Agostinho da Silva e os maiores problemas de Portugal

Em Correio dos Leitores

Além de participar da comoção geral do mundo, sofria Portugal da sua ingénita pobreza, da sua ignorância, da inadequação das suas técnicas, de durante tanto tempo se ter ausentado de seu lar, da influência de muito pensamento que lhe era estrangeiro, pouca importância dando ao mais próximo; que seria o de seus irmãos ibéricos.”
Agostinho da Silva

Agostinho enuncia aqui os maiores problemas do Estado Português:

1. Ingénita pobreza: uma pobreza generalizada caracterizada pela inexistência de recursos minerais significativos ou de um número significativo de bons terrenos agrícolas. Mesmo o Mar, o chamado “Mar Português” da ZEE não é particularmente rico do ponto de vista piscícola. Do ponto de vista natural, Portugal é um país particularmente desprovido, especialmente se compararmos com a generosidade natural de algumas regiões europeias. Esta pobreza natural tem muito a ver com o endémico estado de subdesenvolvimento económico do nosso Hinterland.

2. “De sua ignorância“: Existem outros países e regiões europeias onde a generosidade da Natureza também se faz sentir. Contudo, nessas, e falo sobretudo das situadas em latitudes mais polares, o engenho, a qualidade do pensamento e da Educação, exercidas numa política longa de Gerações e não movida ao longo de “Paixões” fugazes e inconsequentes produziram das gentes mais instruídas do Mundo. Essas gentes foram capazes de usar os fracos recursos que a Natureza lhe oferecia da melhor maneira e de transformar Dificuldades em Vantagens. Esse foi o “Milagres Nórdico” que assentou no Conhecimento e na Tenacidade e não na Ignorância e Fatalidade lusitanas, ou hoje os nórdicos ainda seriam aqueles povos atrasados dos finais do século XVIII…

3. “De durante tanto tempo se ter ausentado do seu lar”: Compelidos pelas dificuldades do seu solo mátrio, os portugueses procuraram no Além Mar, primeiro, e depois, na Imigração, o sustento que a terra era ávara em lhes dar… Como consequência, os melhores de nós, os mais empreendedores, os mais dinâmicos, enfim, os mais audazes, embarcaram e foram criar aquele que viria a ser o segundo maior Império Colonial do mundo. Espalhados de Timor ao Brasil, a curta e rara gente portuguesa dissipou-se pelo mundo e deixou na Mátria apenas aqueles que porque não podiam, ou não queriam não estavam em condições de se abarcarem em voos mais altos do que os do quotidiano lento e torpe das cidades acabrunhadas e cinzentas de um Portugal que se esvaziava, para encher o Mundo.

4. “Da influência de muito pensamento que lhe era estrangeiro“: Negando as suas verdadeiras, profundas e ricas raízes peninsulares, mouras, romanas e pré-romanas, os portugueses (como os castelhanos) foram apaixonar-se pelas Luzes que lhes chegavam do outro lado dos Pirenéus, renegando as tradições políticas medievais, e o próprio coração aglutinador e paraclético das suas gentes, na vã tentativa de tornar o ibérico, e o português, em particular, num alemão ou num belga, tarefa impossível e inevitavelmente votada ao fracasso, porque o português, o basco, o galego, o andaluz, são simplesmente demasiado grandes para caberem nos corpos dos anafados e minúsculos belgas ou alemães. Os seus “Impérios”, não passaram disso mesmo: de construções políticas e económicas, criadas para obter o maior grau possível de eficiência, sempre à custa do sofrimento dos naturais, e nunca imbuídos do espírito universalista e espiritual das diversas formas de “império” que os portugueses ergueram ao longo da sua História.

Rui Martins

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