O Mundo Digital não tem que ser o mundo das Grandes Tecnológicas

Em Opinião

Um dos efeitos da actual Pandemia será a aceleração da revolução digital num processo que já se observa em 2020 e que tenderá a intensificar-se enquanto a vacinação não alcançar uma imunidade de grupo significativa (algo que não deverá acontecer antes de 2022). Embora não seja destituída de virtudes (designadamente no campo climático) a Digitalização está a aumentar globalmente os níveis (que já eram altos) de desigualdade porque ocorre de forma desigual em vários sectores económicos e é de difícil penetração nos sectores de mão de obra intensiva. Este fenómeno vai ser intensificado durante a próxima década à medida em que a robotização e a Inteligência Artificial penetram em áreas da economia que estão mais sujeitas à erosão de empregos como os transportes de pessoas e mercadorias: Em Xangai, na China, desde Outubro que a AutoX (ligada à Alibaba) oferece um serviço gratuito de táxis autónomos e dezenas de outros testes decorrem actualmente noutras cidades do mundo como Phoenix, San Francisco (várias empresas), a Toyota na cidade de 2 mil pessoas construída especialmente para o efeito e Cupertino (Apple).

O próximo ano será o ano da maior intensificação da digitalização de sempre. Depois do grande e súbito (e nem sempre bem preparado) processo de digitalização de 2020 em 2021 o processo será mais consolidado e abrangente porque as organizações já tiveram tempo para se preparar. O trabalho remoto e o comércio online serão mais importantes do que nunca introduzindo uma mudança na forma como as pessoas trabalham e consomem sem precedentes no passado numa autêntica “destruição criativa” (DC), um conceito cunhado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter em 1942. O problema é que à DC se associa geralmente a destruição de empresas e empregos pelos novos produtos e serviços mas desta feita sem o efeito positivo de introduzir novos agentes de inovação mas permitindo que os grandes gigantes globais de tecnologia consolidam ainda mais o seu poder à custa das PMEs e das empresas de comércio local. Desta forma as inovações dos empresários deixarão de ser a  força motriz do crescimento económico sustentado a longo prazo para se tornarem, pelo contrário, uma forma de consolidação dos monopólios dos gigantes tecnológicos globais cujos lucros cresceram durante a pandemia. Esta destruição criativa será mais intensa porque entre as empresas globais que mais estão a crescer estão também aquelas que mais dados possuem sobre os consumidores (Google e Facebook) e mais recursos financeiros para consolidarem a sua dominação e isto terá impacto a vários níveis a começar pelo tecido comercial das grandes cidades onde o comércio local será particularmente atingido.

Para compensar esta “destruição criativa” os Estados têm que começar a corrigir os desvios fiscais que favorecem estas grandes empresas globais e seguir o exemplo de França que lançou em 2020 uma “taxa digital” que deverá alcançar 3% dos ganhos de empresas como a Google, a Apple, Facebook e Amazon em território francês. A taxa deverá abranger empresas que tenham vendas superiores a 750 milhões de euros e visa captar parte dos lucros destas empresas que têm sedes em paraísos fiscais compensando os consumidores e empresas locais pelos efeitos colaterais da sua dominação comercial. As autarquias têm também aqui um importante papel de compensação criando sistemas de estímulo e protecção do comércio local introduzindo, por exemplo moedas locais, ferramentas de estímulo à economia circular e reduzindo a fiscalidade e as taxas sobre este tipo de pequenos negócios.

O mundo futuro, mas digital e flexível do que nunca, e que vamos começar a antever em 2021 e 2022 não tem que ser o mundo dos grandes gigantes tecnológicos: isso depende apenas de nós e dos nossos Governos.

Rui Martins

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