O regresso dos imperadores da literatura de crime e mistério

Em Ribatejo Cool

Rezam os diferentes estudos alusivos à história da literatura de crime e mistério (também chamada policial) que aí pelas décadas de 1930 e 1940 a literatura norte-americana deste subgénero estava no apogeu, tinham entrado em cena S. S. Van Dine, Ellery Queen, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Rex Stout, o Reino Unido seguia-lhe as pisadas, mas passado todo este tempo os apreciadores do subgénero não têm quaisquer dúvidas em considerar como clássicos oriundos dos EUA os nomes acima expostos. Diz-se mais apropriadamente literatura de crime e mistério na justa medida em que as figuras icónicas são detetives amadores ou profissionais, cada um deles com os seus tiques de subtileza, o seu aparato específico na dedução e até mesmo na observação dos factos. E quando os estudiosos se reúnem para eleger o sumo-sacerdote deste tempo glorioso, a escolha recai em Ellery Queen, pseudónimo de dois primos nova-iorquinos, Daniel Nathan e Manfred B. Lee. Iniciaram a sua carreira no fim da década de 1920, com um conjunto de mistérios que metia referências a países: chapéu romano, pó francês, ataúde grego, sapato holandês… E temos agora reeditado um título que deu o seu brado em 1932, o Mistério da Cruz Egípcia, Livros do Brasil/Porto Editora, 2021.

O detetive amador é Ellery Queen, filho de um inspetor de polícia, é apresentado como um investigador cosmopolita que usa pince-nez, muito seguro de que a sua lógica podia resolver o que quer que fosse, embora ao longo deste volumoso romance tenha andado às voltas, sem encontrar solução plausível, dado que a trama era manifestamente complexa. Há aqui como que um romance escrito dentro do romance, os autores nunca se esquecem de dizer que o detetive Ellery é escritor de romances policiais.

Tudo começa num lugarejo da Virgínia Ocidental, ocorreu no dia de Natal um horripilante acontecimento, apareceu o corpo decapitado do mestre-escola, crucificado com pregos de ferro, a polícia não atinava com o móbil do crime. Ellery inicia a sua investigação, contata as instâncias policiais, conversa com toda a gente, consegue-se apurar durante o inquérito que o recatado mestre- escola era um tanto excêntrico, cumpria a contento dos seus deveres, apurara-se que o criado desaparecera, houve também a descoberta que alguém visitara o mestre-escola, mais nada se soube, o juiz de instrução bem procurou inquirir, há para ali muita excentricidade, fala-se no nome de Krosac, discípulo de um louco que se rotula como pontífice máximo de Hórus. Ellery anda às voltas com o símbolo T, era esta a forma que tinha a cruz em que pregaram o decapitado mestre-escola. E nada mais se sabe até que meses depois um antigo professor de Ellery pede a sua colaboração para um estranho crime ocorrido na localidade de Bradwood, um milionário fora decapitado e crucificado no totem existente na sua propriedade.

Os primos que glorificaram o imaginário Ellery Queen

Inicia-se uma nova e emaranhada investigação, aquele magnata de tapetes, de nome Brad, tem um sócio, de nome Megara, que andava numa viagem marítima de longo curso. Ellery observa a repetição dos T. A investigação é marcada por episódios um tanto exóticos, há ali perto uma ilha de nudistas, também lá está um sacerdote amalucado e a investigação começa a definir a ligação de nomes provenientes da Europa Oriental. Em dado passo, Ellery diz existirem três cavalheiros desejosos de ocultar os seus verdadeiros nomes e a sua proveniência, mesmo a própria vizinhança do milionário é gente que merece suspeita, mas tudo paira no nevoeiro, os novos entrevistados da casa também não adiantam algo que esclareça o mistério de morte tão macabra, e as pessoas da família estavam ausentes na circunstância do crime. Megara regressa da viagem, surgem novas pistas, pelo adiante iremos assistir a novos crimes, o nome Krosac reentra na trama, ninguém sabe quem é, Ellery continua obcecado com o significado de T.

É interessante observar que num tanto à semelhança dos outros autores contemporâneos, Ellery Queen gosta de apresentar em água-forte os diferentes personagens, veja-se um exemplo: “Stephen Megara era um homem alto, forte, de tez bronzeada, bigode preto e nariz indubitavelmente esborrachado numa disputa. A sua figura era, em simultâneo, sinistra e dominadora, os seus gestos rápidos e seguros”. Megara não é alheio ao nome de Krosac. A investigação prossegue no interior da casa, Ellery dá imensa importância a uma tecla do piano, por baixo esconde-se uma mensagem do milionário que recomenda a polícia que investigue o assassinato do mestre-escola do primeiro crime, há que proteger Megara, ele deve dar informações para a reposição da verdade. Nesta fase do processo, Ellery está em crer que Krosac matou uma pessoa que não era o verdadeiro mestre-escola, ele voltou a assassinar mas Brad deve-lhe ter dito que o mestre-escola ainda vivia. E Megara confessa que eram três irmãos, tinham vindo do Montenegro fugidos de uma vingança. Tudo continua emaranhado. Volta-se ao local do primeiro crime, descobre-se numa cabana o verdadeiro mestre-escola, novas confissões.

Depois de muitas voltas, de uma verdadeira caça ao homem, encontra-se o verdadeiro criminoso num quarto de hotel e compete a Ellery Queen contar como descobriu o criminoso e como ele urdira uma tramoia tão complexa: o mistério do primeiro crime, o facto de existir o dito Krosac pelas informações das autoridades jugoslavas, como demorar a descobrir que havia duas pessoas envolvidas no primeiro crime, confessa humildemente que andou às aranhas porque se esquecera de um aforismo determinante: “Os olhos vêm nas coisas apenas o que nelas procuram, e só procuram o que já trazem no espírito”. E a partir deste enunciado começou a apontar os elementos que o levaram à verdade, tudo para ele se tornara claro na cabana onde alguém usara com conhecimento de causa tintura de iodo que estava dentro de um grande frasco de vidro azul, opaco. A partir daí tudo começou a ser claro quem era Krosac e qual o seu plano diabólico. Afinal a letra T tinha sido um engodo, a cruz egípcia fora um falhanço retumbante.

O que pensar deste romance-problema? A história está bem urdida, tem o atrativo, logo no início, do crime horripilante e surge-nos um criminoso inteligente, Ellery lança um desafio ao leitor, mas este, tenha santa paciência, jamais possuirá massa cinzenta para desenvencilhar a razão de tanto crime. Acresce que a trama é sinuosa, permite um bom entretenimento, mas O Mistério da Cruz Egípcia não possui a subtileza e a densidade psicológica que vamos encontrar noutro livro desta Coleção Vampiro, caso de Dez Dias de Mistério. Lê-se com satisfação mas está muito longe de ser distinguido com cinco estrelas.

Mário Beja Santos

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