Leituras inextinguíveis (5): Dimensões do Século XX (1900-1945), por Robert L. Delevoy

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal Mais Ribatejo, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Esta luxuosa obra das Edições de Arte Albert Skira data de 1965, mas continua sem rugas a ajudar-nos a interpretar dimensões de metade do século XX, mediante conexões, que tantas vezes escapam ao quotidiano, na multiplicidade das disciplinas que incorporam os cânones científicos de todas as índoles e toda a galeria das Ciências Sociais e Humanas. É um tratado inultrapassável da Sociologia da Arte e que permite ao leitor ter os pés bem assentes quando procura decifrar quando se iniciou o século XX, quais os seus aportes, e por que modo fixamos balizas que nem sempre correspondem às passadas da humanidade. Houve já quem escreveu e defendeu que o século XX começou em 1789 e acabou em 1914, era como se estivesse entalado entre a Revolução Francesa e essa medonha I Guerra Mundial. Porque forjamos perspetivas e alargamos o nosso olhar a mudanças, transformações e saltos tecnológicos, de cariz político, económico, social e científico que nos dão alguma comodidade mesmo com o embaraço de não haver prova cabal de que o século XX começou em 1900 e logo se acendeu uma nova contemporaneidade.

Aprendi imenso com este ensaio de Robert L. Delevoy, e o mais importante é que não há leituras lineares nem fórmulas absolutas de compartimentar eventos, invenções, nem marcar o dia e hora em que um telefone, um telégrafo, um comboio, a eletricidade ou o petróleo introduziram o novo modo de vida. E também este livro me criou obrigação de refletir sobre o artista, o plástico ou o literário, como, por vezes subconscientemente, foram assimilando novas formas de comunicação.

Certo e seguro, tínhamos chegado à Belle Époque, foram anos de euforia traduzidos no fauvismo e o cubismo em Paris, o expressionismo em Munique, o suprematismo em Moscovo e o futurismo em Milão, manifestações artísticas que dão conta do novo mundo onde cresce a revolta dos trabalhadores, o grito nacionalista, a ação revolucionária, o atentado ao rei, a ascensão do individualismo em Arte, assim como há o ruído das festas, o frufru do Cancã, a grande metrópole (que pode ser Berlim, Paris ou Londres) geram a solidão. Emerge e espalha-se como mancha de óleo a imagem, na imprensa, no cartaz, gera-se uma nova retórica que se vai conjugar com a criação e a tecnologia, a mudança no mobiliário, na superfície comercial, no gosto arquitetónico que pode socorrer-se de linhas retas ou submeter-se a formas onduladas, como se tais linhas e cores pudessem fazer a apologia da livre imaginação ou do racionalismo e do funcionalismo – esta nova arquitetura pronuncia a ideologia da técnica, é a exaltação da civilização industrial ou o seu contrário. Exaltação da civilização industrial gerando o desmantelamento da figura (veja-se o escândalo provocado pelo quadro de Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso, e no campo oposto a arte de Gaudi, atrevido nas reentrâncias e fazendo da modernidade um ecletismo de estilos artísticos pretéritos.

Tudo mudara com a velocidade, com a comunicação, com a profusão dos bens de consumo, há euforia mas não faltam fórmulas de violência que irão ser tratadas na literatura, no teatro, no bailado, no cinema, na escultura e na música: exaspero e dissonâncias, no período entre guerras, com o novo mapa político europeu, existe uma multiplicidade de estados e dão-se os primeiros sinais de que o mundo é global, perfila-se a ascensão do feminismo, tecem-se louvores à condição burguesa ou ela é mostrada de forma demolidora. Nota-se irrequietude: o expressionismo, o futurismo, o dadaísmo apresentam-se de uma maneira dinâmica, alteram a dimensão do espaço-tempo, dão a visão de um mundo em movimento, os êxitos da medicina vão gerar também vidas com mais qualidade, dos sucessos da investigação química surgem medicamentos que resolvem níveis flagelos, caso da sífilis. Quebram-se tabus, dentro de um quadro podem aparecer colagens, materiais como o vidro ou até têxteis. Nas primeiras décadas do século os artistas deram uma enorme consideração à arte africana e plasmaram-na nos seus quadros e esculturas. Os estatutos tradicionais dos meios de expressão alteraram-se radicalmente: transpôs-se a análise cubista nas três dimensões, surgiu a atração pela gravura como forma de reprodutibilidade da arte, a máquina e os maquinismos entraram na pintura e na música, os objetos artísticos tornam-se espaciais, aerodinâmicos, basta olhar para a escultura de Antoine Pevsner, não foi por acaso que a escolheram para capa deste magnífico livro.

As guerras mundiais mudaram tudo, a Primeira e a Segunda, geraram metamorfoses, novas cores, a perspetiva deixou de ser cânone, a simetria deixou de ser obrigatória. E ao longo destas décadas serão um constante carrossel onde se vão montar novos sistemas plásticos e onde vão pesar a ciência, as políticas revolucionárias, os autoritarismos, até mesmo se regressar à ordem. Mas a marcha era imparável, era inevitável que surgissem novas técnicas de construção graças ao betão e ao aço, tudo irá mudar na arquitetura a partir da chamada Arte Deco – as linhas monumentais das arquiteturas germânica, italiana ou soviética tiveram que ir beber às dimensões retilíneas da depuração proposta pela Arte Deco. Entre as guerras, a arquitetura usou a construção de cidades imaginárias, a figura, a linha académica, o corpo nítido, deixaram de ser obrigações que os artistas plásticos de igual modo como toda a morfologia do texto que rompeu com a gramática e com o racionalismo.

Habituei-me, ao longo dos últimos quarenta anos, a remexer nesta bela edição para ter um melhor entendimento que ainda bem que o mundo é complexo, de que não existe unicidade na convicção religiosa, no movimento das Artes Plásticas, que é obrigatório o debate científico e que o pensamento político, por todas as ordens de razão, ou se adapta ou deixa os editores indiferentes a amanhãs que já não cantam. Nascido no fim da II Guerra Mundial, precisei de chegar a jovem adulto para perceber que a mobilidade depende de todas as ordens de conhecimento e que por cada salto tecnológico somos impelidos a procurar viver melhor e a respeitar o Outro, nesta inquietante marcha da Humanidade.

Mário Beja Santos

Antoine Pevsner (1884-1962) – Construction, Surface Dévelopable (1938) 

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