Leituras inextinguíveis (8): O Mistério da Grande Pirâmide, por Edgar P. Jacobs

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

A minha geração foi confrontada com um conjunto de publicações juvenis que nos revelaram a banda-desenhada onde se distinguiam mestres audaciosos, uns oriundos dos Estados Unidos, como Axel Raymond, o criador de Flash Gordon e de X-9, Mandrake, o mágico, outros provenientes da Grã-Bretanha como o detetive e aventureiro Sexton Blake, mas cedo ganharam popularidade Hergé e o seu Tintim, Alix de Jacques Martin e as aventuras de Blake e Mortimer por Edgar P. Jacobs, talvez os primeiros génios da chamada banda-desenhada franco-belga, praticantes convictos de uma linha clara que jamais abandonou o traço das suas obras-primas. Dos três, respeito a intemporalidade de Hergé e auguro-lhe leitores para muitas mais gerações. Quando lia O Mosquito, O Cavaleiro Andante e O Mundo de Aventuras, empolgava-me com as histórias destes heróis irrepreensíveis, mas muito cedo, e creio que devido à grande impressão que me provocou uma das histórias mais fascinantes de Edgar P. Jacobs, A Marca Amarela, senti-me atraído pelo trabalho deste companheiro de Hergé que publicava livros como O Segredo do Espadão, O Mistério da Grande Pirâmide ou As Três Fórmulas do Professor Satô em diferentes volumes, e do acervo das aventuras de Blake e Mortimer (o primeiro, um capitão ligado aos Serviços de Informações, o segundo, reputado cientista), nada me compraz mais que os dois volumes d’O Mistério da Grande Pirâmide. Primeiro, pelo envolvimento da trama, a descoberta de um papiro que refere a existência de uma câmara secreta nas profundezas da Grande Pirâmide, a Câmara de Hórus, que conteria o fabuloso tesouro funerário da Faraó Akhenaton. Um colaborador do professor egípcio trabalha para o sinistro coronel Olrik, a personificação da maldade em permanência nas histórias de Edgar P. Jacobs. Multiplicam-se as aventuras, Mortimer pede ajuda ao capitão Francis Blake, parece ter sido assassinado na cabine telefónica do aeroporto de Atenas. Mortimer não desfalece, e no Cairo procura a ajuda de um egiptólogo de renome, o Dr. Grossgerabenstein, é nessas andanças que Mortimer recebe a visita de alguém que se afigura ser um padre que lhe entrega uma mensagem, se ele disser “por Hórus detém-te!”, a quem procurar fazer-lhe mal, sairá ileso, como se comprovará. Se a qualidade da História é muitíssimo bem urdida no primeiro livro, a glória do desenho fica reservada para um contraste entre as cores vivas em certos encontros e os sombreados dados pelo Vale dos Reis, e quando Mortimer descobre um ardil de Olrik voltamos às cores vivas, os motivos da egiptologia possuem tons magníficos, as cenas de perseguição aos bandidos de novo em grandes sombreados, as figuras bem definidas em toda a sua movimentação que torna a vibração permanente plausível. Os heróis não morrem, reaparece Blake que começa a decifração do mistério da Grande Pirâmide, entra-se nas profundezas, os dois encaminham-se para a Câmara de Hórus onde encontram Olrik maravilhado com as joias do tesouro de Akhenaton. Inicia-se um tiroteio, desmorona-se uma parte do edifício, enquanto isto de passa, Nasir, o criado de Mortimer, vai procurar o xeique Abdel Razek, o tal estranho sacerdote que procurara Mortimer, pede-lhe auxílio.

Blake e Mortimer

E chegamos ao ponto alto da obra, quando o maléfico Olrik pretende destruir o sarcófago de Akhenaton, aparece o dito xeique Abdel Razek vestido com as antigas roupagens sacerdotais egípcias, põe Olrik fora de combate. O leitor está sem fala, os desenhos de Jacobs mostram todo o esplendor da câmara de Hórus, a magnificência da estátua onde Abdel Razek entoa pedidos àquele Faraó que era cultor do Sol. Abdel Razek explica a Blake e Mortimer que estavam no lugar mais secreto do Antigo Egito, conta-se a história de Akhenaton, é necessário que eles esqueçam o que viram, tudo desaparece e Blake e Mortimer são induzidos a prosseguir caminho numa grande galeria até que aparecem à superfície onde o Dr. Grossgerabenstein e a polícia os esperam aliviados pelo seu reaparecimento. O vestígio de tudo quanto aconteceu traduz-se num anel que Mortimer usa no anelar da mão esquerda, dado por Abdel Razek, avista-se no alto da pirâmide este zelador do segredo, num desenho de uma beleza extraordinária enquanto pelo Vale dos Reis o maléfico Orlik anda à deriva…

Edgar P. Jacobs

História extraordinária, que desenho portentoso, que grande clássico da banda-desenhada, guardo O Mistério da Grande Pirâmide como uma das recorrentes visitas a um destes senhores que me maravilham ao longo destas décadas em que se soma a minha vida. E não me quero apartar de tão ditosa companhia, é verdade que há mestres norte-americanos que possuem uma força mágica, estou a pensar em The Spirit, de Will Eisner, mas nada, absolutamente nada, se compara com esta escola franco-belga onde pontificaram Hergé e Edgar P. Jacobs, que deixaram escola, têm continuadores de mérito, que nos deliciam (mais ou menos) com os seus remakes aventurosos e misteriosos, também eles destinados a leitores entre os 7 e os 77 anos. Que continuem por muitos e bons anos, continuadores de Hergé e de Edgar P. Jacobs e o seu enumerável cortejo de leitores.

Mário Beja Santos

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