Proteger o planeta é também uma questão de saúde pública

Em Opinião

1.     A relação entre agropecuária intensiva e doenças emergentes

Vivemos numa fase de grave crise ambiental, onde se incluem as alterações climáticas causadas pelo aquecimento global[1], a contaminação de recursos naturais essenciais à espécie humana e à restante vida no planeta (ar, água e solo), destruição de áreas protegidas e degradação da biodiversidade, entre outros.

A indústria agropecuária intensiva tem um impacto direto em vários aspetos desta crise ambiental que atravessamos: contamina o ar, contamina rios e outros cursos de água, contamina igualmente o solo. Para além disso, à medida que se vai expandindo, vai destruindo habitats naturais e pondo em risco a biodiversidade. Através dos dados disponibilizados em “The State of Nature in the EU”, a agricultura é a segunda ameaça à conservação de habitats e espécies selvagens no nosso país (Gráfico 1)[2]:

Gráfico 1: Pressões e ameaças aos habitats em Portugal  

Em Portugal existem vários casos que demonstram a poluição causada pela indústria pecuária, como se verifica na bacia do rio Lis e nas pecuárias que se situam junto ao rio Alviela (concelhos de Santarém e Alcanena). Para além destas atividades terem impacto direto na qualidade de vida das populações, com maus cheiros e contaminações de cursos de água, estas têm igualmente impacto na envolvente natural.

A produção, manutenção e consumo de animais têm estado associados com o aparecimento de zoonoses (doenças emergentes) a nível global. Por exemplo, em 1976 foi identificado o vírus do Ébola, posteriormente o HIV, a Dengue, o Nipah, a Zika, a Malária, a EEB (encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença das vacas loucas) e a gripe das aves H5N1[3] [4].  Em 2004 foi também identificado um vírus chamado Chapare, com consequências muito graves para a saúde humana[5]. No final do ano de 2019 surgiu o vírus Covid-19 que acabou por originar uma pandemia no ano seguinte[6] [7].

Em 1998, na Malásia, foi identificado o vírus Nipah em que a maioria das pessoas infetadas tinham tido contacto com porcos. Segundo a investigação de Kaw Bing Chua, o vírus tinha como hóspede morcegos que se tinham aproximado das quintas onde estavam os porcos por terem o seu habitat em perigo. A hipótese é que os dejetos dos morcegos tenham contaminado os porcos e estes, por sua vez, os humanos. A deflorestação, a agricultura e a urbanização destruíram rapidamente o ambiente natural dos morcegos que causou stress junto da sua população e acabou por forçar a sua migração. O hábito de viverem em grandes agrupamentos ajuda a difusão deste e de outros vírus[8].

               As zoonoses são particularmente potenciadas pela indústria de pecuária intensiva. Esta relação deve-se à cada vez maior ocupação de terras livres de intervenção humana para fins de produção pecuária e agricultura intensivas. Esta apropriação do território causa a diminuição da biodiversidade animal e vegetal. À medida que a área abrangida pela atividade pecuária aumenta, a criação intensiva de inúmeros animais da mesma espécie potencia o aparecimento de bactérias e de vírus por via do contacto com seres de espécies selvagens. Do contágio entre várias espécies de animais até ao contágio de seres humanos é apenas um passo, sendo que o gado produzido de forma intensiva é assim uma fonte de contágio para humanos (com a redução da diversidade genética dos animais de pecuária a probabilidade de contágio entre estes animais e de mutações das zoonoses aumenta)[9] [10].

Verifica-se assim que as zoonoses são mais uma das faces da crise ambiental que vivemos, visto que são potenciadas pela destruição da biodiversidade e de habitats que tem origem nas atividades humanas.

2.     O que fazer?

A urgência do tema e a ameaça do aparecimento de novas doenças leva à necessidade de agir rapidamente. A boa notícia é que o amplo conhecimento científico sobre o assunto aponta para várias soluções, estando a mais evidente diretamente relacionada com a pecuária. Em primeiro lugar é essencial interditar a prática intensiva desta atividade e adotar, pelo contrário, práticas comprovadamente sustentáveis baseadas no modelo agro-silvo-pastoril, ou seja, em sistemas agrícolas tradicionais (onde se destaca o exemplo da região do Barroso[11]).

Seria igualmente importante haver um ordenamento do território cuidado, protegendo espaços do território (não só terrestres, mas também aquáticos) das atividades humanas que são prejudiciais à biodiversidade e à defesa dos habitats naturais. Nesta linha de intervenção, deve-se impedir a expansão de terrenos de agricultura ou de pecuária intensiva (particularmente para áreas protegidas), assim como travar a alteração dos fluxos naturais de cursos de água (com construção de barragens, açudes e outras barreiras à circulação dos peixes). Deve-se também manter o máximo possível a existência das chamadas florestas de espécies autóctones.

Por último, é necessário restaurar habitats naturais. Esta restauração permite evitar a extinção de inúmeras espécies ao mesmo tempo que possibilita a absorção de grande parte do carbono que tem sido acumulado na atmosfera[12] e, logo, contrariar as alterações climáticas. Existem excelentes exemplos de organizações que estão a fazer algo neste sentido, como a Rewilding Portugal, que promove a manutenção de atividades humanas que permitem a preservação da natureza e a MilVoz – Associação de Proteção e Conservação da Natureza que compraram um terreno com donativos e estão a torna-lo numa reserva natural.

Resta-nos questionar a elite económica e o poder político dos diferentes níveis: de que estão à espera?

Francisco Cordeiro


[1]João Camargo em Manual de Combate às Alterações Climáticas

[2]Pode consultar dados relativos a Portugal em https://www.eea.europa.eu/themes/biodiversity/state-of-nature-in-the-eu/article-17-national-summary-dashboards/main-pressures-and-threats

[3]Drew Pendergrass e Troy Vetesse em The climate crisis and covid-19 are inseparable. Pode ser consultado em https://jacobinmag.com/2020/05/climate-change-crisis-covid-coronavirus-environment?fbclid=IwAR1mBi9zAGrhTzp-53doU63ls0Tx9Bo7WD-YImW9ZCL5cPojPjA_NoWJzz0

[4]Lucile Leclaire em “Em nome da biossegurança”, edição de Novembro do Jornal Le Monde Diplomatique – edição portuguesa

[5]Consultar notícia em https://www.publico.pt/2020/11/17/ciencia/noticia/confirmada-transmissao-humanos-estranho-virus-bolivia-1939432

[6]Francisco Cordeiro em O coronavírus e a indústria da carne. Pode ser consultado em https://maisribatejo.pt/2020/06/03/o-coronavirus-e-a-industria-da-carne/

[7]Sonia Shah em Contra a pandemia, ecologia. https://diplomatique.org.br/contra-a-pandemia-ecologia/

[8] Lucile Leclair em Pandémies, Une Production Industrielle

[9]Jason R. Rohr et al. em Emerging human infectious diseases and the links to global food production

[10]Serge Morand em Emerging diseases, livestock expansion and biodiversity loss are positively related at global scale

[11]https://www.publico.pt/2018/04/19/fugas/noticia/o-barroso-foi-classificado-como-patrimonio-agricola-mundial-1810945

[12] https://www.publico.pt/2020/10/14/ciencia/noticia/restaurar-ecossistemas-salvaria-especies-reduziria-carbono-1935240

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