Preconceitos, “trincheira de identidades” e uma apologia de Pedro Álvares Cabral

Em Opinião

Ciclo de crónicas: “um homem não tem avesso” (Sidónio Muralha, Roteiro, em Que saudades do mar, Poemas, 1971)

(…) lotta of girls in  my family, I have a wife and / I feel that is important to stand before, the great state of Texas, and talk about my family and our right to exist in the world today (…)” Brandy Carlile[i]

Arrumar os preconceitos no sótão não é solução, temos de os desconstruir. Venham à rua e vejam a banda passar. Até de manhã camaradas.”

Postei isto numa madrugada a dentro, sem pensar. Se pensasse, sabia que aos 13/14 anos tinha tantos preconceitos como comum dos mortais, que também fiz piadas parvas sobre gays, negros, árabes, judeus e bombeiros. Bombeiros!? Sim porque se não toleramos piadas parvas sobre bombeiros, porque haveremos de tolerar sobre outras pessoas? Aliás, o problema está mesmo no termo tolerar, não devemos tolerar, porque no fundo se tolera o que não deveria existir, mas existe. Devemos dialogar, entender, estudar, compreender. “Uma guerra só continua enquanto os dois lados acharem que são o lado bom da trincheira” diz uma personagem de banda desenhada da organização mafiosa da The Hand, na série de The Defenders (da Marvel e da Netflix)[ii].

Hoje em dia, vivemos uma guerra identitária e cultural. Quando tanto se caminhou em prol do que o Einstein terá dito ser mais difícil do que destruir o atómo: quebrar preconceitos. Esse cientista foi, segundo as más-ínguas, autor de atos de violência doméstica, à luz da moral positiva do século XXI. Se o meu bisavô ou o Einstein eram machistas? Por certo. Mas o que é que isso interessa? Se sabiam que era errado bater em mulheres sim, provavelmente, já saberiam. Já, nessas épocas existiam movimentos de mulheres (ainda diferentes daqueles dos anos 70 e diferentes dos atuais). Também não duvido da existência de defensores de direitos de autodeterminação sexual, eventualmente restritos a elites culturais ou não, em tempos mais recuados do que se supõe. Nada disto, nos dá o direito de, cientificamente (ou melhor pseudocientificamente) julgar o passado: “a história não é uma ciência moral”, diz o personagem Denis Arcand, no filme O Declínio do Império Americano[iii]. Parece-me ser essa o grande dilema da filosofia da Tztevan Todorov, que nos avisou que as democracias tendem a deturpar a memória coletiva tanto quanto os regimes autocráticos de que esse autor foi vítima (Les Abus de la Memórie)[iv].  

            Não é preciso ler muita sociologia para saber que podem existir preconceitos tanto das maiorias contra as minorias, como vice-versa, mas ter vivido isso também ajuda. Ser proibido de dizer isso, como ser proibido de fazer piadas parvas, de comer gelados com nomes estúpidos ou de ver filmes que manifestamente refletem o racismo dos seus autores, não ajuda nada a desconstruir preconceitos, apenas agudiza a guerra nas trincheiras. Não obstante, naturalmente, pode e deve-se apontar o mau gosto e ou os preconceitos que revelam essas situações, sejam formas de arte ou pura e simples parvoíces.

            Tenho uma amiga preta que é mulata, vive na Suíça, é certo e sabido que os suíços (pelos muitos dos que conheci) são genericamente xenófobos, mas não podemos generalizar (aqui estou eu a revelar preconceitos contra os helvéticos). Nos idos anos 40, tinham alguma coisa que carimbar “J”, em passaportes judeus? Situação que depois permitiu aos nazis e seus sequazes identificar pessoas em fuga? Porém, diz-se que se vive bem na Suíça, diz-se que é uma comunidade integradora, e mais não digo porque falhando o estudo e a experiência viva, ficam os preconceitos a falar.

            Também sustentou Todorov, que a vitimização é uma forma de poder, uma forma de poder que pode ser totalitária. Sabemos de leis de retorno, de indemnizações pelo genocídio acerca de judeus, mas apenas muito recentemente se fala nas vítimas não judaicas do III Reich e seus aliados (sim porque houve aliados), sejam elas ciganas, gays ou comunistas, sejam até tudo isso ao mesmo tempo.

            A identidade, mesmo na guerra das trincheiras não tem de ser mutuamente exclusiva e não vamos dilacerar “a sociedade aberta” às mãos dos seus inimigos se, precisamente, soubermos valorizar o que há que valorizar e abandonar o acessório, porque é mais o que nos une do que o nos separa.

            Dito isto, outra vez movido pela ânsia de postar sem refletir, escrevi: “Sonho com um mundo de liberdades amplas, onde as escolhas morais, religiosas e sexuais, já não façam parte do debate político. Não porque não são importantes, mas precisamente pelo contrário. Um mundo onde a educação e o respeito (e sublinho respeito, não tolerância que pode ter uma carga idiossincrática perversa) sejam tais que não seja preciso discutir o que nos define como pessoas, perante outros que nos querem aniquilar a identidade. Tive uma vez uma amiga que se me definiu como pansexual (palavra que o Facebook está a tentar converter). Sonho com um mundo de educação constante onde não seja necessário explicitar isso porque intrinsecamente o apreendemos e passamos de geração e geração, juntamente com o respeito e educação.”

             Não sei se a palavra “escolha” revela, de novo, os meus preconceitos, mas olhando-me no espelho, a minha heteronormatividade foi um caminho e não uma imposição. Felizmente, ao contrário de muitos dos meus antepassados e semelhantes, poderia ter assumido os outros caminhos, sem perigar a minha vida e/ou o “pão de cada dia”, mas sou um privilegiado. Enquanto, transformarmos a busca de identidade num terreno minado, a confissões intimas correm sempre o risco de ser confundidas com declarações de guerra, porque quem almeja a paz.,

“Mudando o disco” em torno da identidade. Como não poderia deixar de ser, recomendo a leitura do conto o “mulato congolês” de Sidónio Muralha (editado em Portugal no livro O Andarilho, 1975)[v] para se perceber as nuances da colonização e o prejuízo que foi para as sociedades pós-coloniais um “pensamento maniqueísta”, aliás pelo autor na denúncia do neo-colonialismo. Na sua autobiografia (A Caminhada, 1977)[vi], ainda que forma subliminar, Sidónio Muralha fez bem as destrinça entre colonização e colonialismo, entre as vantagens de uma e a lógica predatória do outro, sem nunca temer clichês.

            Ainda que timidamente, em 2020, celebram-se os 500 anos sobre a morte de Pedro Álvares Cabral. Quem devemos lembrar? “A história não é uma ciência moral, mas o historiador é humano demasiado humano”, deve procurar isso, mas não dificilmente conseguirá ser “neutral”, mesmo não servindo reis, nem senhores. Aliás, patriota talvez em demasiada, subscrevo, a opinião (que fez furor junto de alguns norte-americanos) de A. H. de Oliveira Marques, segundo quem está por provar que a colonização portuguesa fosse mais brutal ou mais corrupta que as outras, numa pobre paráfrase[vii]. Devemos celebrar Álvares Cabral e os que o acompanharam pelo feito científico de unir quatro continentes, pelo contacto, ao que tudo indica pacífico, com ameríndios (independentemente do que aconteceu depois), sem nunca esconder que arrasou uma cidade, que matou mulheres e crianças, o que já era reprovado pelas formas de fazer guerra no seu tempo. Cabral mostrou uma feracidade terrível, apenas comparável com o mesmo grau de humanismo que revelou em situações diversas e depois de contemporizar com o inimigo, durante bastante tempo. Celebremos o passado com olhos de futuro, procurando, como aconselha Jesus de Nazaré, não julgar, e saber retirar da história a melhor parte. E tudo isto se faz como? “Educação, educação, educação” e literacia, ou melhor a capacidade de ler poesia. Celebrando na poesia Judith Teixeira e António Botto que nunca esconderam a sua identidade, ainda que perante as agruras de tempo cruel, ficando essas memórias para outra crónica de homens e de mulheres sem avesso.  

José Raimundo Noras

Legenda da imagem: Desembarque de Cabral em Porto Seguro, óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva, 1922. Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro).


[i]  Brandi Carlile on Austin City Limits “Mother”, https://www.youtube.com/watch?v=JLNr95zE5yA.

[ii] The Defenders em https://www.imdb.com/title/tt4230076/.

[iii]  The decline of the American Empire, https://www.imdb.com/title/tt0090985/?ref_=nv_sr_srsg_0.

[iv]  Tzvetan Todorov, Les abus de la mémoire, Paris, Arléa, 2004.

[v]  Sidónio Muralha, O Andarilho, Lisboa: Prelo, 1975.

[vi]  Sidónio Muralha, O Caminhada – livro de vivências, Lisboa: Prelo, 1975.

[vii] Citado por Doughlas Wheeler em História Política de Portugal (1910-1926), Lisboa: PEA, 1985. 

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