Um governo em contexto de pandemia – escolas, vacinação de políticos e desautorizações de ministros

Em Opinião

            O fatídico – mas sobremaneira previsível – dia chegou: tenho Covid-19 e sintomas da doença (louvado paracetamol!). E sei que, a despeito de imensos cuidados, o mostrengo infiltrou-se dentro de mim, revelando a furtividade clandestina por qual se tornou infame, depois de fazer uma pequena viagem de uma escola para o conforto do meu lar.

            Abro o artigo com esta declaração, porque, apesar do fecho dos nossos educandários, é-me insuportável ouvir a prosápia de certos incumbentes, garantindo que os estabelecimentos de ensino não são focos de contágio e que somente ordenaram a paragem das actividades lectivas por haver medo dos efeitos da estirpe inglesa.

            Mormente, existindo unanimidade entre os especialistas no sentido de que a suspensão destas actividades, com o objectivo de quebrar cadeias de transmissão, é preferível ao seu contrário; e já o era antes de qualquer temor emergente relativo a linhagens víricas com sotaque cockney.

            Pior! Quando se entende que a teimosa recusa em encerrar as portas destes locais de aprendizagem – que, feliz e infelizmente, apenas soçobrou após intensa pressão social – se devia à notória percepção de que escolas aferrolhadas paralisam o país, ou seja, aquilo que o governo não queria que acontecesse, mas não demonstrou coragem bastante para o admitir.

            Digo feliz e infelizmente, porquanto foi a medida necessária, adequada e proporcional às actuais circunstâncias de saúde pública; todavia, o enquadramento fáctico que conduziu à mencionada decisão não deixa de ser um amplo sinal de que faltam, a quem nos nos lidera, vigor e discernimento próprios! Os detentores do poder executivo não remam, com um mínimo de orientação, para um destino comum, cedendo, sim, à força das correntes opinativas e à gestão dos níveis de apreciação eleitoral.

            Compreendam que eu seria capaz de assentir a que um governo, num acto de arrojada responsabilização pelas suas escolhas, afirmasse que, dada a provável devastação económica daí decorrente, não imporia confinamentos gerais verdadeiramente constrictores, sujeitando-se às   críticas pungentes e ao julgamento popular no próximo sufrágio legislativo.

            Não posso aceitar, contudo, que um governo de um Estado, numa situação calamitosa como aquela que nos assola, pense que se consegue estar numa posição ambivalente sem que as consequências dessa dubiedade lhe sejam imputadas. A clareza, neste momento, é o nosso bem mais essencial!

            Ora, esta ambivalência, resultado da gestão de opiniões e da satisfação de putativos votantes, observa-se indiciada se analisarmos o recente câmbio no plano de vacinação para a Covid-19.

            Anteriormente às eleições presidenciais, e uma vez que o principal aparelho do PS também apoiava o anunciado e confirmado vencedor, optou-se por excluir os titulares de altos cargos políticos da lista de prioritários, receando-se o desapreço das massas. Assim que terminaram as eleições, a situação inverteu-se e os mesmos proscritos passaram a privilegiados.

            Atente-se que eu não sou contra a vacinação primaz do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República, do Primeiro-ministro, de ministros e de presidentes de Câmara, enquanto responsáveis máximos da Protecção Civil em cada município.

            Não me oponho, porque Portugal, acometido por uma crise de saúde pública desta magnitude, não pode correr o risco de perder, temporária ou permanentemente, os seus primordiais dirigentes, reduzindo os níveis de eficiência e eficácia no desempenho dos mandatos.

            Desgosta-me, porém, que não se houvesse reconhecido essa inevitabilidade numa fase prévia à “festa da Democracia” ocorrida no passado dia 24 de Janeiro.

            Em acréscimo, quanto à precipitada inoculação de deputados do nosso Parlamento e de diversos funcionários públicos, as minhas convicções não me permitem expressar concordância, acreditando que cada seringa espetada nos braços destas pessoas equivalerá a um incentivo ao voto em André Ventura e nos carniceiros que o apoiam.

            Por fim, o que cogitar de um governo que se remete ao silêncio, após ser confrontado com as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, desautorizando Marta Temido, no que toca à hipótese  de transferência de doentes portugueses para o estrangeiro? Que solidez e confiança isto nos assegura? Nenhumas!

            Deste modo, não vamos lá! Não vamos, não!

João Salvador Fernandes

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