Maria Konnikova e a psicologia secreta do mundo do poker

Em Ribatejo Cool

Sorte e azar: dois conceitos quase tão velhos como a civilização humana e que pautam o nosso destino a cada instante. A todos os momentos, temos 1 em 4,292 hipóteses de ser atingidos por um carro, 56% de hipóteses de sobreviver a um diagnóstico precoce de cancro, e 1 em 13,983,816 chances de ganhar a lotaria. No entanto, continuamos a creditar convictamente que estamos no controlo do nosso próprio destino. Que mesmo perante o caos que nos rodeia, nos cabe a nós e apenas a nós tomar as decisões que influenciam o rumo das nossas vidas. Mas porquê? A psicóloga norte-americana Maria Konnikova procurou precisamente responder a esta fascinante pergunta com o seu último livro, The Biggest Bluff. E de acordo com a escritora, a resposta encontra-se no misterioso mundo do poker…

O poker como objeto de estudo da psicologia

Aos 37 anos, a norte-americana de origem russa Maria Konnikova já é uma das vozes mais relevantes e populares do mundo da psicologia. No livro Mastermind – Pensar como Sherlock Holmes, Konnikova explorou de que forma cidadãos comuns podem aprender a refletir com o mesmo nível de assertividade exibido pelo popular detetive britânico. O livro foi um best-seller mundial, foi traduzido em várias línguas, e fez de Konnikova uma estrela instantânea da crítica especializada de Nova Iorque. Mas depois de nos fazer pensar em pensar como Sherlock Holmes, Konnikova decidiu tentar estudar até que ponto podemos controlar o nosso destino; de que forma podemos prever e definir de modo conciso o ambiente que nos rodeia, enganando a sorte e as probabilidades. Para tal, a autora procurou respostas num lugar que até pouco tempo ninguém tinha ousado associar ao mundo da psicologia: a mesa de poker.
Um jogo extremamente popular em todo o mundo, o poker é jogado por milhões de entusiastas, seja em formato físico ou através da Internet. Em Portugal, sites como o poker.888.pt lideram a indústria dos jogos de sorte e azar online, atraindo milhares de jogadores. Mas para além de ser um dos hobbies favoritos dos internautas de todo o mundo, o poker é o jogo em que melhor se cruzam os distantes mundos da sorte… e da habilidade.
Um jogo (quase) totalmente definido pelas cartas que são distribuídas entre os jogadores e a mesa de jogo, o poker não é, contudo, uma “lotaria.” Ao contrário de outros jogos de casino, como a roleta ou as slot machines, a habilidade dos jogadores tem um peso enorme sobre os desfechos de cada partida. Não é por acaso que o número de jogadores profissionais de poker tem vindo a aumentar de forma considerável ao longo da última década. Mas afinal, o que é que isto tem a ver com a maneira como nós pensámos e controlámos o nosso destino?

Konnikova e a complicada relação entre o ser humano e a estatística

Ainda não disponível em português, The Biggest Bluff oferece uma fascinante reflexão acerca da maneira como nós pensámos, tendo como base uma série extensiva de estudos empíricos associados ao poker. Mas o que é que Konnikova encontrou de tão especial na mesa de poker? Para começar, a escritora especulou de forma interessante acerca da relação complicada entre os cérebros humanos e a estatística.
Quase toda a gente sabe o que estatística significa. Mas segundo Konnikova, a estatística é tão contraintuitiva que é praticamente impossível realmente tomá-la em consideração. A psicóloga norte-americana defende que os nossos cérebros não estão preparados. do ponto de vista evolutivo, para sequer equacionarem esta ideia. De resto, Konnikova acredita que o impacto que as probabilidades têm na nossa vida possui na realidade uma origem anedótica (do inglês ‘anecdote’).
Segundo a escritora, nós nunca tomámos em consideração dados estatísticos pelo que eles são, mas antes pelo seu valor experimental. A frase “temos 2% de hipóteses de encontrar um tigre”, por exemplo, não pode ser interpretada de maneira eficaz pelos nossos cérebros. Já a frase “ontem vi um tigre aqui perto”, no entanto, pode mudar de forma profunda o nosso comportamento. De acordo com Konnikova, esta impossibilidade cerebral pode estar na origem da maneira como nos relacionamos com a ideia de sorte: de forma emocional, irracional, e completamente desassociada de valor probabilístico.
A ideia de sorte como conceito emocional é uma das mais interessantes do fascinante livro de Konnikova, cujo conteúdo pode ser apenas parcialmente explorado no contexto deste artigo. A psicóloga afirma que embora a sorte seja acima de tudo um facto estatístico que não pode ser controlado por fatores como a habilidade ou o calculismo, a nossa noção humana de sorte continua a ser a dos nossos antepassados. Se algo nos acontece, não foi porque existiam x probabilidades de tal acontecer; foi apenas porque tivemos azar e porque até podia ter acontecido a qualquer outro. Em The Biggest Bluff, Konnikova oferece exemplos de estudos matemáticos associados ao poker que ajudam a complementar estas fascinantes teorias e que valem a pena tomar em consideração, mesmo fora do campo da psicologia.

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