O grito das crianças

Em Opinião

Metade dos refugiados de Cabo Delgado são crianças e jovens. Duzentos e cinquenta mil de quinhentas mil pessoas, repito, 250 000 de 500 000 pessoas são crianças e jovens.

O que anuncia o Programa Alimentar Mundial (PAM), da ONU, a estas crianças? Que lhes vai reduzir a ajuda alimentar. “Sem financiamento adicional, o que é urgente, o PAM será forçado ou a reduzir as porções de alimentos ou a diminuir o número de beneficiários já em Dezembro. Ou seja, daqui a uma semana”!

Estranho mundo este… Enquanto por cá se escolhem Barbies, Lols, Legos (…) enquanto as luzes da cidade iluminam olhares, em Moçambique e em 52 países, 160 milhões de pessoas dependem dos fundos de emergência e do Programa Alimentar da ONU para conseguirem comer!

Estranho mundo este… 80 milhões de pessoas foram obrigadas a refugiarem-se em meados de 2020, um recorde em plena pandemia de covid-19! António Guterres e o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, lamentaram “que o mundo tenha chegado a este ponto de viragem sombrio e advertiram que “a situação se agravará se os líderes mundiais não puserem fim às guerras. Bem podem advertir, os refugiados continuarão a morrer à fome na terra ou no mar Mediterrâneo!

Estranho mundo este… “Os efeitos da pandemia de Covid-19 podem empurrar mais 207 milhões de pessoas para a pobreza extrema em 2030, elevando o total mundial para mais de 1.000 milhões, indica um estudo das Nações Unidas” citado pela LUSA.

Estranho mundo este – se não o tentarmos compreender!

É a guerra pelo poder económico, a pobreza e a fome que obriga as pessoas a refugiarem-se. Recordem-se da fuga de milhões de portugueses para o mundo e as miseráveis condições em que viviam por exemplo em França.

Emigrantes portugueses nos anos 60 em França, foto de Gérard Bloncourt

A guerra não é pela fé, é pelo dinheiro! Exxon Mobil, Triton Minerals, ENI, Annadorko, China Oil, Citigroup, JP Morgan (…) e a elite do poder moçambicano sabem porque é a guerra. Também sabem das imensas riquezas que exploram aos povos, colocam suas “híper-colossais” fortunas em offshores, deixando o povo na miséria e na fome.

Como relata este artigo da Global Voices que explica as origens do terror e este da Plataforma Media que faz 10 perguntas e respostas sobre a violência em Cabo Delgado, Moçambique, o problema não é religioso, é económico! A religião é a ferramenta e o “cimento” para juntar revoltados contra a miséria e a prepotência e usá-los como tropa de choque para disputar o acesso e o controle de matérias-primas valiosíssimas de Cabo Delgado:

  1. Investimentos de 115 mil milhões de euros numa única “cidade” – a cidade do gás. Esta verba é, pelo menos, duas vezes mais o valor “bazuca que se anuncia para Portugal e 400 vezes mais o valor que o Fundo de Emergência Alimentar da ONU conseguiu esta semana.
  2. A descoberta do maior depósito de grafite do mundo, que tornará a Triton Minerals a maior produtora do planeta.
  3. A extração ilegal e desenfreada de madeiras, aliás no mesmo rumo que segue a Amazónia, no Brasil, um negócio mafioso, destruidor da natureza, comandado por capitalistas que não olham a meios para dominar o comércio mundial de madeira.
  4. A exploração de rubis em Namanhumbir, 40% das reservas conhecidas de rubi do mundo, a expulsão de 4 000 garimpeiros, ou o maltrato à população de Moatize em que se acusa a empresa de extração de carvão mineral Vale, de origem brasileira.

Por cá são bem vindos os alertas da Comissão Nacional Justiça e Paz, como este: “Que o grito do povo de Cabo Delgado seja ouvido e não se depare com a indiferença!” Como são bem vindas as ajudas à reconstrução de zonas atingidas por ciclones e aos atingidos por cheias como a organizada pela Diocese de Santarém!

Recordo a “Ação de Solidariedade e Afeto com os Refugiados” promovida pelo movimento scalabitano “No Coração da Cidade”. Nela, usei da palavra na boa companhia de Joana Pinto, Isabel Moura, Sofia Vieira, Manuela Marques e Padre Ganhão. Como disse a Manuela: a ação visa “trabalhar as consciências e sensibilizar os cidadãos de uma cidade presa nas rotinas”. Esperança e Solidariedade foram as palavras de então.

Estranho mundo este… Esperança e Solidariedade enfrentam hoje o ódio e o racismo aos mais fracos pela ação de quem representa os donos do mundo.

O grito das crianças não é o grito das Barbies! É o grito da maior contradição da história da humanidade: a contradição entre os poucos que tudo possuem e os milhares de milhões de pessoas que nada têm. É a contradição de classes elevada ao nível mais exponencial de sempre!

O grito das crianças é também o grito da impotência propositada da ONU e do seu Conselho de Direitos Humanos!

Tanta coisa haveria para dizer… Estranho mundo este… Talvez não, é preciso compreendê-lo!

Vítor Franco

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