma ideologia que assenta mais ou menos em defender a Pátria e o Ultramar”.

Algumas enfermeiras-paraquedistas contam como os feridos em combate invocam a sua mãe e a Mãe de Deus. Muitos militares, sensivelmente no início das suas comissões, rezavam conjuntamente o terço, e era comum ver um fio no pescoço com uma medalha de Nossa Senhora. O autor lembra a constância de mensagens como “Dai-me a graça de eu voltar são e salvo para depois vos vir agradecer e dar graças que hoje aqui vos promete amar-vos cada vez mais […] Minha Mãe do Céu, prometo-vos vir a pé daquela longe terra e rastejar desde a cruz alta até ao fundo da escadaria para melhor vos saber agradecer. Adeus. Minha querida Mãe, até ao dia da minha vinda”.

O autor também discorre sobre uma linha dos católicos progressistas que condenavam a guerra colonial, acabar com a guerra é outra súplica constante. No posfácio, Joaquim Franco dá-nos o entendimento sobre estas cartas: “A religião, nomeadamente o fenómeno de Fátima, tem um caráter intrusivo, ou seja, vai ao âmago das perguntas primordiais na existência humana. A forma como os crentes escrevem permitirá outra linha de reflexão: o simbólico maternal como referência de acolhimento incondicional e, por isso, de construção do divino. Hipervaloriza-se o caráter maternal da identidade a quem se dirigem, simbolicamente representada no contexto da devoção mariana católica. Esta intimidade relacional com um sagrado de rosto feminino merece também ser estudada, podendo ampliar a relevância de Fátima enquanto fenómeno com impacto global e transreligioso”.

Reconheça-se o inédito desta rigorosa investigação e aceda-se por esta via a um arquivo de mensagens em todas as línguas.

Mário Beja Santos

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