Sonhos de esperança

Em Opinião

Vou contar-vos um sonho, mas fica aqui entre nós, como que um segredo que guardamos neste estranho ano vinte.

Dei comigo, partilhando palavras com Redol e o Zeca ali na aldeia da Palhota. Tínhamos abolido fronteiras de tempos, vidas e estatutos sociais. Ali estava eu, embevecido e vaidoso, num encontro único com tão bons mestres do neorrealismo e das palavras feitas de vidas sofridas.

Combinara encontro, em palavras de telegrama, para aquele lugar à beira-rio, numa manhã húmida de primavera… Peguei na bicicleta [pois é, eu estou sempre a falar na bicicleta] e desci à aldeia das Caneiras onde bebi um café com aguardente e canela. Tomei o caminho da irmã avieira…

O nevoeiro dificultava a vista dos campos férteis, de esforço e exploração, férteis de alimento que das mãos de alguns chegam a quase todas as bocas; sim a quase todas, mas não a todas!

Os meus olhos percorriam ranchos de homens migrantes, jovens que tomaram o lugar de gaibéus e ratinhos castrados de igualdade, sem o afeto da fraternidade, que vêm de longe, de muito longe; o que eles andaram para aqui chegar a terras a riba do Tejo! Por cá labutam, na esperança de juntar algo mais para alimentar as suas famílias!

Chego à Palhota, encosto a bicicleta à mesa de madeira ali junto ao porto, dou um abraço ao senhor João Pita. Chama-me a sua casa, tinha mais umas réplicas das pobres casas avieiras para me mostrar. Dele poderia Vinicius de Moraes reescrever “Era ele que erguia casas / Onde antes só havia chão. / Como um pássaro sem asas / Ele subia com as casas / Que lhe brotavam da mão[i]. É assim o senhor João!

De lá à casa de Alves Redol eram uns metros; chegados, lá estava também o Zeca Afonso escrevendo os “Índios da Meia-Praia” (…) pedi-lhe o caderno e reescrevi:

Aldeia da Meia-Praia das Caneiras
Ali mesmo ao pé de Lagos Santarém
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo Vieira vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha a ré…

Alves Redol sorriu da minha ousadia, olhou a minha bicicleta e a bateira que chegava com farta carga de sáveis, fitou o senhor João, sorriu de novo e olhou o Zeca…

O Zeca recebeu o sorriso como telepatia e passou-o à caneta de aparo…

…“Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana”…[ii]

Os sorrisos adivinhavam-nos o futuro…

O sonho cederia ao despertar. O Tejo já não corre na plenitude da vida, às nem corre, às vezes nem tem vida… Não desanimeis, a esperança não morrerá porque ela é como uma aldeia avieira: tem uma irmã, a cidadania!

Vítor Franco


[i] Extrato do poema “Operário em Construção” de Vinicius de Moraes.

[ii]Índios da Meia Praia”, José Afonso, 1976.

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