Leituras inextinguíveis (5): Declínio e Queda das Vanguardas do Século XX, por Eric Hobsbawm

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Como é que é possível que o texto de uma conferência, com umas magras dezenas de páginas, suscitar ao leitor, em permanência, questões novas, olhares diversificados sobre uma das questões mais complexas que se põem à criação do génio humano? Originalmente publicada em 1998, foi editada em Portugal pela Campo das Letras em 2001, e temo que não faça parte da bibliografia obrigatória seja em Estética, Sociologia da Arte, ou mesmo o estudo das Artes Visuais. E, no entanto, as apreciações de um dos historiadores mais influentes do século XX são ousadas, inquietantes, e postas numa linguagem deslumbrante, forma vivacíssima, denotando uma cultura incomum.

Eric Hobsbawm

O que diz, essencialmente, o historiador? Que as diversas correntes da vanguarda artística, ao longo do século XX, não ignoravam as transformações operadas no relacionamento entre a arte e a sociedade. Acontece que no domínio das artes visuais os projetos de vanguarda falharam irremediavelmente. Estas artes têm estado em desvantagem em relação às demais artes. Os seus artistas tentaram repensar a arte de modo revolucionário, não tiveram sucesso. O século XX fez-se do entrosamento de diferentes paradigmas: a velocidade da comunicação e do transporte, caso do comboio, do automóvel, do avião supersónico, da telegrafia sem fios, da televisão e do digital; da multiplicidade das imagens, logo pela fotografia, depois pelo cinema, até se chegar à rede das redes onde também as imagens imperam, sempre coniventes com os operadores; do crescimento urbano, da necessidade da política satisfazer as multidões; da transferência do campo e da agricultura para o trabalho em máquina num contexto fabril; na ascensão das classes médias, no nexo entre entretenimento e cultura; da tecnologia permitir a reprodutibilidade do objeto artístico e do próprio artista se entusiasmar com a xilogravura, a gravura, a serigrafia, a cerâmica, etc.

O historiador observa como a máquina fascinou o artista, foi o caso expressivo da arte da máquina concebida pelos construtivistas russos (daí a homenagem feita a Tatlin por dois artistas, obra de 1920, constitui a capa deste livro). O autor diz que a história das vanguardas visuais do século XX é uma luta contra a obsolescência tecnológica, o artista visual pode ter notoriedade, mas ela está seriamente limitada: “Contrariamente aos escritores e compositores clássicos, não se sabe de nenhum pintor de entre todos os que são conhecidos da história de Arte que tenha alguma vez sido nomeado para um Óscar. A única forma de arte coletiva em que o pintor, especialmente desde Diaghilev, o pintor vanguardista, tenha sido considerado realmente como um igual e não como um subordinado, foi o ballet”. Nas artes visuais, na perspetiva das massas, representa um interesse minoritário. A procura por quadros procede essencialmente do consumo privado. Obviamente que a arte pública, os monumentos e outras formas de ocupar a paisagem urbana. Observe-se, no entanto, como diminui a presença de esculturas nos jardins e noutros espaços públicos.

A crise das artes visuais é distinta da que afetou as demais artes. “A literatura nunca renunciou ao uso tradicional da linguagem ou, em poesia, aos condicionamentos da métrica. No domínio literário, a revolução modernista foi compatível com a continuidade técnica. Por outro lado, a vanguarda musical rompeu de modo mais dramático com a linguagem do século XIX, mas uma imensa maioria do público melómano manteve-se fiel aos clássicos, aos inovadores pós-wagnerianos do século XIX que acabaram por converter-se (…) A pintura abstrata só começou a ser cotada a preço elevado com a Guerra Fria quando, por certo, beneficiou da hostilidade que Hitler e Estaline tinham mostrado por ela. E assim transformou-se numa espécie de arte oficial do ‘mundo livre’ contra o ‘totalitarismo’ – curioso destino para os convencionalismos burgueses”.

A questão do reconhecimento público merece ser dimensionada. O autor lembra que Renoir e Van Gogh se destacam como os artistas mais populares em todos os níveis socioprofissionais, mas quando chegamos ao grupo dos docentes universitários e dos produtores artísticos os eleitos são Goya e Brueghel. Não se pode comparar a popularidade de Braque frente a Van Gogh.

Mudemos de direção, o que comunica a pintura? O historiador observa: “Durante o meio século que separa os fauvistas da arte pop, procurou-se desesperadamente responder a esta pergunta através de uma interminável sucessão de vários estilos. Se excetuarmos breves períodos, não é sequer possível definir uma tendência geral, como seria uma evolução da representação para a abstração, ou do conteúdo para a forma e para a cor”. O autor exemplifica com o cubismo para mostrar as inúmeras reservas da sociedade face ao que entende que necessita de ser explicado. Dizia-se que o cubismo era a mais revolucionária e influente vanguarda do século XX, o que podia ser verdade para alguns pintores entre 1907 e a I Guerra Mundial. O cubismo afirmava apresentar diferentes aspetos dos objetos dando simultaneamente uma visão multidimensional do que na realidade eram. Mas, quase ao mesmo tempo que o cubismo o cinema começou a desenvolver essas mesmas técnicas de perspetiva múltipla, focagens variáveis e artifícios de montagem que acabaram por familiarizar um público alargado”. Para já não falar na fotografia que passou a comunicar o sentido da inovação com mais eficácia do que uma pintura comparável de Picasso. E chegamos às observações do historiador que são a tese da sua conferência:

É impossível negar que a verdadeira revolução na arte do século XX não foi levada a cabo pelas vanguardas do modernismo, mas sim fora do âmbito do que se reconhece formalmente como Arte. Esta revolução resultou da lógica combinada da tecnologia e do mercado de massas, isto é, da democratização do consumo estético. Em primeiro lugar, foi, sem dúvida, obra do cinema, filho da fotografia e arte capital do século XX. A Guernica de Picasso é, enquanto obra-de-arte, incomparavelmente mais impressionante que E Tudo o Vento Levou, de Selznick, mas do ponto de vista técnico esta é uma obra muito mais revolucionária. Pela mesma razão os desenhos animados de Disney, ainda que inferiores à austera beleza de Mondrian, foram muito mais revolucionários que a pintura a óleo e mais eficazes a transmitir a mensagem que pretendiam. Os anúncios e os filmes, concebidos por criativos e técnicos não só mergulharam a vida quotidiana numa experiência estética, como também acostumaram as massas a atrevidas inovações na apreciação visual. Uma câmara sobre carris consegue comunicar melhor a sensação de velocidade do que tela futurista de Balla. Deve ter-se em conta que as artes verdadeiramente revolucionárias foram aceites pelas massas porque tinham algo a comunicar-lhes. Só na arte de vanguarda o meio coincidiu com a mensagem. Na vida real, este sofreu uma revolução a favor da mensagem”. As vanguardas tiveram projetos para mudar as vidas das pessoas, mas foram pessoas como Henri Ford puseram a tecnologia a satisfazer a necessidade de dar resposta a ganhos no tempo e a alargar a mobilidade. Todos os movimentos de vanguarda procuraram o procuraram o povo, mas nada se revelou suficiente, os criadores de máquinas e os artífices da tecnologia foram sempre mais à frente, são eles hoje vanguardas, que acabam por se encontrar, por múltiplos processos, com toda a sociedade.

Mário Beja Santos

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