Lisboa resiste, mas também nós resistiremos: Mil alegrias natalícias para todos vós

Em Opinião

Mário Beja Santos

6 de dezembro, choveu copiosamente de manhã e no princípio da tarde, depois amainou, aproxima-se o lusco-fusco, está na hora de pôr o meu projeto em andamento, procurar iluminações (em sentido figurado, também) para enviar votos de boas festas para quem guarde lembrança, recordar os meus vivos e os meus mortos, passar a ponte baloiçante entre o pretérito, o presente e o almejado futuro. O poeta Manuel Alegre num dos seus livros épicos disse que quando nós desembarcarmos no Rossio é sinal de grandes mudanças, falava do combate à tirania, eu estou no Largo de Camões, onde outrora havia barracas e enxovias, depois urbanizou-se e pôs-se no centro o vate imortal, puseram-lhe crepes no Ultimatum, o Partido Republicano emergia de uma afronta. Aqui decorreu o final de uma das obras-primas de Eça de Queirós, por aqui andarilhei todos os dias, quando trabalhei na Rua do Século, e aproveitava as horas do almoço para bisbilhotar cantos e recantos de inexcedível beleza: subir e descer a Rua da Emenda, percorrer as Chagas, a Rua da Misericórdia, bisbilhotar os alfarrabistas da Rua do Alecrim ou da Calçada do Combro, o resto, em termos de paisagem, estava por minha conta, deram-me o folgado gabinete outrora ocupado por Maria Lamas, era só abrir a janela e tinha o Tejo quase até à foz. Lembranças felizes, evocações felizes, votos felizes para o que a roda da fortuna nos reserva.

Paro diante deste palacete, com o Chiado à frente amistoso, a chispar malícia, foi hotel, consulado, residência de altos representantes, passou a companhia de seguros, tem por vezes belas exposições de artes de uma galeria do rés-do-chão. Ali ao lado, onde é a chiquérrima e sofisticada Hermès, havia a galeria do Diário de Notícias, e quase em frente um quiosque gerido pela Nani e o Vítor Consciência, ali comprei desenhos do Stuart, Amarelhe e Manuel Ribeiro de Pavia, a preços convidativos, um dia o quiosque desapareceu, encontrei a Nani na Feira da Ladra a vender os despojos do quiosque e choramingona, o Vítor finara-se depois de grande sofrimento. E ali perto houve um dos principais cinemas da minha adolescência, o Chiado Terrasse, tinha muitos filmes de capa e espada mas também por ali passavam obras-primas de Hitchcock, John Houston ou John Ford, enfim, reminiscências de todo este espaço que bati a pé, ao longo da minha provecta idade, o mesmo é dizer que vos desejo longa vida, e com muitos aspetos auspiciosos que Deus tem dado à minha.

Por aqui passa a veia cava do Chiado, de baixo para cima e de cima para baixo. Há a Havanesa, a Paris em Lisboa, a Casa David, a Sá da Costa, a Bertrand, as ourivesarias Aliança e Eloy, tudo transformado, embora os espaços possam guardar lembranças da vida febril do passado. Já me postei diante da Basílica dos Mártires, orações telegramáticas para antepassados e vivos, paro agora diante daquele prédio que tem florista à porta e onde no quarto andar funcionou a última tertúlia do Chiado, a Mandíbula de Aço, obra e graça do meu querido amigo Filipe de Sousa, que tinha negócios de fazendas ali mesmo em frente, a Casa Souza, uma atmosfera de arte onde se comia um belo cozido à portuguesa ou uma chispalhada à transmontana, sempre em boa companhia. As lembranças não param e até deu para me especar em frente à Pastelaria Marques, outrora casa de luxo, quando o Ruy Cinatti visitou em casa para conhecer a minha filha Joana, dizendo de chofre que as crianças à nascença são todas iguais, trazia doçarias da Marques e uma linda peça de prata lavrada indiana para a recém-nascida, que continua a estimar tão terna oferta. Do lado esquerdo de quem desce havia a Casa José Alexandre, e logo me ocorre que um ministro me chamou ao gabinete a pedir auxílio, a meio da tarde viria um conceituado embaixador, queria tratá-lo com algum salamaleque, descobrira, atónito, que havia para ali uns copos embaciados e encardidos, eu que tivesse a amabilidade de ir comprar coisa mais digna, em copos de água e cálices de Porto. Lá fui à Casa José Alexandre, fui bem-sucedido. Anos depois, ao mudar de poiso da Praça do Comércio fui para a Avenida da República, ao retirar dossiês que me acompanhariam na viagem dei com copos lascados daquele conjunto adquirido, tinha estoicamente resistido um, desforrei-me, trouxe-o comigo, já chegava de tanto vandalismo e menosprezo por coisa pública. E vamos adiante, há mais luz que nos espera.

A Rua Nova do Almada traz-me à lembrança uma bela exposição que se pôde visitar no Museu Nacional de Arte Antiga que tinha por centro um quadro sobre a Rua Nova dos Mercadores, quando Lisboa tinha fumos de império, especiarias e uma boa percentagem de escravos africanos. Mas também me recordo de uma loja muito concorrida, a Casa Batalha, e do outro lado a Valentim de Carvalho, onde comprei um bom lote de discos de vinil que ficaram em cinzas na Guiné. Arrepio-me sempre quando passo pelo antigo Tribunal da Boa Hora, as vezes que ali fui testemunha para coisa nenhuma, recebia convocatórias para as onze da manhã, e depois vinha o meirinho anunciar que a audiência não teria lugar, receberíamos nova convocatória. E desço para a Rua do Ouro, está bem luminescente o Santander Totta, que conheci como Totta e Açores, quando fui oficial pagador da Agência Militar e vinha buscar em caixas de couro milhões de contos ao Banco de Portugal via às portas deste banco bandos de especuladores a vender ações de lucros prometedores, houve muita gente gulosa que investiu as suas economias neste papel que se veio a demonstrar valer coisa nenhuma, era puro capitalismo de ficção. E daqui vou até à Praça do Município, recordo José Relvas eufórico há 110 anos, como nunca esqueci as suas memórias que me avisaram que existe um oceano entre o sonho e a realidade.

É verdade, fui funcionário público no Terreiro do Paço, subi as escadas do Ministério da Agricultura e num andar superior funcionava o Ministério do Comércio Interno, eu dirigia as relações públicas, para o caso ralações, estamos a falar do tempo em que a inflação tinha dois dígitos, em que os abastecimentos motivavam altas questiúnculas entre partidos e até me lembro de no dia 25 de novembro de 1975 os preclaros membros do governo desapareceram e fiquei com o atendimento telefónico por minha conta, aí para o fim da manhã recebi uma chamada desesperada do Presidente da Câmara do Barreiro a suplicar uma atitude pública para apaziguamento das populações, havia um assalto aos supermercados e mercearias, dizia ele que corria o rumor de que caminhávamos para a guerra civil, agradeci a informação e redigi por minha conta e risco um comunicado que a agência oficial fez divulgar pelos meios de comunicação. Choveu bem todo o dia, já se disse atrás, vou aproveitar os tapetes líquidos para refletir imagens, o Arco da Rua Augusta está bem iluminado, ao contrário do Sr. D. José que parece vogar num mar de trevas. Ocorreram-me essas imagens, fazem parte deste meu propósito de vos desejar mil alegrias natalícias, festejamos assim juntos o que a pandemia impede, a árvore de Natal parece irradiar calor, é um afago para os olhos, a Lisboa Pombalina está deserta, mas este cone de luz endereça-nos para a paz na terra aos homens de boa vontade.

Que simbólica encontro nestas iluminações da Rua do Ouro? Pois bem, a estrela de Belém, a esperança em melhores tempos, que não nos falta saúde, a curiosidade, o gosto de presentear o outro, a mão estendida para entreajuda. E olhando este céu estrelado, vem-me à mente uns versos de Ruy Cinatti que ainda hoje são um dos meus compassos da vida:

Paz comigo próprio. Paz

que não me contente. Paz

armada ou pacífica, mas paz

que não me iluda. Paz

mítica ou revelada. Paz

que me contagie ou paz

entre mim e os outros. Paz

que me não compare. Paz

ativa, humilde. Paz

que me encha as mãos

e não conspurque. Paz

vocativa: semente, fruto. Paz

na alma. Paz

de Deus que me enamora

só de Deus enamorado.

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