Quem são os donos da Herdade da Torre Bela

Em Sociedade

Há muito que se fala na região que a Herdade da Torre Bela pertenceria à família do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos. Um rumor, afinal, sem fundamento que voltou a circular, com o escândalo da caçada na Torre Bela em que foram dizimados centenas de veados, gamos e javalis, numa montaria organizada pela empresa espanhola Monteros de la Cabra, de Mariano Moralles.

“Será a família dos Santos a real proprietária de uma das maiores propriedades muradas da Europa? Juntamente com cerca de uma dezena de outras propriedades na zona do Oeste”, questionou no Twitter, Rui Pinto, o hacker que esteve na origem dos #FootballLeaks #LuandaLeaks #MaltaFiles.

Ainda esta semana, na sua coluna de opinião no Expresso, Miguel Sousa Tavares, questionava “Em primeiro lugar, cabe perguntar: quem são os donos da Herdade da Torre Bela? Sim, quem são esses donos que até hoje ninguém, nem o presidente da Câmara da Azambuja (outro indignado) nem o ministro, nos querem dizer quem são? Será possível que não saibam quem é o verdadeiro proprietário de uma das maiores tapadas da Europa, outrora propriedade do duque de Lafões e depois símbolo da reforma agrária?

Cristina Albuquerque a receber um prémio na China pelos vinhos da Quinta do Convento 8foto do site da Quinta do Convento)

Cristina Albuquerque, a dona da Herdade Torre Bela

Para conhecer a história da Herdade da Torre Bela basta uma visita ao site da Quinta do Convento. Ficamos a saber que em 1997 a Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação adquiriu a Tapada e a Retorta e em 2003 a restante área da Torre Bela.

Depois, procurámos mais dados sobre a empresa no diretório da DNB, que nos dá conta dos proprietários da famosa SOCIEDADE AGRÍCOLA DA QUINTA DO CONVENTO DA VISITAÇÃO, SAG, LDA., que tem como sócio-gerente Ana Cristina Nunes de Albuquerque, sendo seu marido João Maria de Albuquerque Carvalho o gerente, e o sogro Josué de Assunção Carvalho, o Parceiro. Ainda segundo os dados inscritos neste diretório a Sociedade Agrícola declara uma receita anual próxima de 1 milhão de euros. A empresa tem sede em Vila Verde dos Francos, junto à Serra de Montejunto, no concelho de Alenquer.

Uma investigação da revista Sábado aprofundou os negócios da empresa de Cristina Albuquerque. “Não há aparentemente qualquer ligação da Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação SAG, Lda. com acionistas angolanos, nomeadamente Isabel dos Santos”, conclui a revista. Segundo a Sábado, a Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação comprou, em 1998 a Herdade da Torre Bela. Segundo os registos prediais, os vendedores pertenciam à família do duque de Lafões (incluindo o próprio): Lopo de Bragança, Diogo de Bragança e Miguel de Bragança.

De acordo com a reportagem da Sábado, Cristina Albuquerque está ligada a mais oito empresas, ligadas ao imobiliário, turismo e explorações agrícolas. Partilha o capital social quase sempre com familiares, sendo a sede num escritório do edifício das Amoreiras, em Lisboa. A principal empresa da família Nunes de Albuquerque aparenta ser a Trustworthy, que faz a gestão de participações sociais em 10 empresas. Tem um capital social de €5 milhões, divididos em cinco partes iguais por membros dos Nunes de Albuquerque.

Cristina Albuquerque a receber a medalha de ouro em concurso de vinhos da AMPV (soto do site da Quinta do Convento)

Nos registos prediais consultados pela Sábado, verifica-se que a Sociedade Agrícola da Quinta do Convento cedeu 775 hectares para central fotovoltaica “livres de quaisquer pessoas, bens, ónus ou encargos e sem quaisquer condições ou restrições”.

Fotos da matança foram divulgadas no Facebook pelos promotores e participantes da montaria

O que leva associações ambientalistas e políticos a concluir que a matança de 540 animais por um grupo de 16 caçadores em dois dias de dezembro terá sido como que uma “limpeza” do terreno para a construção do projeto. Entretanto, as duas empresas promotoras da central solar já emitiram um comunicado onde dizem que “não estão de nenhuma forma relacionadas com o ocorrido, nem com a atual gestão, propriedade ou exploração da Herdade da Torre Bela”.

Fotos da matança foram divulgadas no Facebook pelos promotores e participantes da montaria

Entretanto, o ministro do Ambiente João Matos Fernandes decidiu suspender todo o processo de licenciamento da central fotovoltaica projetada para a Quinta da Torre Bela, no concelho de Azambuja. 

Já antes, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) suspendeu a licença da Zona de Caça de Torre Bela, na Azambuja, com efeitos imediatos, apresentando ao Ministério Público uma participação de crime contra a preservação da fauna, foi hoje anunciado.

Fotos da matança foram divulgadas no Facebook pelos promotores e participantes da montaria

Por seu lado, a proprietária da Herdade da Torre Bela, onde no dia 17 de dezembro, foram mortos 540 animais, tinha anunciado que apresentou uma queixa-crime junto do Ministério Público contra a entidade promotora da caçada e contra desconhecidos. A queixa-crime foi apresentada contra a empresa “Monteros de la Cabra” e o seu responsável, Mariano Morales, e contra desconhecidos, através do advogado Alexandre Monta Pinto, diz a entidade num comunicado divulgado.

O Ministério Público abriu um inquérito-crime à montaria da herdade da Torre Bela, no concelho da Azambuja, onde foram abatidos 540 animais durante uma caçada. “Confirma-se a instauração de um inquérito que corre termos no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa Norte (Alenquer)”, respondeu hoje a Procuradoria-Geral da República à agência Lusa.

A história da Herdade da Torre Bela

“No reinado de D. Pedro II (1648 a 1706) a Torre Bela pertenceu ao Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Luís de Sousa, confessor do rei. Posteriormente integrou o domínio do Duque de Lafões com a instituição deste título por decreto régio de 17 de Fevereiro de 1718 a favor de D. Pedro Henrique de Bragança, neto de D. Pedro II e filho do infante D. Miguel de Bragança, tendo-se mantido nesta família durante mais de 250 anos. Nesse período a propriedade era essencialmente constituída por montados com sub-coberto de matos para alimentação de gado bravo, existindo ainda múltiplas manchas com povoamentos de pinhal manso.”, lê-se na nota histórica publicada no site da empresa Quinta do Convento.

Segundo o historial publicado pela empresa no site, “a atividade agrícola baseava-se na exploração de olival e vinha, bem como no cultivo de trigo, essencial à caça. Dentro das instalações da quinta existia um lagar de azeite e uma caldeira de aguardente, bem como cavalariças e um touril. É particularmente marcante o muro que circunscreve a Tapada, com cerca de 18 kms de comprimento, construído com pedra desviada da obra do Convento de Mafra (1717 a 1735)”.

O site adianta que “No verão quente de 1975, na sequência da “Revolução dos Cravos” de 25 de Abril 1974, a propriedade foi alvo de uma ocupação por parte de populares, que revoltados com o desemprego causado pelo inicio da mecanização agro-florestal, pretendiam a redistribuição da riqueza designadamente da terra, das culturas e dos animais. Por Portaria 305 de 17 de Maio de 1976, a Torre Bela é expropriada por proposta do IRA (Instituto de Reorganização Agrária), tendo legalizado a ocupação antes efectuada. Esta portaria vem a ser derrogada em 22 de Agosto de 1989“.

Em 1976 que é criada a Cooperativa Agrícola da Torre Bela que se extingue um ano depois por falta de gestão e por desmotivação dos cooperantes, que viram esgotadas os recursos agrícolas e de caça na propriedade. Com o fim da Cooperativa Agrícola da Torre Bela, a propriedade passa para a gestão directa do Estado (Direção Geral das Florestas) que nela manda plantar um pinhal de pinheiro bravo. Mas o estado de abandono da propriedade acaba por dar origem a alguns grandes incêndios, designadamente na Retorta e na Quinta da Torre Bela”, lê-se no historial publicado no site da Quinta do Convento.

Em 1985 a Quinta da Torre Bela foi devolvida aos antigos proprietários, que a vendem à SOPORCEL para plantio de eucaliptos designadamente nas áreas ardidas, arrendando também, para o mesmo fim, a Tapada em Julho de 1986 e a Retorta em Agosto de 1988. A SOPORCEL em associação com a PORTUCEL instala em 1995 um Centro de Investigação Florestal na Quinta da Torre Bela, e planta uma área de cerca de 40 hectares de vinha”, refere a nota histórica do site da empresa.

O site da Quinta do Convento refere que “Em 1997 a Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação adquire a Tapada e a Retorta e em 2003 a restante área da Torre Bela. Complementa ainda área com a Achada (2001), Vale da Achada (2002-2008), Quinta de Alcoentre (áreas rústicas do Estabelecimento Prisional de Alcoentre (2007/8) e outras propriedades menores”.

Segundo o site da Quinta do Convento, após a aquisição da propriedade, reintroduz a caça na Tapada com o repovoamento das espécies cinegéticas como o veado, o gamo, o corço e o javali, e inicia a exploração em regime extensivo de vacas aleitantes na Quinta, para o que melhora significativamente as pastagens permanentes e montados. Beneficia ainda diversas áreas para culturas de regadio, construindo e melhorando algumas charcas e abandonando a vinha.

4 Comments

Leave a Reply