No início da literatura de crime e mistério: Mary Roberts Rinehart

Em Ribatejo Cool
Mary Roberts Rinehart

O Mistério da Escada de Caracol, tradução de Erico Veríssimo, Livros do Brasil, chancela da Porto Editora, 2020, dá possibilidade ao leitor de conhecer a ilustre pioneira do romance de crime e mistério, a norte-americana Mary Roberts Rinehart, o seu romance de estreia, 1908, que se lê com muitíssimo agrado, pelo grau de exigência da escrita, de grande vivacidade e graças à trama original, um enredo em que se encadeiam, por muitas peripécias, apresentações das personagens que vão alterando radicalmente a investigação policial, e abrindo caminho a uma anónima a quem se deve o feito da resolução do caso. A anónima é neste caso Rachel Innes, uma solteirona de meia-idade que decide alugar uma casa de campo para ela e dois sobrinhos, e abre amenamente o seu romance dizendo que se trata de uma história em que ela se viu envolvida em misteriosos crimes que mantêm os jornais e as agências de detetives em contínua ventura e prosperidade. Ela quer que o leitor saiba que teve um papel interventivo e dinâmico: “As reportagens dos jornais foram adulteradas e incompletas. Por sinal, uma delas mencionou-me apenas uma vez, e ainda assim descrevendo-me simplesmente como inquilina da casa na altura em que tudo aconteceu. Por esse motivo, sinto que o meu dever é contar o que sei. O próprio detetive declarou-me que nada poderia ter feito sem mim; no entanto, de acordo com a imprensa, pouca importância me deu”. E é nesse quadro de amenidade que nos vai apresentando a sua identidade e como tia solteirona lhe passou pela cabeça ter uma casa de campo no interior do país para férias. Uma bela casa por sinal, pertencente a um banqueiro que residia ao tempo noutra localidade. A casa era uma típica residência de verão, que ela assim descreve: “Tinha a forma de um longo retângulo, com entrada principal no centro. A entrada pavimentada de tijolo abria para um pequeno corredor, à direita do qual, separada apenas por uma fila de pilares, ficava uma imensa sala de estar. Além desta, existia a sala de visitas e, por fim, a sala de bilhar. Fora da sala de bilhar, ainda na ala direita do edifício, havia um recanto, ou uma espécie de sala para jogos de cartas, com pequeno átrio, que dava para o alpendre do lado este. Aí, encontrava-se uma estreita escada de caracol”. O leitor irá verificar que não é despicienda toda a organização deste espaço. Começam a aparecer vultos, gente que desaparece rapidamente, ouvem-se movimentos noturnos, caem objetos, há pessoal da casa que começa a fugir espavorido. Chegam os sobrinhos e trazem um hóspede. Os acidentes precipitam-se, aparece alguém morto junto da escada de caracol, o assassinado era o filho do proprietário. A tia anda à volta do edifício e encontra um revólver que decide guardar num lugar seguro.

São revelações atrás de revelações, descobre-se que a sobrinha tem um noivo que de repente desaparece, chega o detetive que não parece muito convencido com os depoimentos dados, a tia sente-se confusa, a quem pertenceria aquele revólver, o que significava o aparecimento de um botão de punho num cesto de roupa? O detetive encontrara, entretanto, um texto datilografado nos bolsos do assassinado com muitas palavras em falta, anda também profundamente intrigado. A tia acaba por descobrir que há gente a viver na casa de guarda, os incidentes não param, há ruídos e pessoas que aparecem e desaparecem. O comportamento dos sobrinhos também é insólito. O noivo da sobrinha não abre boca, também tem os seus segredos. Descobre-se que o banco do proprietário fechou as portas, mais um sobressalto para a tia, era ali que estavam os investimentos dos sobrinhos, acontece que o noivo da sobrinha era quadro da instituição bancária. Em casa, há imprevistos cortes de luz, ouvem-se ruídos de corpos a roçar no corrimão da escada de caracol, esta trapalhada interminável está muito bem urdida, com a permanente entrada e saída das personagens, entradas de rompante com a chegada da filha do banqueiro que por acaso também torce o beicinho pelo sobrinho da nossa tia investigadora, vem-se a saber que há um médico escabroso que é conivente com o ardil da falência do banco e possui instintos homicidas, morre mais gente e toda a história se complica, até porque quem chega acaba por desaparecer, os terrores noturnos são uma constante, só no termo da história é que se virá a saber que há uma fortuna escondida entre paredes, as revelações continuam a ser surpreendentes e fazem-se por vezes com declamações do tipo teatral, percorre-se a casa à procura de suspeitos, detetive e tia permanecem desorientados, o que é que esta gente anda à procura, há objetos que aparecem e desaparecem como as pessoas, há um incêndio monumental nas cavalariças e todo este enovelado é esclarecido e agarram-se todas as pontas soltas, aparece um cofre com um milhão de dólares, noivos aparentemente desavindos fazem juras de amor, descobre-se o móbil do primeiro crime, fica tudo claro porque é que iam aparecendo e desaparecendo sobrinhos e amigos, etc. e tal. Ainda aqui não se referiu, mas esta tia solteirona faz-se acompanhar de uma dama de companhia (de nome Liddy), com quem anda em permanente arrufo, já se despediu mil vezes desde que se alugou a casa, e esta escritora norte-americana que é hoje historicamente sabido que ditou as regras de um novo género de policial, onde o crime e mistério se rodeiam às vezes de humor escolhe apropriadamente este relacionamento para concluir esta história que tem mais de 110 anos, que tem inevitáveis rugas (caso dos preconceitos raciais ou referências a meios de deslocação totalmente extintos) para pôr termo ao romance:

“Às vezes, Liddy ameaça abandonar-me e, muitas vezes, eu dispenso os seus serviços. Mas acabamos sempre por ficar juntas. Estou a pensar em alugar uma casa para o próximo verão. Liddy pede-me encarecidamente que eu trate de verificar antes se a vivenda não terá fantasmas. Para ser absolutamente honesta, eu nunca tinha realmente vivido até àquele verão. Os meus vizinhos estão a fazer as malas para mais umas férias. Liddy também vai começar a arranjar as nossas coisas. Com ou sem Liddy, amanhã vou publicar um anúncio para arrendar uma casa de campo para o verão. E não quero saber se ela tem uma escada de caracol”.

Houve quem chamasse a Mary Roberts Rinehart a Agatha Christie norte-americana. Creio tratar-se de um exagero, a norte-americana jamais atingiu a versatilidade da obra da autora britânica, mas ninguém lhe tira a palma de ter sido a pioneira do crime e mistério, ainda por cima estreou-se com esta trama bem urdida, um tanto marcada pela literatura realista do século XIX, mas lemos sentindo que se abrira uma janela num subgénero literário que vivia na estrita dependência de uma narrativa cheia de aventuras, bons ladrões e resgatadores de meninas indefesas. E a pioneira deixou literatura inextinguível, este livro é um marco miliário, define rigorosamente uma nova fronteira.

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