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Enfrentar ou resignar?

Em Opinião

Quando me foi diagnosticada a espondilite anquilosante o médico perguntou:

– Sabes nadar?

– Eu não, respondi.

– Então tens de ir aprender a nadar!

– Agora, aos 48 anos?!

– Tens de ir, reafirmou o médico.

Pensamento positivo, disse para comigo. Vou tentar, vai ser ótimo aprender a nadar!

Lá fui, comecei na piscina das crianças; as primeiras tentativas em vez de ir para a frente ia para trás, continuamos a tentar, pensamento positivo. Quando consegui nadar os primeiros 25 metros foi uma vitória.

Medicamentos e natação diminuíram as dores por uns tempos – mas elas voltaram.

Comecei a caminhar, alguns anos depois a correr. As dores, que hoje são contínuas, têm por vezes ataques mais incapacitantes. Quando é assim a medicação reforça-se e o esforço diminui ou pára. Mas temos de recomeçar! Temos sempre de recomeçar e sempre com espírito positivo.

Como as doenças auto-imunes gostam de andar aos pares veio a dermatite herpetiforme. Mais um medicamento, mais uma boa notícia: não devia ou podia comer glúten (…) ótimo, assim não podia comer bolos! Viva a dieta: agora vou ficar elegante!

Vamos recomeçar, mais um bom desafio pela frente!

Foi preciso diversificar o exercício, para que fosse menos impactante sobre a coluna e a articulação sacroilíaca. Comprei uma bicicleta. Aos 52 anos tive a minha primeira bicicleta.

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Com o incentivo familiar comecei a pedalar. Dois anos depois comprei uma bicicleta de BTT, “mais a sério” (…) e um equipamento do Sporting 🙂 Daí às cicloviagens foi um passo; na Páscoa de 2017 decidi fazer a minha primeira cicloviagem, o Caminho Francês a Santiago de Compostela com partida de Burgos. Antes foi preciso aprender a desmontar e montar a bicicleta, aprender a usar as ferramentas certas, aprender os mecanismos, bons desafios, aprender, tentar saber coisas novas…

Nessa primeira viagem vieram novas aprendizagens: como conseguir uma alimentação sem glúten, como gerir esforços e saber ler o nosso próprio corpo. Aprendi também que o mais importante numa viagem é o convívio com as pessoas locais, o conhecimento das suas culturas, as entreajudas, imbricar-me com a natureza, afinal tentar fazer algo que ainda não se tinha feito. Aprendi também que coisas tão simples como puder comer uma boa pizza pode ser uma alegria.

O bichinho da cicloviagem pegou, daí para cá fiz desde o Porto o Caminho Português Central, o da Costa, a Rota Vicentina, grande parte do Caminho do Norte, o Lebaniego pelos Picos da Europa… Recentemente fiz parte da rota do rio Danúbio, a chamada Aerovelo 6, de Ingolstad/Alemanha até Bratislava/Eslováquia e de lá a Budapeste de comboio. Tudo isto tem um fio condutor: aprender e enfrentar os desafios!

Para ir registando os momentos mais interessantes decidi aprender a fazer um blogue; ainda hoje não é grande coisa mas está aqui e já faz parte da rede Travel Bloggers PT.

Nada desta narrativa é especial, todas estas coisas acontecem ou são feitas por milhares de pessoas!

A vida vale por isso mesmo, pelo desafio de aprender, pelo enfrentar do que não se conhece! E vale pelo sentir. É bom sentir o frio no rosto, ouvir a fala do vento nas serras, pisar a neve na montanha, ouvir os pássaros, parar para apreciar as mariposas, as raposas de olhos de luz, as cobras procurando refúgio, as cabras querendo-te segredar amores, sentir os aromas da natureza que tudo nos dá e nada pede…

Todas estas notas têm como objetivo partilhar o ânimo para enfrentar o difícil momento que vivemos. Os momentos difíceis desafiam a nossa resiliência, a nossa capacidade de reflexão e superação. Estes momentos desafiam o nosso viver em comunidade e desafiam os nossos sonhos.

Há uma frase do escritor Óscar Wilde que aprecio e aqui fica bem: “Todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas.”

Olhemos todos as estrelas! Vamos lá, pensamento positivo!

Vítor Franco

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