Leituras inextinguíveis (2): Kaputt, nunca a ferocidade humana e a bestialidade da guerra tiveram melhor relato

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, cria-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Hoje é a vez de Kaputt, de Curzio Malaparte, não há livro como este para nos descrever os horrores da guerra, pretérita, presente ou futura, como se passa a comentar. Mas primeiro a história de como este livro entrou na minha vida, a razão por que tenho vários exemplares em casa, para sempre que necessário reler esta joia literária, que tem tanto de horripilante como denunciador dos poderes maléficos que a bestialidade atinge quando a dignidade humana fica fora de jogo.

Em 10 de abril de 1967, véspera de entrar no Convento de Mafra, onde fiz a recruta do curso para oficiais milicianos, convidado pelo poeta Ruy Cinatti, jantei no Café Aviz, sito na Praça dos Restauradores, há muito desaparecido, era ali perto do cinema Éden, hoje hotel, mas mantendo felizmente a belíssima fachada concebida por Cassiano Branco. Manjávamos o bife da casa quando apareceu, tonitruante, o escritor e jornalista Amândio César, houve muita conversata, saiu-se do café e voltou-se a casa de Ruy Cinatti, até de madrugada. Quando nos foi largar no domicílio, Amândio César, que vivia na Avenida Infante Santo, fez questão de subir para ir buscar um livro de oferta para o futuro militar que dentro de horas entraria no Convento de Mafra, e que ele traduzira. Levei Kaputt de Malaparte para a Guiné, foi aí que ele me fascinou. Li e reli, aquele exemplar ardeu numa flagelação em março de 1969, a partir daí sempre que vejo um exemplar compro, é a melhor prenda que se pode dar não só a quem combateu na guerra colonial, a quem gosta de se confrontar com o horror mais profundo como aquele que Malaparte viu na Frente Leste, estão ali registados os horrores do nazismo e do fascismo, num estilo a que hoje se poderá chamar de “romance não-ficção”.

Malaparte era um jornalista brilhante, um enfant terrible do fascismo italiano, ideologia com a qual viria a romper, tendo mesmo sido perseguido pela Gestapo, devido à crueza dos seus comentários na correspondência que enviou da frente russa. Toda a brutalidade vai ser redigida com extrema elegância, trata-se de uma narrativa frontal do horrível, do imundo e da beleza. Kaputt (palavra alemã que quer dizer estragado, perdido, estilhaçado e reduzido a pedaços) é uma narrativa em seis partes, com protagonistas completamente diferentes.

A primeira, intitulada “Os cavalos”, Malaparte encontra-se com o Príncipe Eugénio da Suécia, acaba de regressar da frente finlandesa, conversam sobre Paris, Capri (onde Malaparte tinha casa), dos prisioneiros soviéticos que comiam os cadáveres dos seus camaradas no campo de Smolensk, dos cavalos russos que caíram num lago finlandês e gelaram, formando a composição mais inacreditável que é possível, com as cabeças de cavalo apontadas à outra margem do rio, é a beleza tétrica, um acidente que a natureza transformou num simulacro de obra-de-arte.

No episódio seguinte, “Os ratos”, Malaparte encontra-se com Hans Frank, o governador-geral da Polónia, é a descrição de um jantar alucinante, para os nazis os polacos e os judeus eram animais de cano de esgoto, num ambiente palaciano renascentista altos dignatários do nazismo dão gargalhadas de aprazimento com as apreciações de Hans Frank. E há mesmo um passeio como se fossem um circo, depois de se ter falado dos judeus empilhados dos guetos de Varsóvia e outras cidades e os doutrinadores raciais de Hitler terem expendido considerações sobre a extinção dos ratos judeus. O passeio é à volta de um gueto, veja-se a transcrição:

“– Repare neste muro – disse-me Frank. – Vê realmente essa terrível muralha de cimento eriçada de metralhadoras de que falam os jornais ingleses e americanos?

Na voz arrogante de Frank havia um não sei quê que eu julguei reconhecer, alguma coisa de triste: uma crueldade humilde e triste.

– A atroz imoralidade deste muro – respondi – não consiste apenas no facto de impedir que os judeus saiam do gueto, mas por os impedir de aí entrar.

– E, contudo – disse Frank, rindo –, embora a violação da proibição de sair do gueto seja punida com a morte, os judeus entram e saem à vontade.

– Escalando o muro?

– Oh, não! – respondeu Frank. – Saem por pequenas aberturas, semelhantes a buracos de ratos, que cavam durante a noite na base do muro e escondem de dia com terra e folhas. Enfiam-se por esses buracos e vão à cidade comprar víveres e roupas. O mercado negro do gueto pratica-se em grande parte através desses buracos. De vez em quando, alguns desses ratos caem na ratoeira: são crianças de 8 a 10 anos, não mais, arriscam a vida com verdadeiro espírito desportivo…

– Em Cracóvia – disse Frau Wächter – o meu marido construiu em redor do gueto um muro à oriental, com curvas elegantes e bonitas seteiras. Os judeus de Cracóvia não têm razão de queixa. É um muro muito elegante, em estilo judaico.

Todos começaram a rir, batendo os pés na neve gelada.

– Ruhe! (Silêncio) – disse um soldado que, de espingarda apontada, estava ajoelhado a alguns passos de nós, escondido por um montão de neve.

O soldado visa um buraco cavado à flor do chão. Um outro soldado, ajoelhado atrás dele, espiava por cima do ombro do seu camarada. De repente, este disparou. A bala atingiu o muro precisamente no bordo do buraco.

– Falhou! – exclamou alegremente o soldado, carregando de novo a arma.

Frank aproximou-se dos dois soldados e perguntou contra quem disparavam.

– Contra um rato! – responderam eles, rindo ruidosamente.

– Contra um rato? Ach So! – disse Frank ajoelhando-se para olhar por cima do ombro do soldado. Tínhamo-nos aproximado também e as mulheres riam e meneavam-se, erguendo as saias até meio da perna, como fazem habitualmente as mulheres quando se falam de ratos.

– Onde está ele? Onde está o rato? – perguntou Frau Brigitte Frank.

– Achtung! – disse o soldado, fazendo pontaria. Pelo buraco cavado na base do muro vimos aparecer um tufo de cabelos pretos desgrenhados: depois, duas mãos emergiram do buraco e apoiaram-se na neve. Era uma criança.

O tiro partiu. Desta vez ainda, falhou o objetivo por pouco. A cabeça da criança desapareceu.

– Dá cá isso! – disse Frank com impaciência – Nem sequer sabes servir-te de uma espingarda! – Apoderou-se da arma e fez pontaria.

A neve caía sobre o silêncio”.

A terceira parte chama-se “Os cães”. Num encontro entre diplomatas, Malaparte descreve a chacina de militares soviéticos na Ucrânia.

Na quarta parte, “Os pássaros”, a barbárie continua à solta, Malaparte conversa com a princesa Luísa da Prússia e falam das atrocidades praticadas pelos fascistas croatas.

Na quinta parte, “As renas”, Malaparte descreve o seu encontro com Himmler na Finlândia, dá-nos um portentoso retrato de um homem insignificante, o anti-modelo do ideal nazi.

Na sexta parte, “As moscas”, Malaparte encontra-se com Edna Ciano, a filha de Mussolini, assistimos aos bombardeamentos a Nápoles pelos Aliados, e temos a premonição do fim da guerra.

Como escreveu Malaparte: “A alegria cruel é a mais extraordinária experiência que tirei do espetáculo da Europa no decorrer destes anos de guerra”.

Li vorazmente esta obra-prima nalgumas noites de agosto de 1968, na minha morança, em Missirá, no regulado do Cuor, sempre na iminência de uma flagelação, era a regra de jogo da guerrilha e da contraguerrilha. Terei a dita de não ver esta crueldade praticada, mas nunca esqueci o espetro desta demência, guerras regionais de teor horrífico aconteceram, por exemplo na ex-Jugoslávia, e o muito mais que se sabe, terá havido limpezas étnicas dentro daquele espírito de destruir toda a espécie daquilo que se chama o inimigo, é assim que se praticam genocídios, é assim que se fazem as conquistas, matando e intimidando, como também é assim que se procuram aterrorizar os seres humanos, seja qual for a cor que se der às manifestações de Kaputt.

Não deixem de o ler, em nome daquilo que nós chamamos, e bem, a dignidade humana e o respeito que é devido ao Outro.

Mário Beja Santos
Mário Beja Santos

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