Genuinidade e os processos eleitorais de Trump, Bolsonaro e Ventura

Em Opinião

Para compreender o que é André Ventura e quais são as verdadeiras possibilidades de o “seu” Chega alcançar o poder é preciso estudar a campanha e sucesso do seu homónimo Jesse Ventura um antigo wrestler profissional durante onze anos no Minnesota e que, a partir de 1984 começou uma carreira de actor participando em filmes como “O Predador” ao lado de Arnold Schwarzenegger e tornando-se, pouco depois, num popular apresentador de rádio.

Jesse Ventura no início da carreira como ator

Ventura, o americano, começou como Ventura, o português, por lançar ataques sistemáticos aos Media e ao Establishment que acusou de estarem vendidos aos “interesses”. Beneficiando do cansaço dos eleitores perante as duas alternativas “institucionais”, o Republicano Norm Coleman e o Democrata Hubert H. “Skip” Humphrey III, Jesse Ventura, concorrendo pelo “Partido Reformista” que havia sido fundado pelo multimilionário Ross Perot em 1995.

Jesse Ventura, governador do Minesota em 2000, com Donald trump

Em 2000 Trump visitou Ventura no condado de Itasca quando este ainda era governador do Minnesota para recolher informações sobre como  poderia ganhar uma campanha política sendo – como classificou o seu responsável da  primeira campanha presidencial de 2000 Roger Stone – já que era como Jesse Ventura como um “político pop” popularizado pelo programa de televisão “The Aprentice”. Na altura Trump queria fazer a nível nacional o que Ventura tinha feito a nível estadual. No Minnesota, Trump aprendeu que “as pessoas não se lembram do que é dito. Lembram-se de como o dizemos” e que era preciso “fazer comícios, eventos e dizer coisas parvas à imprensa” dizendo “o que se pensava“, um pouco ao estilo do que fazia João Jardim na Madeira na década de 1980.

Como com Jesse, como com Bolsonaro, como com Trump e, agora, com o “nosso” Ventura no seu sucesso eleitoral há uma lição que deve ser tirada: os eleitores estão cansados de campanhas eleitorais fabricadas por consultores de marketing político (boa parte deles ex-políticos profissionais) em que os candidatos são mais actores e bonecos falantes que dizem aquilo que as sondagens e os “focus groups” dizem ser o que os eleitores querem ouvir e onde a aparência vale mais que a essência, a solidez e confiança dos programas eleitorais. Há um aspecto de genuinidade em Trump e, antes deles, em Jesse Ventura que lhe garantiu a eleição contra políticos de “plástico”, aparelhizados, previsíveis e profissionalizados. É esta genuinidade na participação política que importa recuperar para que não se perca para modelos de representação política populistas o campo da democracia e com ela o essencial das Democracias Liberais que são a melhor construção dos tempos modernos.

Rui Martins

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