Heraldo Bento (31-07-1927-25-10-2020) – O olhar do tempo

Em Correio dos Leitores

“Estou sempre a aprender.”, afirmava Heraldo convictamente aos 90 anos.

O saber não ocupa lugar. Nem muda as pessoas. Mantém-nas simples, humildes, sábias. Com o passar dos anos, ficam humanamente mais ricas e mais bonitas. Assim foi Heraldo Bento: um Coruchense de todos conhecido e por todos considerado. Nasceu em Coruche, junto à sede do Benfica, benfiquista toda a vida e, nesta vila sempre viveu. O mais novo dos quatro filhos de Maria Emília da Costa e de Joaquim Ferreira Bento.

Herdou muito da mãe, que ele próprio a tinha como “sensível, esperta, observadora, persistente”. E assim era Heraldo Bento. A mãe, por quem sempre nutriu uma admiração e ternura especiais, foi a sua grande Educadora. Muito cedo, ela se apercebeu das capacidades deste filho. Foi ela quem sempre o incentivou a cantar, a ouvir música, a desenhar, a ler. Ensinava-lhe as canções que tinha aprendido na casa abastada onde tinha trabalhado e, por sua influência em jovem ouvia na rádio ópera, o que lhe trouxe o gosto pelo canto lírico. O fado era o outro tipo de música que ouvia naquele meio de comunicação. Daí o gosto também pelo fado de Coimbra que, como dizia, “tem muito de canto lírico”. Na rádio local, não perdia o programa “Poesia, música e sonho”, em que eram declamados poemas por Miguel Trigueiros. Também não perdia as sessões de fado no Café Zé Tadeia, animadas por fadistas que vinham de fora, nem as de violino, executadas por três ou quatro casais húngaros refugiados da 2ª Guerra Mundial que, tais como outros, vieram para Coruche e frequentavam um outro café aberto em Coruche por um espanhol em 1942. Heraldo era o único “miúdo” de 15 anos a assistir. 

Aos 11 anos, após a frequência da Escola Primária em Coruche – desabafava: “Tempos de professores maus e sádicos” – começou a trabalhar no comércio. Nunca esqueceu, precisamente no dia em que iniciou a 2ª. Guerra Mundial! Foi marçano numa mercearia, que também era banco, seguradora, durante 2 anos como aprendiz, sem ordenado. A profissão para a vida. Sempre recordou com carinho as lojas do Sr. Manuel Marçal e Abílio Silva Dias. A actividade do comércio foi a janela onde todos os dias o pequeno Heraldo se debruçava para o mundo: observava a vida das pessoas, a pobreza, que era o que mais o tocava. Em casa, questionava a mãe sobre o que tinha visto e ouvido e a mãe, zelosa, explicava-lhe. Cedo, muito aprendeu sobre a sociedade local. “Tempos de vidas difíceis”, dizia. E, para sempre, para ela ficou sensibilizado.

A leitura sempre foi também uma ocupação predilecta. A outra janela que lhe permitiu conhecer o mundo.  Aos 14 anos, o gosto de ler tornou-se efectivo. Leu Emílio Salgari, Alexandre Dumas, John Steinbeck. “As vinhas da Ira”, deste escritor, foi o primeiro livro que o fez reflectir sobre a vida. Aos 20 anos leu Stefan Zweig, Erich Maria Remarque, Tolstoi.  “Guerra e Paz”, deste último, foi outro livro que o marcou.

Estavam lançadas as sementes que Heraldo Bento tão bem cuidou e que nós pudemos e ainda podemos colher.

Aos 15 anos, Heraldo realizou a sua primeira exposição de desenhos – começou a desenhar aos 9 anos – na antiga sala do Tribunal de Coruche, organizada pelo Sr. Virgolino Lopes (nesta idade, desenhava e pintava artistas de cinema, os seus ídolos femininos, que lia e admirava nas revistas de cinema que um amigo lhe emprestava). Autodidacta sempre, nunca mais parou de desenhar e pintar, desde a carvão, pastel, tinta-da-china até à colagem de tecido. Muitas foram as exposições, colectivas e individuais, em que participou: em Coruche, em 1981, 1988 (2 exposições), 1991, 1993, 2003, 2013; nas exposições colectivas de artes plásticas de um poema na vila de 2014 a 2020 (e também fora do Concelho); Santarém, 1986; Benavente,1987; Mora, 1989; S. Mamede Infesta, 1999; na exposição colectiva Aquém Tejo em Reguengos de Monsaraz, Alter do Chão, Estremoz, Moura, Ponte de Sôr e Lisboa.

Vinte e quatro dos seus trabalhos, paisagens de Coruche, adquiridos pela Câmara Municipal de Coruche, em 1982, decoram as paredes dos Paços do Concelho. Os seus trabalhos estão espalhados um pouco por todo o lado. Muitos deles alindam os cafés e restaurantes de Coruche.

Aos 18 anos fez parte de um grupo de récita, em que encarnou o papel de estudante de Coimbra e cantou o fado “A Igreja de Sta. Cruz”, acompanhado à viola e à guitarra pelos irmãos Potier. E comentava, “no teatro cantava mais do que representava”. Heraldo, uma voz melodiosa e límpida, cantou fados de Coimbra às meninas de Coruche.  Anos a fio, animou muitas noites em Coruche, Benavente, Salvaterra de Magos, Avis, Couço, Lisboa. Até há pouco, eram momentos únicos nas sessões de um poema na vila aqueles em que Heraldo Bento nos deliciava com os seus fados de Coimbra!

A escrita é outra vertente a que Heraldo se dedicou. Entre 1989 e 2003, colaborou com o jornal “Sorraia”. É autor dos livros: “O Rio Sorraia e Coruche” (1996), edição da Câmara Municipal de Coruche; “Francisco de Brito Freire – Contributo para o seu conhecimento”(2000), edição da Associação Defesa do Património de Coruche; “Um Olhar sobre Coruche”(2003) e “Francisco de Brito Freire – Subsídios para a sua história”(2016), ambos edição da Câmara Municipal de Coruche.

Heraldo Bento foi um cidadão atento, activo e empenhado. A curiosidade e a sensibilidade estimuladas por Margarida Ribeiro[1] como ele reconhecia, levou-o a acarinhar e a entender as coisas da sua terra. Muitas foram as actividades no âmbito do Património Cultural e Histórico de Coruche em que voluntariamente colaborou e participou: aos 18-19 anos, na Festa do Campino, de 1945 até 1972, no Cortejo Etnográfico, do qual foi um dos organizadores; aos 26 anos, nas Marchas do Bairro Alegre, em Coruche, “sem jeito para dançar”; pelos 30 anos, fez cenografia e caracterização no Grupo Cénico de S. João Baptista; em 1976, colaborou com a Câmara Municipal de Coruche na organização de uma exposição fotográfica; em 1982, nas Comemorações do 8º Centenário do Foral de Coruche e em muitas outras reconstituições históricas. Foi um dos sócios fundadores do Grupo Desportivo O Coruchense (1948), era o sócio nº 1, e da Associação de Defesa do Património de Coruche (1986). Foi sócio do Club Artístico Comercial Coruchense (1906).

A sua ligação com o Museu Municipal de Coruche era forte. Nas palavras do Museu, “… um colaborador assíduo e incontornável do Museu Municipal”.

Aos 34 anos criou o seu próprio negócio, uma retrosaria, uma loja carismática de Coruche, onde, entre coisas actuais, ainda podíamos encontrar os tecidos dos tempos dos nossos avós. Mas esta retrosaria era muito mais, era Heraldo Bento: um amigo que sabia das coisas interessantes da terra, que a propósito de qualquer coisa tinha sempre uma história a contar, que escutava, que mostrava os últimos trabalhos de pintura, que falava das desilusões e dos sonhos.

Com a imposição das novas tecnologias no comércio, há 6 anos, Heraldo Bento viu-se forçado a encerrar a sua primeira janela para o mundo, tão preciosa – tal como aconteceu com outros pequenos comerciantes locais – o que foi duramente sentido por ele e por todos nós, “fecha a loja do Heraldo / como conversar e falar do passado”.[2]

Heraldo Bento foi homenageado na sessão de um poema na vila, a 9 de Julho de 2017, com o tema a idade da sabedoria. [3] Foi o desfiar de uma vida cheia, a surpreender-nos a cada instante com a sua grandeza. Consciente da pequenez da sua realidade local e das limitações várias daquela época lamentava: “Passei ao lado de muita coisa”. Foi emocionante, catártico! Heraldo Bento cantou-nos, entre outros fados: “A Igreja de Sta. Cruz”, e imaginá-lo aos 18 anos!; “O meu menino é d’oiro” e levou-me à Tasca do Zé João no Couço nos anos 80, “Heraldo Bento cantava-nos a saudade e os amores de Coimbra/ com voz límpida e doce”.[4]  .
Obrigada Heraldo Bento.

Ana Maria Teixeira Freitas

Coruche, 26 de novembro de 2020


[1] Professora e Investigadora do concelho de Coruche. Autora do “Estudo Histórico de Coruche”. 

[2] in o fecho, alfobres de rios(2020), pág. 72, Ana T. Freitas, Editora Modocromia.

[3] https://umpoemanavila.blogspot.com/search?q=a+idade+da+sabedoria

[4] In o fado, alfobres de rios(2020), pág. 36, Ana T. Freitas, Editora Modocromia.

Sabedoria

(a Heraldo Bento)

Amigo, tu que és sábio,

que sabes das coisas simples da vida,

que entendes as gentes simples,

que mergulhas na sua simplicidade sabedora

e com ela te confundes,

que remexes em saberes ancestrais e os acarinhas,

que desenhas o teu meio com mãos de fada,

que pintas o teu céu com pincéis da alegria,

que talhas tecidos em pedaços de vida,

que escreves nacos da nossa história,

que cantas a nossa alma lusa,

que vês no inconformismo o direito ao progresso,

que fazes da curiosidade eterna as asas da sabedoria,

que atentas o outro sabiamente

e lhe ofereces o teu saber sem tempo,

Amigo,

ficarás gratamente em nós

perpetuamente

Ana T. Freitas

Coruche, 08-07-2017

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