Ecos de Camões em Constância?

Em Correio dos Leitores

Sabia que Camões na elegia lll, escrita provavelmente  em Constância (crê-se), se compara a Ovídio, poeta desterrado para Constança na Roménia?E sabia que aquando da mudança do nome de Punhete para Constância,  1836, na época, já havia literatos  que escreviam sobre o possível degredo do vate por aqui, assente na dita elegia? É um tema muito interessante. Será que a mudança de toponímo não foi também uma homenagem a Camões? Pode haver elementos intrínsecos à decisão política, não-escritos. A “Constância” dos  amores entre Passos Manuel e Gervásia Falcão é a de um casal, tal qual o vate e Natércia, Catarina de Ataíde? Ou simplesmente uma amada, Belisa? Que os eruditos peguem nisto de corpo e alma. 
Para lá da versão oficial da mudança do nome da vila ( questão controversa), a saber, o suposto apoio à causa liberal, há a tradição local da ” Constância  ” dos amores entre Passos (liberal e “pé fresco”) e a filha dos miguelistas daquele que viria a ser o “palácio”, Gervásia Falcão futura mulher do  ministro de D  Maria II. O decreto oficial da mudança de topónimo incide sobre o título de “Notável Vila’, não explicando a escolha “Constância’.Fazendo aqui um parêntesis, recordo que a quadrilha que seguiu Dom Manoel Martinini e que apoiou os  direitos de D. Maria em Tomar em 1833 ( justificação do suposto apoio dos habitantes da vila ao liberalismo) partiu do Seival e não dá nossa vila. Por cá o povo apoiava D. Miguel (?) pelo menos há uma notícia importante duma cerimónia muito importante na Igreja que a muitos mobilizou.Tudo isto para explicar que a “Constância” poder ser uma de  várias hipóteses.(…)
Camões compara-se a Ovídio na elegia III. Por sua vez o poeta Ovídio foi desterrado para Constança (Tomis, na altura, mas Constança no tempo de Camões). Esta elegia  III terá sido escrita em Constância. O visconde de Juromenha assim o afirma, por exemplo. Escolheram um nome para a nossa vila precisamente igual ao nome da terra onde esteve exilado Ovídio com quem Camões se compara. Exagero? Talvez. Exagero de coincidências. É legítimo especular. Afora os factos e as conjecturas de terceiros que invoco, limito-me a levantar interrogações.
Então vou continuar. Em 1821 o bispo de Viseu, Francisco Alexandre Lopo , que sabemos era pró-miguelista e desempenhou o cargo equivalente a Primeiro-ministro  escreveu que nenhum outro lugar era concernente como Punhete, mormente, com a obra de Camões, quanto ao desterro.Naquela época a hipótese de Punhete era falada. Passos Manoel que também desempenhou funções de governo idênticas e morou em Punhete, estaria a leste desta conjectura? Duvido. Sendo politicamente adversos não conheceriam eles o que cada um publicava? Ora, havia em Constância até há poucos anos, na casa onde morou Passos, uma monografia escrita à mão pelo próprio Passos, conforme me revelou o recentemente falecido  vproprietário. Dificilmente o tema local de Camões terá escapado a Passos Manoel. Gostaria ainda de dizer que temos publicado o testemunho do pintor José Campas que nos conta que o seu paí, Manuel da Silva Campas, que nasceu na nossa vila em 1848, contou ao filho que os seus antepassados sabiam do desterro de Camões em Constância. Saiu em “O Século.”Na época da mudança de toponímia, Camões em Punhete era assunto falado e escrito. Não é verdade que o tema tivesse sido inventado pelo Visconde como gostam de contraditar alguns.  .
Por que motivo escolheu Passos Manoel o nome Constância, se é que foi ele? Podem ter sido vários os motivos. Mas uma coisa é certa. O nome corresponde a Constança para onde foi exilado Ovídio a quem Camões se compara na elegia que na época da mudança de toponímia era falada e sobre que se escrevia. .. e que terá sido escrita em Constância. Eu sei que é especulação.  Mas  ninguém pode negar que há coincidências suficientes para explorar..
Ainda que involuntária, a escolha do nome Constância, pode ser uma homenagem a Camões. Mas o assunto deve ser investigado.
A romaria dos Mártires e a  ligação a um possível eco camoniano …

Legenda da imagem do início do século XIX – antigo castelo de Punhete ( actual Constância) onde segundo uma das tradições locais esteve preso Camões.

De 3 a 5 Agosto realizava-se a nossa feira dos Mártires. Sobre esta invocação dos Mártires recordamos que no próximo dia 2 de Agosto decorrerão 455 anos completos sob a instituição da Confraria de Nossa Senhora dos Mártires de Punhete (designação actual de Constância).

Existe vasta literatura sobre a fama nacional dessas festividades remotas da dita invocação. Num certo sentido pode afirmar-se que a cultura e identidade da vila se confundem havendo uma fusão acontecimentos que acabaram por influenciar o progresso local em tempos idos. A romaria e a peregrinação traziam os forasteiros e todas estas dinâmicas influenciaram certamento o desenvolvimento da vila. No século XVI, em particular, a vila retomava sem dúvida a importância de outrora em que lhe tinha sido dado foral (há notícia da existência de foral, em 1390, mas é outro assunto a desenvolver – muita gente confunde o foral com a carta régia de elevação a vila de iure, de 1571…).

El Rei Dom Sebastião reinando instituiu a Confraria de Nossa Senhora dos Mártires em 2 de Agosto de 1566 (segundo consta dos estatutos da mesma confraria reproduzidos no século XIX).

A primitiva Igreja de Nossa Senhora dos Mártires demolida em 1550 por ordem do Bispo da Guarda era, portanto, de remota antiguidade.

Sabemos pela história que El Rei que instituiu a Confraria aqui residiu por diversas vezes no Palácio da Torre, por causa da peste, cujas ruínas ainda existem na confluência dos rios (monografia de 1830 do padre Veríssimo e estudos do professor Doutor Veríssimo Serrão, etcetera). Um apêndice: aguarda-se a conclusão do processo de classificação das ruínas como de «interesse municipal», procedimento aberto e votada no município há cerca de vinte anos atrás. Qualquer arqueólogo pode propor a sinalização do local e das ruínas… fica o desafio.

Os novos habitantes da vila que nestas últimas duas décadas fazem o pleno do escrutínio não se identificarão porventura com a história e tradições locais?, sendo-lhes irrelevante a existência das tradições que ligam Camões ao Palácio da Torre ou mesmo à Casa de Camões? Também assim para as questões marianas originárias? Não sei. Não diria tanto. É preciso dialogar. Haverá pessoas que sabendo do assunto aceitarão o desafio de ajudar a defender a nossa identidade local? Vamos ter fé! Há tempos em conversa com arqueólogos e outros visitantes da «Casa Mãe» na rua de São Pedro (inauguração de um espaço aberto à arquitectura e às artes em geral) percebi que há muita sensibilização a fazer nesta matéria e investi um pouco nesse diálogo pela noite dentro.

A fama da devoção a Nossa Senhora dos Mártires era tal que levou El Rei a visitá-la em Setembro de 1569 (segundo a História Sebástica de Frei Manoel dos Santos, editada em 1735).

Em 1571 El Rei aqui teria regressado pela terceira vez, segundo uma noticia do embaixador castelhano D. Juan de Borba em carta a Filipe ll por causa da nossa senhora de Punhete “que es una casa muy devota de romaria” (J.Veríssimo Serrão, itinerários).

Segundo o ilustre camoniano, Faria e Sousa, Camões terá escrito o soneto CCL (que lhe é atribuído) sob a invocação de Nossa senhora dos Mártires. Disso dá nota ter achado registo. O Visconde de Juromenha que nos transmite essa notícia de Camões conjecturou a possibilidade de Constância ser o local do degredo de Camões e refere-se à dita invocação local de Nossa Senhora a propósito do referido soneto . Significativo. Muito significativo. O que já se estranha é certa indiferença perante estas «evidências». Por muito menos e sem fundamentos sólidos se tem dado destaque a uma invocação de «Avieiros» qual acto construído a jusante, totalmente alheio à história das gentes de Constância e que a meus olhos serve que nem uma luva objectivos de uma candidatura a património imaterial que tem na génese acaso uma obra de Alves Redol. Assim vistas as coisas é pura poluição cultural. Mas o projecto dessa cultura avieira expurgado do elemento «Constância» e assente em bases sólidas – pode ser bem elogiado e ter mérito. Pode sim, senhor. Nada tenho a opor. Mas nada temos a ver com ele!

Adiante…

Há um dado curioso que pode contribuir para o estudo da reputada autoria  camoniano do dito soneto a que aludo anteriormente.

Atentemos!

Recordemos antes de mais que um amigo e contemporâneo de Camões, Fernão Álvares do Oriente, autor da «Lusitânia Transformada» apresenta-nos uma personagem «Urbano» que o ilustre académico António Cirurgião identificou de forma magistral como… Luís de Camões. O cenário principal dessa obra contemporânea do Vate é, nem mais nem menos, a zona da confluência do Nabão e…Constância.

Vasco de Graça Moura, saudoso literato, insuspeito, não deixou passar em branco o cenário da «Lusitânia Transformada» aquando da efeméride dos descobrimentos e por todo o pais se invocava o suposto degredo de Camões na zona de Constância. Por cá não se deu nota desse facto relevante. Vá lá a gente entender isto…

Nessa obra de Fernão Álvares (haverá um Fernão Álvares de Punhete a estudar em Coimbra contemporâneo destes factos- há investigadores neste pé) publicada em 1608, parece haver eco da invocação local mariana. O relato dos acontecimentos atinentes à viagem do Oriente (do autor) preenche cerca de um terço de todo o universo narrativo do livro (novela). Dá-se o caso da narrativa surgir precisamente no contexto de uma romaria dos pastores. Precisamente a um templo de Nossa Senhora.

Um estudo apurado poderá trazer-nos mais luz sobre o assunto. Entre as máscaras dos pastores e o plano da história – ficção versus realidade – o poeta vai edificando a sua obra, num modelo permeável é certo, mas onde se podem sempre encontrar dados biográficos, geográficos, históricos. Esse empresa não é de subestimar. É um desafio aos eruditos ou na falta deles, é uma aventura de nós outros…

Na origem da romaria dos Mártires estará um caso dito milagroso de uma cura de que o padre Ramiro Alves chegou a dar nota histórica à imprensa e que terá dado grande fama à invocação da Senhora dos Mártires. O «Santuário Mariano» deu grande relevo a um «milagre, outro. Há vários testemunhos escritos.

Não por acaso existem diversas bulas papais sobre a nossa Igreja. Já se interrogaram os mais «adentrados» destas cousas por que motivo os Papas tinham os olhos postos nesta romaria desta povoação do interior de Portugal? É mais um aspecto crucial a explorar e que deveria ser objecto de uma dissertação no mínimo. Tenho visto alguns trabalhos de mestrado sobre a nossa Igreja que mais não são do que compilações sem grande interesse e sem pesquisa no real sentido da palavra. Que pena, que perda de oportunidade. Temos tantos doutores em compilação neste país…

Como sabemos a nossa Igreja, sendo particular, da Confraria, portanto, e mercê de tanta fama e prodígios, foi unida à de S. João de Latrão, Igreja Papal, mesmo na vigência da jurisdição da paroquial de São Julião (que se situava onde existe actualmente a praça, nova) E não faltaram indulgências papais, repito.

Não querendo ser exaustivo não poderia deixar de escrever estes dados pois sempre vivi de perto com pessoas que amavam esta Igreja e a história local: o Padre José Maria Rodrigues D’ Oliveira , o cronista Joaquim dos Mártires Neto Coimbra que recolheu tradições em particular com a professora Emília Soares a pianista da vila, a zeladora Maria José Fonseca e outros nomes que poderia homenagear.

Um pormenor de relevo. É que nos estatutos da confraria consta, segundo a transcrição, que a instituição da mesma é em louvor de Nosso Senhor e também da Virgem Santíssima.

Jesus é a centralidade e Maria tem direito a hiperdulia. Como não poderia deixar de ser.

Parece que a tradição de Nossa Senhora da Boa Viagem no século dezanove não teria o esplendor, por exemplo, da Semana Santa e que já então o declínio da romaria dos mártires se poderia aferir pelo próprio declínio da feira dos mártires. Marcas inexoráveis do tempo dos homens de um novo devir. Ouvi vários ecos de testemunhos que assim o asseveravam porque o tinham ouvido aos seus avós que viveram as últimas décadas do século XIX. Poderia citar a família Burguete como exemplo testemunhal.

De 3 a 5 de Agosto eram dias de feira em Constância. Já escrevi bastante sobre o assunto na imprensa. Deixem-me acrescentar que segundo vários testemunhos que ainda continuo a ouvir, havia a feira na praça (ainda vi uma ou duas barracas na minha infância). Vendiam-se barros da Flor da Rosa, do Crato, bem avermelhados que fariam inveja a alguns barros «salgados» (?). Era no canto da Mari Dona. Havia a tenda do fotógrafo do Manel da Cármen. A Cármen tinha a maior barraca da feira. E vendiam-se madeiras, cadeira, etc, junto à Torre, nesse largo logo acima. Ouvi falar do carrocel junto à Torre. Sei que no século XVII há referência às casas da feira (a feira seria no Chão da feira).

De facto, há notícia de em 1823 a feira dos Mártires se realizar a 5 de Agosto «em huma planicie no alto da collina, em cujas encostas está fundada a villa». O relato é de Francico Ignacio dos Santos Cruz e vem na Descrição Económica da então Comarca de Tomar dada à estampa pela Academia Real das Ciências. É curiosa a já então referência à «louça» da «Flor da Roza». Pelos menos, durante 150 anos vinham cá vender. É notável. Porque as «velhotas» que falaram ccmigo sobre estes barros não andaram a ler os documentos do início do século XIX. Estou a lembrar-me do padre Zé Maria e do que me contou sobre uma promessa de um casal que estou quase certo ser do Crato, o qual pagou a compra das imagens de São Julião e de Santa Basilissa que se encontram actuamente na Matriz. Será que esta devoção de um casal do Alentejo a Constância terá nascido por causa da feira dos Mártires? Seriam da Flor da Rosa? Ficou-me na memória que seriam do Crato. Na altura desta conversa com o saudoso reverendo eu andava pelo Crato em trabalhos jornalísticos (o presidente da Câmara também se chamava José Luz) e associei nomes. Devo também dizer que não seria a primeira vez que o padre Zé Maria falava comigo sobre esta promessa do casal. Foram tantas conversas e tantos assuntos que nem sempre tudo se regista. Daí esta tentativa de avivar a memória.

Constância merece que se investigue a sua história. Sem preconceitos académicos.

José Luz

( Constância)

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