Despudorada discriminação

Em Opinião

Tino de Rans, quem não conhece esta figura típica do “cancioneiro político” português? Direi poucos.  Com o seu estilo picaresco, que ninguém deixa indiferente, já nos habituou à sua eficácia no recolher de assinaturas para fundar partidos ou para se candidatar a cargos políticos de relevo, surpreendendo pela forma como, nas últimas eleições presidenciais, granjeou 3,28% dos votos, ou seja, por ter conquistado mais de 150 mil cruzinhas nos respectivos boletins.

Confirmando essa capacidade para cumprir requisitos constitucionais e legais, Vitorino Silva integra, de novo, a lista de concorrentes ao topo do cursus honorum lusitano, isto é, a Presidência da República, gozando dos mesmos direitos que os seus oponentes e exigindo-se-lhe idênticos deveres.

Contudo, por motivos que não são entendíveis por cidadãos dotados de bom senso, diversos canais de televisão – nos quais se inclui a RTP – recusam-se a organizar debates que incluam o ex-calceteiro e líder daquela agremiação, algo anedótica, que gosta de nos fazer gargalhar: o RIR – Reagir, Incluir, Reciclar.

Como compreenderão, Vitorino Silva não é uma pessoa que, em termos de dedicação às causa e coisa públicas, me inspire qualquer crédito ou confiança, assemelhando-se a uma personagem truã da commedia dell’arte, mas é um cidadão de pleno direito e, neste caso, um oficializado competidor  pelo título de Chefe de Estado.

Por conseguinte, tentei inteirar-me acerca de qual seria o critério destes órgãos de comunicação social para segregarem o homem, chegando, incrédulo, à conclusão de que somente desejam ouvir contendores que beneficiem do apoio de partidos políticos com representação parlamentar. A desfaçatez é tanta que não se preocupam em esconder a discriminação (fonte JN): “O argumento tem que ver com o facto de os debates acontecerem antes do período oficial de campanha (que durará entre 11 e 22 de janeiro), permitindo às direcções aplicar um critério editorial que não se traduza num tratamento “absolutamente igualitário entre todas as candidaturas.

Por outras palavras, não há uma razão atendível que justifique o acto! RTP, SIC e TVI pretendem, declaradamente, excluir um indivíduo que não lhes interessa, aproveitando-se do calendário para que esse estuporado afastamento seja legal; e utilizam fundamentos partidários num sufrágio em cujas candidaturas são unipessoais.

Este comportamento é inaceitável num Estado de Direito Democrático e Social, o que me leva a perguntar: por onde andam a CNE e a ERC? Independentemente de – à luz da legislação eleitoral – estas despudoradas condutas serem possíveis, que é feito do papel influenciador da primeira e da fiscalização do cumprimento de regras éticas e deontológicas que cabe à segunda?

Neste vergonhoso processo de silenciamento, salva-se o Porto Canal que já anunciou frente-a-frente entre Vitorino Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Ana Gomes. Menos mal!

Ora, eu não espero uma manifestação conjunta de solidariedade, de todos os candidatos, traduzível, enquanto não houver mudança de posição, na recusa em participar em debates televisivos transmitidos pela RTP, TVI e SIC; no entanto, tal seria uma prova de maturidade digna de um sonoro aplauso!

Lá isso seria…

João Salvador Fernandes

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