Leituras inextinguíveis (3): Um Crime no Expresso do Oriente, por Agatha Christie

Em Leituras

Com a concordância do jornal, cria-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento. É de todos sabido que a generalidade dos romances de Agatha Christie passaram à tela e são êxitos televisivos, há inclusivamente uma peça de teatro “A Ratoeira”, que tem vida lendária, são décadas a fio em cena, em Londres. Os amantes da literatura de crime e ficção certamente que se dividem sobre este ou aquele livro que mais o impressionou. Confesso que li na adolescência o n.º 13 da Coleção Vampiro Um Crime no Expresso do Oriente e que continuo a lê-lo, por o considerar a obra-prima por excelência da genial escritora britânica, é uma arquitetura inexcedível, numa atmosfera de ambiguidade e de silêncios premeditados que a claustrofobia de um comboio paralisado numa tempestade de neve ganha realce através de interrogatórios a fio, conduzidos por Poirot, que vão permitir um desfecho retumbante, só à altura das células cinzentas do detetive belga mais internacional que existiu.

O que há de verdadeiramente empolgante, de inusitado, que permite ler e reler este romance sabendo de antemão o seu desenlace? Poirot parte da Síria para Istambul, ouve acidentalmente uma conversa entre dois estrangeiros, algo de intrigante. Quando chega a Istambul e se prepara para umas merecidas férias, tem telegrama à espera, uma missão urgente aguarda-o em Londres, e à lufa-lufa apanha o Expresso do Oriente, Istambul-Trieste-Calais. Felizmente que conhece o responsável da companhia, consegue-se um camarote, aproveitou-se uma desistência. E começam a desfilar os outros passageiros, é uma clientela mais do que universal, um coronel, uma percetora, um estranho negociante de Arte e o seu secretário, uma princesa russa, um conde húngaro e a mulher, uma norte-americana exuberante, um comerciante italo-americano, uma empregada sueca, tudo indica que será uma viagem sem história, entretanto o tal senhor que é negociante de Arte pede serviços a Poirot, pensa que a sua vida corre perigo, o detetive recusa. E ocorre um crime, o dito senhor que se sente em perigo aparece apunhalado, o diretor do comboio solicita os bons serviços de Poirot para conduzir os interrogatórios, isto numa altura em que a viagem está interrompida por uma tempestade de neve.

E desencadeia-se a magistralidade do romance, num golpe de sorte Poirot reconstituí uma folha que estava queimada e onde vem um nome que vai dar o norte a toda a história, aquele senhor que morrera brutalmente apunhalado tinha sido o raptor e assassino de uma menina, um crime ignóbil de encher de comiseração a opinião pública, com algumas mortes em cadeia. Há indícios verdadeiramente contraditórios, mas também desorientadores, aparecem lenços, mulheres de quimono, queixas que andaram intrusos a atravessar quartos, e Poirot, diligentemente vai encontrando nexos naqueles passageiros, descobre que eles não estão ali por puro acaso, o assassínio de Margarida Armstrong parece ser o fio que os liga, no meio da nebulosidade e de algumas incongruências nos depoimentos dos passageiros, ninguém escapa ao interrogatório, Poirot vai detetando mentiras e omissões, parece que todos jogam numa história de roubo, quando o comboio parou entrara um ladrão que depois se escapara pela neve.

O leitor jamais pode despegar a sua atenção num encadeamento de todas estas versões, o coração da trama são mesmo estes inquéritos que levam o genial detetive belga a sentar-se, a ver as notas tomadas, a procurar lógica nas estranhas provas que se contradizem entre si, e chega-se ao momento do clímax, estão todos juntos e escutam a verdade dos factos que todos procuraram escamotear habilmente, Poirot reconhece que havia a dificuldade de apresentar provas contra qualquer dos passageiros, havia alibis improváveis, e olhando todos estes viajantes internacionais revela-lhes que descobrira a cumplicidade entre eles, aquele crime tivera um júri e traça o seu veredito:

“Vi, como no mosaico prefeito, cada pessoa desempenhando o próprio papel. Estava tudo disposta de tal modo que, se a suspeita recaísse sobre alguém, o depoimento de um ou mais passageiros demonstraria a inocência do indiciado, complicando ainda mais o mistério. Os passageiros da carruagem Istambul-Calais não corriam perigo. O caso todo era um enigma admiravelmente urdido”. Houvera alteração de planos, ninguém imaginava uma tempestade de neve e uma paragem forçada no Jugoslávia, os conjurados viram-se forçados a introduzir ligeiras mudanças na resposta ao plano inicial. Poirot desvela a maquinação, e uma famosa atriz confirma que de facto existia um plano, descobrira-se o paradeiro do assassino e os conjurados juntaram-se no Expresso do Oriente. Mas Poirot oferece-lhes uma outra versão do crime que os conjurados aprovam, o genial detetive belga sorri e anuncia que tem a honra de se retirar do caso.

É uma obra de crime e mistério que se tem de ler com atenção e devoção. E não é por acaso que guardo religiosamente a velha edição com capa de um artista famoso, Cândido da Costa Pinto, que durante muito tempo foi o responsável pela parte gráfica da Coleção Vampiro, como também pela coleção de ficção-científica de Livros do Brasil, a Coleção Argonauta. O leitor não se sentirá defraudado com esta empolgante leitura que nos leva a um poderoso confronto do que é praticar a justiça pelas próprias mãos quando o assassino, por artes e manhas, conseguiu furtar-se à pesada sentença do juiz. Não desmereço de outras obras de grande rasgo de Agatha Christie, logo o primeiro volume da Coleção Vampiro intitulado Poirot desvenda o passado ou outro romance extraordinário, Testemunha de Acusação, que tem igualmente um final que nos deixa em estado de choque. Mas este Um Crime no Expresso do Oriente tem a alegoria de entrarmos numa viagem em que o passado está sempre presente, um passado que levou à congregação de familiares e amigos de uma vítima que pedia justiça – e que a encontrou na viagem entre Istambul e Calais.

Mário Beja Santos

Leave a Reply

Recentes de Leituras

Ir para Início
%d bloggers like this: