Quando o direito ao bom nome tem a ver com a verdade em História

Em Leituras

Uma Fragata no 25 de Abril, por Noémia Louçã, Edições Parsifal, 2019, é uma obra em torno de um acontecimento polémico, que ainda hoje se presta a lenda negra e a embustes. O que se escreve numa das badanas do livro situa perfeitamente os acontecimentos que deram origem a uma nova tentativa de reposição da verdade por parte dos familiares de alguém que se sentiu infamado por mentiras em torno do seu comportamento no dia 25 de Abril de 1974:

“Quando os blindados de Salgueiro Maia chegaram ao Terreiro do Paço, o Estado-Maior da Armada deu ordens ao comandante da fragata Almirante Gago Coutinho para preparar o bombardeamento dessa força revolucionária. Durante muitos anos, teve livre curso a versão romântica de que os jovens oficiais da guarnição impediram o comandante de cumprir a ordem. Deste modo teriam impedido um banho de sangue no centro de Lisboa, possivelmente uma guerra civil no país e provavelmente o malogro da revolução. Noémia Louçã partilhou nesse dia com o comandante Seixas Louçã, seu marido, a alegria de uma libertação longamente esperada. Conservou em todos estes anos as recordações da história contada em primeira mão e as cartas em que transmitia esse relato a seus pais. Debruçou-se atentamente sobre as centenas de páginas do Auto de Averiguações da Marinha referentes ao acidente da fragata no 25 de Abril. Neste livro, desfaz a lenda e repõe a verdade sobre um oficial com uma vida inteira de empenhamento antifascista que, como disse Rosa Coutinho, esteve ‘no sítio errado na hora errada’. A ordem tresloucada de preparar para fazer fogo nunca passou do comandante para qualquer subordinado, porque Seixas Louçã logo respondeu ao Estado-Maior que não podia cumpri-la por haver cacilheiros a circular no Tejo e numerosos civis a concentrarem-se no Terreiro do Paço. Como pode comprovar-se pela análise dos factos e pelos documentos que lhe junta a autora, a verdade sobre a Almirante Gago Coutinho é a antítese absoluta da lenda que tem circulado durante décadas”.

É um documento de leitura palpitante, tem mesmo travos romanescos, e culmina com um documento de alta intensidade polémica assinado por António Louçã, que põe de rastos aqueles que se obstinam em querer achincalhar o comportamento de Seixas Louçã, em 25 de abril de 1974. A organização da obra anima o leitor do princípio ao fim. Identifica-se o comandante Seixas Louçã com testemunhos de quem o conheceu a título pessoal e profissional. Sem margem para equívocos, terá sido o único oficial da Armada que reagiu desfavoravelmente aos objetivos da Operação Mar Verde, delineada por um outro colega da Armada e aprovada por Marcello Caetano e Spínola, a invasão de Conacri para provocar um golpe de Estado, atingir em cheio o PAIGC, destruir a Força Aérea e libertar prisioneiros portugueses. Além disso, todos os testemunhos convergem para um oficial altamente competente e íntegro, que guardava em recato os seus princípios de opositor democrata. A família Louçã vive as primeiras horas da revolução com intensa alegria e uma nascente amargura. Vamos aos factos. Os engulhos começam a 27 de abril, um membro da Junta de Salvação Nacional ordenara a investigação do que se passara no navio em 25 de abril. O inquérito seria dirigido por dois oficiais da “Velha Senhora”. No dia 30 comparece-se a uma reunião pedida pelo Almirante Rosa Coutinho, era com pesar que o tinha de exonerar do comando do navio, alguns oficiais da guarnição não tinham apreciado as ordens dadas. Seixas Louçã revela o seu desgosto, embora tenha sido um lenitivo ouvir as palavras de Rosa Coutinho. Em 10 de maio encontro com Pinheiro de Azevedo, novas provas de consideração, mas não mais lhe foi permitido voltar a entrar na fragata. Sentindo-se injustiçado, apresentou um requerimento pedindo a sua passagem à reserva. No ano seguinte, face a referências falsas, Seixas Louçã requer a intervenção do Ministério da Marinha, conhece o teor do inquérito a que fora sujeito, no ano seguinte foi nomeado um almirante para proceder a um auto de averiguações, dá-se como comprovado que da sua atuação naquele dia a sua honra e dignidade de oficial da Armada eram intocáveis. Mas não foi publicamente reabilitado pela Marinha. E começam as reportagens em torno dos acontecimentos, Noémia Louçã pega nos depoimentos dos outros oficiais, mostra os dislates e contradições, o uso indevido por homens como Martins Guerreiro e Victor Crespo do disse que disse dos oficiais da guarnição, e até recentemente Almada Contreiras testemunhou a favor da lenda negra, isto é, tinham sido os outros oficiais a contrariar a ordem de abrir fogo, estavam desde a primeira hora com o Movimento… Dar-se-á como demonstrado que nenhum destes oficiais tivera a preocupação de explicar a Seixas Louçã a sua adesão ao movimento revolucionário, a relação de Seixas Louçã com o imediato não era das melhores, e chega-se mesmo a revelar que este andava em diligências para ser o ajudante de campo do general Luz Cunha, notório apoiante da ditadura.

Comandante Seixas Louçã

A autora escalpeliza o relatório do Almirante Santos Silva, em que fica patente existir um abismo entre as lendas e as jornadas. Os anexos são preciosos e de leitura obrigatória, quer o relatório e conclusões do auto de averiguações de 1976, os depoimentos de Rosa Coutinho e Nuno Fisher Lopes Pires e as trepas de António Louçã seguramente irão constar entre os melhores textos polémicos que se escreveram no pós 25 de Abril, desmonta fábulas, evidencia contradições dos depoimentos dos oficiais da fragata, convoca depoimentos abonatórios da biografia de opositor ao Estado Novo, e a trepa maior, a que permite desmontar a lenda negra intitula-se “Como dez oficiais se conjuraram para deturpar a verdade”. E é uma escrita dolorosa: “A violência verbal de que usam ainda hoje os seus dez oficiais contra o seu camarada nonagenário está em sintonia com o tratamento que foi dado a Seixas Louçã nos dias imediatos ao 25 de Abril. O primeiro inquérito aos acontecimentos a bordo da fragata ficou nas mãos de um conhecido partidário da ditadura, o comodoro Abel Neves, que, como tantos outros vira-casacas, logo fez gala nos mais inesperados excessos de zelo pseudorrevolucionários. Às três da madrugada de 27 de abril, mandou convocar Seixas Louçã por telefone, para se apresentar na Base Naval do Alfeite, onde ficaria detido até à conclusão dos interrogatórios a realizar. Desse inquérito, em que só foram ouvidas as testemunhas hostis, resultou a exoneração do comandante da Gago Coutinho. A detenção só foi levantada graças à enérgica intervenção de Rosa Coutinho, que pediu para ir falar com ele à Cova da Moura, foi recebido com tocante manifestação de amizade”. E espicaça os dez oficiais, alegando que não dizem uma palavra sobre os depoimentos que não lhes convêm, nem que fosse para questioná-los e demonstrar a sua inconsistência. E assim conclui: “Que cálculos e interesses dos dez oficiais os levaram a não dizer nem uma palavra sobre a ordem para a fragata preparar o bombardeamento da coluna visível no Terreiro do Paço? Sem ter sido o herói do dia, porque não houve nenhum herói nesse dia na fragata, Seixas Louçã foi a única pessoa que tomou posição e deu a cara contra o Estado-Maior porque este quis pôr a fragata em posição de disparar com munições de combate sobre a coluna de Salgueiro da Maia. Com o que dizem os dez oficiais, e com o que calam, a versão sobre a ordem de fogo real que querem deixar insinuada opõe-se pelo vértice à verdade deste facto essencial: Seixas Louçã impediu o bombardeamento do Terreiro do Paço”.

Mário Beja Santos

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