Leituras inextinguíveis (7): O Esplendor de Portugal, obra-prima absoluta de António Lobo Antunes

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

O tríptico com que arrancou o escritor tinha a ver com as suas memórias de alferes-médico em Angola, em ligação com uma dolorosa rotura amorosa e uma incursão na sua vida profissional, como psiquiatra. Foi assim que li Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, entre 1979 e 1980. O tema dos retornados é central no seu livro As Naus (1988), mas será em O Esplendor de Portugal (1997) que ele irá até ao tutano dos dramas do colonialismo, a guerra civil de Angola e a vida em disrupção e anomia dos náufragos dessa descolonização, a quem lhes foi subtraída a identidade e o direito a amar um chão.

Lê-se O Esplendor de Portugal sempre com um frémito de emoção, primeiro  pela arquitetura turbilhonante como foi magicada a história, os seus tempos e lugares, aos solavancos aparece a data de 24 de dezembro de 1995 intercalada de outras datas, envolvendo múltiplos figurantes, mas o lugar é o norte de Angola e é um andar na Ajuda, são imensos solilóquios, recordações esparsas, expressões repetidas até à exaustão, que o leitor perceba que traduzem estados definitivos, memórias que não se apagam. Segundo, a densidade daquele cenário angolano revolvido entre o pretérito e os tumultos que uma guerra civil provocou, forçando o leitor a uma narrativa diacrónica, em que intervêm um ou mais personagens em colisão, não se esquivando o autor a descrições de uma crueldade imensa, que não se podem ler sem nos sentirmos investidos com o horror de tanta tragédia, basta este parágrafo:

“Devia ter desconfiado que Angola acabou para mim quando mataram as pessoas duas fazendas a norte da nossa, o homem de pescoço para baixo nos degraus, isto é, pregado aos degraus por um varão de reposteiro que atravessava a barriga, a mulher nua de bruços na desordem da cozinha, muito mais nua do que se estivesse viva, sem mãos, sem língua, sem peito, sem cabelo, retalhada pela faca de trinchar com um gargalo de cerveja a espreitar-lhe das pernas, a cabeça do filho mais velho fitando-nos de um ramo, o corpo que a serra mecânica decepara em fatias espalmado no canteiro, o filho mais novo nas traseiras (onde tomávamos chá à tarde com eles, a comermos bolinhos secos e a refrescarmo-nos com leques de ráfia) misturando as tripas com as tripas do cão, dedadas de sangue nas paredes, os tarecos tombados, as molduras em pedaços, as cortinas das janelas abertas varrendo o silêncio e o cheiro das vísceras, uma grita de gansos por cima da cantina, dos tratores e dos campos de girassol incendiados, em que os capatazes enrolados no chão mastigavam os próprios narizes e as próprias orelhas com cachos de besoiros zunindo nas chagas, o meu pai e os cipaios percorrendo as lavras sem encontrar ninguém exceto os cachorros do mato que esfarrapavam os defuntos e recuavam a superar, de pelo eriçado, abandonando a contragosto trapos e ossos, o meu pai sem encontrar ninguém exceto a própria sombra assustada…”

Na Ajuda vive Carlos, tem Almada lá ao fundo, ser mais melancólico e desenraizado não há, é casado com Lena, esta foi arrancada ao musseque, Carlos é um desistente e Lena não para de sonhar, há muito que não têm nada um a ver com o outro, Carlos convidou os irmãos, Clarisse que está por conta de um homem público e que a visita no Estoril duas vezes por semana e Rui, epilético, a viver num lar, tudo não passa de metáfora, inventou-se uma consoada para trazer à tona o drama de Carlos mestiço e uma família disfuncional. E somos remetidos para a Baixa do Cassanje, ali residem em fazendas com cantinas e senzalas as famílias coloniais, que recebem autoridades e até colonos estrangeiros, seremos inseridos na genealogia da mãe de Carlos, Clarisse e Rui, colonos com pergaminhos, e chegamos à figura central deste pungente drama colonial, Isilda, não quis voltar a Portugal em 1975, mandou os filhos, escreve-lhes cartas que não são lidas, é a figura viva da derrocada, ela assim se vê em junho de 1980, conversando connosco:

“Quando à noite me sento ao tocador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou o ácido do estanho a corroer o vidro?”

O leitor ainda não sabe, vai viver toda a guerra civil na região, com o MPLA, a UNITA e os mercenários, cada um destrói quanto pode, a fazenda vive em saque permanente, Isilda ali habita com as criadas, numa quase estrumeira. A sua memória é dilatada, vai aos tempos áureos da fortuna familiar, feita de muito roubo e trabalho forçado, relações familiares de mentira, de infidelidades sem conta, Isilda cresceu na traição, fez um casamento de aparências, o marido é um paspalho alcoólico, são tudo recordações dentro da guerra civil, é tudo arbitrário, não se sabe minimamente o que o futuro lhe reserva, o seu capital é a memória. Entretanto passam-se coisas na Ajuda, até os irmãos vão aparecer nos lugares onde habitam mas para ali revertidos, são manifestamente vidas tristes que atravessam este imenso caudal narrativo até chegarmos à questão fulcral do colonialismo português, é de novo Isilda a falar, e estamos em outubro de 1990:

“O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto que ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo eramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos e estes os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que macaqueavam casas europeias e qualquer europeu desprezaria considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica repulsa e num idêntico desdém, compradas ou mandadas construir com dinheiro que valia menos que o dinheiro deles, um dinheiro sem préstimo não fora a crueldade da maneira de o ganhar para todos os efeitos equivalente a conchas e contas coloridas, porque conforme o meu pai costumava explicar, olhavam para nós como criaturas primitivas e violentas que aceitavam o degredo em Angola a fim de cumprirem condenações obscuras longe da família, de uma aldeia qualquer sobre penhascos de onde vínhamos, habitando no meio dos pretos e quase como eles, reproduzindo-nos como eles na palha, nos desperdícios, nos dejetos para formarmos uma raça detestável e híbrida que aprisionavam por medo em África mediante teias de decretos, ordens, câmbios absurdos e promessas falsas, na esperança de morrermos das pestes do sertão ou nos matássemos entre nós como bichos e entretanto obrigando-nos a enriquecê-los com percentagens e impostos…”

Romance de maior desamor não há, não saberemos que cataclismo espera aqueles retornados que vieram da Baixa do Cassanje, iremos, naquele tropel de solilóquios assistir ao final de Isilda, talvez por acidente que podia ter ocorrido antes ou muito depois, entre tanta matança, e Lobo Antunes não se esquece de nos deixar a alma em trevas mostrando toda a riqueza daquela terra reduzida a vala comum, fratricídio, uma riqueza que por ingenuidade dos protagonistas da terra é na verdade cobiçada por imperialistas que aguardam a sua hora. Aquele esplendor de Portugal fora obra da fantasia, tudo o mais ficara confinado, para muita gente, numa melodia interrompida ou vida transformada num impasse.

Seguramente um dos monumentos literários com a assinatura de Lobo Antunes.

Mário Beja Santos

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