Leituras inextinguíveis (4): A única obra de crime e mistério escrita por John le Carré

Em Ribatejo Cool
John le Carré

O recente desaparecimento, aos 89 anos, do notável escritor britânico John le Carré foi objeto de comentários encomiásticos, em que regra geral ele era tido como o grande inovador do subgénero literário da espionagem. É inegável que o seu êxito O Espião Que Veio do Frio (1963) trouxe uma mudança fundamental neste subgénero que se alimentava da Guerra Fria, aliás um dos palcos fundamentais das suas obras é Berlim, a fronteira por onde se trocam espiões, por onde se entra e sai para desvendar segredos do inimigo. Se hoje se traz à colação a sua única obra de crime e mistério, que literariamente é uma narrativa apagada, com soluções rudimentares, é exclusivamente para avultar que o seu génio era polifacetado, finda a Guerra Fria ele brindou-nos com obras assombrosas que trataram com a maior crueza o tráfico de armas, a corrupção financeira, as guerras regionais ou as maldades da indústria farmacêutica, a todos os títulos incomodou muita gente e deixou bem claro que isto de ser espião pode ser um atributo da própria condição humana, e daí os seus heróis ou figuras icónicas serem pessoas pardacentas, valdevinos, aldrabões de feira.

Um Crime Quase Perfeito precede o bestseller que foi O Espião Que Veio do Frio, apareceu em Portugal nas Edições 70 e no Círculo de Leitores, não foi credor de muitas reedições. Mete um crime numa atmosfera colegial, introduz estudantes que abrem o pano para o jantar de um professor que está em vias de se jubilar, tudo decorre numa atmosfera com comentários sardónicos e maledicência estudada. E saltamos para um jornal de cariz religioso onde a chefe da redação recebe uma carta de um desses professores do Colégio Carne a pedir ajuda porque o marido procura assassiná-la. Afligida com o pedido insólito, ela pede colaboração a um amigo de longa data, alguém que sabe lidar com este tipo de investigação detetivesca, George Smiley, porventura o mais importante espião da galeria romanesca de John le Carré. E de forma premonitória, talha-se aqui a figura que jamais será contestada na sua profusa obra literária:

“Smiley era um desses indivíduos solitários que parecem ter vindo ao mundo aos 18 anos de idade, já completamente educados. A obscuridade constituía a sua natureza, assim como a sua profissão. Os atalhos da espionagem não são povoados pelas aventuras variadas e coloridas da ficção; um homem que, como Smiley, viveu e trabalhou durante anos entre os inimigos do país, só conhece uma prece: que nunca, nunca dê na vista. A assimilação é o seu maior auxiliar; aprende a amar as multidões que passam por ele na rua sem o olhar, agarra-se a elas para sua anonímia e segurança. O medo torna-o servil; é capaz de beijar os que andam às compras e que, na sua impaciência, o acotovelam, o empurram, e o obrigam a sair do passeio. É capaz de adorar os oficiais, os policias e os condutores de autocarros pela concisa indiferença da sua atitude respetiva.

Mas este medo, este servilismo, esta dependência desenvolveram em Smiley uma perceção dos seres humanos, uma sensibilidade rápida e feminina dos seus carateres emotivos. Conhecia a humanidade como um caçador conhece o esconderijo da caça, e a raposa o seu bosque. Um espião tem que caçar enquanto é caçado, e a multidão é o seu domínio. Recolhe os gestos e as palavras, fixa o intercâmbio de olhares e movimentos como o caçador nota o ramo torcido, o galho quebrado, ou uma raposa descobre os sinais de perigo”.

Smiley é confrontado com o assassinato e a par da investigação policial põe-se em campo, vai-se relacionando com toda a gente do Colégio de Carne, deteta rivalidades, mexeriquices, enreda-se naquele homicídio que tem caraterísticas bem insólitas, até aparece uma demente que dá explicações cabalísticas. Está atento a minudências, a exames de alunos, aos vestígios estrambóticos deixados pelo homicida, quer saber mais sobre a mulher assassinada, tudo se encaminha para um beco sem saída, até que uma encomenda enviada por uma obra de caridade começa a esclarecer um plano tenebroso, a assassinada exercia uma poderosa e secreta chantagem sobre alguém que concebe um plano aparentemente inatacável para a fazer desaparecer. Temos o desfecho clássico, Smiley põe à prova o assassino, joga com alguns rodeios: “Não conhecemos bem as pessoas. Nunca se pode saber ao certo como são. Não existe nenhuma verdade acerca dos seres humanos, nenhuma fórmula que sirva a cada um de nós. Somos, no fim de contas, camaleões. Há pessoas que não sentem nada dentro delas, nem prazer nem dor, nem amor nem ódio. Envergonham-se e assustam-se por não poderem sentir. E essa vergonha leva-as a extravagâncias e falsas aparências”. E vai explicando ao assassino como tinha encontrado a verdade depois de encontrar numa encomenda uma capa de plástico e as botas usadas para gerar a maior das confusões na investigação. O homicida pretende fugir, teme a forca. Smiley vai ganhando a identidade, o corpo e a alma que começarão a envolver os leitores de John le Carré e hoje vivem em luto profundo pela falta das suas obras-primas:

“Simley viu o carro partir; não ia com pressa, limitava-se a abrir caminho pela rua molhada, até que desapareceu. Ficando ali muito tempo depois do veículo ter ido, Smiley fitava o extremo da estrada e os transeuntes pasmavam ou tentavam seguir-lhe o olhar. Mas não havia nada que ver; apenas a rua mal iluminada e as sombras que nela se moviam”. Está construída a atmosfera em que o mais taciturno espião merecerá as honras da casa nas leituras inextinguíveis de John le Carré.

Mário Beja Santos

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