Miguel Borges e a delegada de Saúde

Em Opinião

A surpresa despertou-me do entorpecimento matutino e consumiu-me de consternação ao ficar ciente de que um professor zeloso, músico e maestro apegado, poeta e autarca afectuoso – por outras vocábulos, um abrantino de inegável e inestimável valor – foi internado com Covid-19. Como antevêem, escrevo-vos sobre Miguel Borges, o Presidente da Câmara do Sardoal.

Não é por Miguel Borges ser do partido em que milito ou por o conhecer pessoalmente, ainda que não sejamos próximos, que resolvi abrir este artigo com um solidário encadear de frases, desejando-lhe uma rápida recuperação. É porque, sabendo da sua sensível e sensata dedicação à causa e à coisa públicas, e sabendo da forma como vem fazendo o possível e a tentar o impossível para conseguirmos superar a pandemia nesta região, este melómano edil merece, mais do que muitos, que nos preocupemos com o seu estado de saúde! E eu preocupo-me!

Sandor Marai deixou-nos um livro intitulado “As velas ardem até ao fim.” Torço para que a vela de Miguel Borges continue a arder, com um apaixonado fogo criativo, durante décadas e décadas, e que o seu fim fique bem lá longe!

Mudando de assunto, porém, mantendo-me geograficamente por perto, não posso ignorar a recente polémica com o número de enfermos com Covid-19 no Concelho de Abrantes. Inesperadamente, como se uma bigorna caísse dos céus e nos acertasse nas úteis cabeças (servem para usar chapéu), fomos confrontados com a colocação da nossa terra na lista de municípios de risco muito elevado.

Aprofundando a questão, o número de novos doentes por Covid-19 no Município de Abrantes, entre 6 e 19 de Novembro, não foi de 93, mas sim de 203, o que equivale a mais 110 casos e a um desgostoso incremento de 118%.

Ouvida a Dra. Maria dos Anjos Esperança, Delegada de Saúde Coordenadora do ACES Médio Tejo, esta assumiu erros na divulgação pública da contabilização de infectados e apresentou as suas desculpas.

Ora, como dita o bom senso, uma situação destas não se basta com um reconhecimento de lapsos ou de falhas, considerando-se sanada pela eventual genuinidade de um pedido de perdão. Os danos originados pela repentina integração de Abrantes na tenebrosa listagem são graves, afectando, com intensidade, as vidas dos munícipes e os negócios que, mesmo sem pandemia, já experimentavam as dificuldades de operar num território de baixa densidade populacional.

Apesar do auspicioso nome desta Delegada de Saúde Coordenadora, algo tendente ao apaziguamento das almas em desassossego, os motivos e os autores desses erros – que não são novidade, olhe-se para o Entroncamento – têm de ser identificados e daí extraídas consequências!

Atentem que não quero fazer da Delegada de Saúde um sacrifício expiatório para ser levado pelo demónio Azazel, assim remindo as culpas e os delitos de todos os que se encontram envolvidos no processo de averiguação do número de infectados por concelho. No entanto, fico apardalado, para não dizer admirado, quando escuto as declarações da  Dra. Maria dos Anjos Esperança que, com uma calma típica de fumadores de canabinóides, dá a entender que isto não passa de um problemazeco.

Não se admite…

Manuel Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, já veio a terreiro garantir que está, no âmbito das suas funções, a apurar responsabilidades. Não poderia ser de outro modo, pelo que aguardarei pelos resultados desse exame; todavia, porque o tempo urge, exige-se celeridade, dureza institucional e, principalmente, uma real compreensão das circunstâncias do nosso concelho neste contexto.

Estou à espera…

João Salvador Fernandes

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