Comeres & beberes – PUNCH

Em Ribatejo Cool

Na minha adolescência passada em Bragança o Inverno acarretava frios intensos, cortantes, por via dos ventos soprados pela Sanábria serra mais alta que a portuguesa antes chamada Montes Hermínios. Além disso a cidade recebe a frialdade da Serra de Montezinho e da Serra de Nogueira. No decurso da recente vaga de frio as televisões mostraram imagens da cidade completamente gelada e os noticiários deram conta das temperaturas negativas que são maiores do que as anunciadas. Ora, uma noite de enorme desconforto corporal em pleno mês de Janeiro o meu pai levou-me a um café e pediu dois ponches. Eu não conhecia a bebida servida por um homem que antes de a colocar na bandeja lhe pegou fogo levantando uma fugaz chama azulada para a servir após a extinção da labareda. Bebi-a alvoroçado, estava quente, sabia muito bem e acalmou-me os ardores na garganta. Chamaram-lhe ponche, o homem do café não quis dizer a sua composição. Muito anos mais tarde soube ser uma bebida de origem inglesa de cariz colonial com posta por chá, açúcar, especiarias, fruta, aguardente ou rum, também xarope de cana, por vezes flamejada (a tal chama azulada) que também se pode beber gelada.

As modas e os negócios levaram à duplicidade nominal, punch e ponche. Trago o punch à ribalta e com ele a figura de um pirata perna de pau, olho de vidro e cara de mau, que desapareceu o garrido bebedor, os piratas emigraram para a alta finança que agora só bebem vinhos e champanhes (também são vinhos) e águas de vida de luxo, logo caríssimas.

Armando Fernandes

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