Em 2021 ainda “Temos tudo para semear flores”? Um abraço aos que partiram

Em Opinião

José Raimundo Noras

Perante um mundo em convulsão, em 1972, Sidónio Muralha escreveu o prefácio “Temos tudo para semear flores” para o livro a Aonde Vamos? de Kerstin e Hannes Alvén[i]. Sobre a “realidade e destinos da humanidade”, os autores antecipavam os problemas demográficos e ambientais, para além de escalpelizarem a tragédia humana da história do século, sem antever que se pudessem repetir de outras formas por falta de divulgação da ciência, aspeto que o livro refletindo sobre os seus limites éticos pretendeu fazer. O livro esgotou e que saiba não se reeditou, não teve edição portuguesa, mas merece ser relido. No prefácio, o poeta que nos inspira escreveu: “[…] Ou nos destruirmos integralmente uns aos outros ou acabaremos por transformar o monólogo em diálogo e futuro terá asas luminosas […] Do estrume presente vão irromper árvores […]”[ii]. Sidónio Muralha descrevia o presente com brutal frontalidade, “sem uma só palavra que fosse mentira” e numa prosa poética desenvolvia a ideia de que, perante as ameaças sobre o fim da espécie, a humanidade teria de se unir.

Na sua poesia não ficaram ausente os vírus das ideias baixas[iii]. Porém, quanto ao atual, só raros poetas nem e sensíveis cientistas adivinhariam os dramas humanos, tão humanos que estamos a viver embora estivessem correlacionadas com os problemas demográficos e ambientais, que divulgavam. Não porque haja um pendor vingativo na natureza, que não convém personificar, mas porque importa dizer que luta ambiental não é pelo planeta é pela humanidade, é pelas nossas capacidades de continuar a semear flores, de fazer pão e de escrever poesia. Sob pena de a “vida tomar outros invólucros”, temos de mudar caminhos, seja no problema concreto que vivemos, seja no futuro assustador que se vislumbra perante a ameaça de catástrofes constantes. Ainda há dias, (não me lembro do seu nome), vi um cientista da Faculdade de Ciências de Coimbra explicar a importância dos “microinsectos” (talvez não seja o termo técnico) que comem vírus e outros microrganismos e que morrem sempre que se abate uma árvore, nas florestas pelo mundo fora. Lembrei de há uns tempos atrás, fazendo minha a vontade delas, quis também votar pelas árvores. Não sobreviremos sem elas e é poético saber que elas ficarão cá muito mais tempo do que qualquer de nós. Por isso, mesmo perante todas estas ameaças, devemos celebrar a vida com a esperança que as árvores inspiraram. A esperança sempre presente, mesmo nos textos mais brutais (infelizmente atuais) de Sidónio Muralha, faz suspirar pelo futuro em que vamos a Marte e já imaginamos os selvagens que nós erámos como no seu soneto[iv].    

Ainda estávamos no primeiro confinamento inspirados por arco-íris e recolhidos com o medo, grande medo, e discutia com uma amiga nas redes sociais, se tudo isto poderia ser inspirador, tal como a tal filosofia sidoniana que perante as ameaças do fim da espécie o “monólogo dará lugar ao diálogo”. Ana insistiu que não, que o vírus nos tirou a capa de humanidade. E, quando perante ameaças comuns, uns dividem seja em repastos ou caçadas e outros tentam destruir os símbolos mais antigos de definimos como democracia representativa e liberal (embora, felizmente, já haja outras), parece mesmo que Ana tinha razão. As vestes da humanidade despem-se quando atiramos máscaras para o chão sem precaver que isso até pode matar o vizinho ou um irmão. As vestes da humanidade rasgam-se quando os “números vencem os nomes”, (como na distopia de Samuel Pimenta)[v], e os mortos passam despercebidos, reduzidos a números nos ecrãs de televisão.

Em 2020, perdi amigos e das maiores referências: entre a minha avó Emília Inácia Correia, o ator Sean Connery e o filósofo Eduardo Lourenço, quantos se foram da melhor geração? Fizemos as despedidas possíveis a uma mulher maior do que a vida que a todos nos ensinou a amar, a labutar, somar e multiplicar de cabeça, sem saber as letras dos livros que prometi ensinar-lhe, promessa que terei de cumprir noutra dimensão da existência. Aprendi um tanto com ela, outro tanto nos livros e por isso acho que ainda “temos tudo para semear flores”, coisa que também nos soube ensinar. A sua vida é tamanha que extravasa os versos pobres[vi] e, se Deus me ajudar, haverá de encher as muitas páginas de um livro, para que a memória fique.  Foram-se outras referências, mais conhecidas, mas não tão grandes como ela.

Foram-se amigos próximos e amigos distantes, como o colega Milito das discussões políticas da faculdade, deixou saudades e filhos pequenos. Foi o senhor Pinto, um dos donos da Tasca homónima em Coimbra, renovo saudades à esposa Dona Adelina, cuja filha trabalhava por cá e sempre me chama “o menino de Santarém”. Foram uns com vírus, muitos outros sem ele, mas em momentos mais amargos, sem o sabor do costume, sem o abraço comum, sem o choro contido ou gritos de pranto, sem alegria de um copo de tinto à sua memória, com a sobrecarga perene de números, regras e distanciamentos. O luto que fica é agridoce como se não soubesse bem como começar.

Partiu, enfim, de tal modo sorrateiro o Nuno Vicente[vii], rapaz “feliz à sua maneira” que primeiro conheci, sem conhecer, relendo provas do bonito livro que escreveu[viii] e de quem tive o orgulho em que participasse numa antologia de textos sobre a tomada de Ceuta[ix], com um acróstico, modelo de versos em que era especialista. Faleceu na flor dos sonhos que tinha, perseverando-os contra todas as adversidades da sua doença. Sonhava em formar-se como professor e, mesmo, em intervir ativamente na política, onde uma pessoa boa e da sua estatura moral tanta falta nos faz. Devo-lhe um apanhado histórico sobre as capitais de Portugal, tema que ficará para outras horas. Possamos saber-lhe fazer uma justa homenagem e inspirar com seu exemplo.  

Enquanto uns celebram as diferenças e dividem a subtrair, outros na maior das humildades fazem sempre contas de somar, multiplicando os pães e os peixes na borda das montanhas. Se não temos o poder de fazer milagres, nem de andar sobre a água, podemos sempre ler e reconhecer um dos mais bonitos sermões de todos os tempos.

Talvez dessa forma nunca deixemos os vírus rasgar as vestes da humanidade. Talvez assim tenhamos tudo para semear flores, havendo ainda vida humana para o fazer. Permanece a esperança que tempo de ir a Marte, já saibamos rezar na montanha e chegar aos mais próximos do que nos acutilantes versos de 1972.

“Soneto da viagem a Marte”

 O tempo não tem sul e não tem norte

seja qual fôr a hora de quem parte,

não tem fronteiras, não possui estandarte,

quem fôr a Marte irá sem passaporte.

Nós teremos partido para a morte

quando os homens partirem para Marte

e embora Marte já não nos importe,

importante, ó futuro, é importar-te.

Importante, ó futuro, é quando a terra

falar da fome e descrever a guerra

como histórias lendárias de gnomos.

Os dias forem lúcidos, translúcidos,

e a vida, ao sabor dos dias lúcidos,

se esqueça dos selvagens que nós fomos.

Sidónio Muralha, “O Pássaro Ferido”, 1972, p. 71[x]


[i] Kerstin e Hannes Alfvën, “Aonde Vamos? – Realidades e destinos da Humanidade”, prefácios de Carlos Castello Branco, Elsimar Coutinho e Sidónio Muralha, tradução do original de Jaime Bernardes da Silva (título original “M70”), Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1972. [Não existiu tradução em Portugal, segundo registos da BNP].

[ii] Sidónio Muralha “Temos tudo para semear flores” em Kerstin e Hannes Alfvën, “Aonde Vamos? – Realidades e destinos da Humanidade”, [p. 17].

[iii] Sidónio Muralha, “O Vírus” em Pássaro Ferido, Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1972, pp. 48-49.

[iv] Sidónio Muralha, “Soneto da Viagem a Marte” em Pássaro Ferido, Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1972, pp. 71. Versão musicada por António Pedro Braga disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=4Kmm55g-XTE.  

[v] Samuel Pimenta, Os números venceram os nomes, Barcarena: Marcador, 2015.

[vi] Miguel Raimundo “Ciclos de vida (ou onde estás Avó?)” em Evangelhos Libertários [Blogue], disponível em: https://evangelhos.blogspot.com/2017/11/onde-estas-avo-ou-ciclos-de-vida.html  

[vii] “Doença não roubou os sonhos a Nuno” em O Mirante, 23/03/2018, https://omirante.pt/sociedade/2018-03-23-Doenca-nao-roubou-os-sonhos-a-Nuno

[viii] Nuno Vicente, Sou Feliz à Minha Maneira, Santarém: Terra Branca, 2013.

[ix] Ana Pombo, Helena Nogueira, João Barroso, Nuno Vicente, Miguel Raimundo, Renato Martins, Tomada de Ceuta, reconquista da paz, prefácio de Samuel Pimenta, Lisboa: Livros de Ontem, 2017.

[x] Para além da versão imprensa, veja-se Sidónio Muralha, “Soneto da Viagem a Marte” lerdo ler [Blogue de Maria José Vitorino], disponível em: https://lerdoler.blogspot.com/2020/06/soneto-da-viagem-marte.html

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