Um olhar à Carta Encíclica FRATELLI TUTTI do Papa Francisco – Sobre a fraternidade e a amizade social

Em Opinião

Até aos 16 anos fui crente. Com as leituras de filosofia e marxismo fui modificando a minha opinião, mas sempre mantive o interesse pela teologia. Como se enquadram nas sociedades, como agem os seus principais atores, como são usadas ou manipuladas em ferramentas de inclusão e solidariedade ou de exclusão e conflitualidade, como correspondem ou não a poderes políticos e económicos, como agem ou reagem sobre a evolução social ou os direitos humanos…

A minha intensa atividade no associativismo nunca me deixou muito tempo para regressar à reflexão temperada com semanas, mas apenas com horas. Em todo o caso, nas minhas várias viagens, sempre procurei perceber e conhecer os lugares de culto das variadas crenças religiosas. Foi com particular interesse que procurei um olhar sobre a Encíclica “Fratelli Tutti” que pode encontrar aqui.

Há parágrafos que partilho com particular gosto. O primeiro vem do Capítulo I, As sombras dum mundo fechado / Sonhos desfeitos em pedaços:

“Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes económicos transnacionais que aplicam o lema «divide e reinarás».

Estas palavras do Papa Francisco serão um perigoso esquerdismo para os que cultivam o ódio aos mais fracos, a identidade dos poderosos e dominantes como identidade única e com consigna outorgada de opressora da riqueza da diversidade humana. Sê-lo-ão para os que posam ao lado da imagem de Nossa Senhora de Fátima e afirmam que “este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo” fazendo-se rodear de gente ligada ao terrorismo como o que matou à bomba o Padre Max em Vila Real.

No fim da Encíclica o Papa faz

“… retomar aqui o apelo à paz, justiça e fraternidade que fizemos juntos: Em nome desta fraternidade, dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela”.

Ali, ao lado do Vaticano, na colina de Gianicolo, pouso em foto com a minha camarada Anita Garibaldi heroína dessa liberdade dos homens e dos povos. Ela traz flores vermelhas e eu uma vermelha sacola do congresso do Bloco Nacionalista Galego. Seguro a pata do seu cavalo como que a segurar o movimento de energia contagiante. Nos murmúrios do vento penso ouvir as palavras de Anita (…) são sobre Francisco, aquele que apela à justiça, à fraternidade e à liberdade… Afinal, as palavras que fizeram a vida e morte de Anita. E falo-lhe de Maximino…

Regresso… O incessante movimento da Terra em volta do Sol faz-me chegar a esta mistura de recordações e leituras…

Regresso… Agora ao magistério do Padre Max, à sua dedicação humanista e ao seu conceito político: “Servir o povo e nunca servir-se dele”; que ele seja a marca de 2021. É nesse enobrecimento que me empenho!

Vítor Franco

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