Comeres & beberes – O cego e a chouriça

Em Ribatejo Cool

A execrável pandemia para lá dos terríveis efeitos azucrina a vida de todos e a todas as horas. Antes do seu aparecimento no mês de Janeiro e no mês de Fevereiro visitava as feiras de fumeiro realizadas nas terras transmontanas, umas por obrigação, outras por puro gozo dos sentidos. Agora tudo mudou de figura, as feiras, as suas organizações e os diminutos públicos, sem esquecer os afagos que não afagam virtuais.

Em jeito de admirada e esfusiante lembrança trago a terreiro um episódio da fabulosa narrativa literária picaresca tão do agrado dos povos rurais da península ibérica. Pois então, na maioria dos vales, montes e serras havia muita fartura de fome, doença e morte. Pululavam os cegos, os estropiados e outros exibicionistas de pústulas em festas, feiras e mercados.

Os cegos eram colocados na mendicidade acompanhados por meninos desvalidos os moços de cego a fim de os guiarem. Por norma os moços depressa aprendiam a sobreviver através da loja do furtado e demais ardis no fito de sempre que lhes era possível tirarem a barriga de misérias.

Ora, num dia de Inverno tão frio quanto os dias recentes, cego lamuriava esmola, uma mulher condoeu-se obsequiando-o com uma chouriça, delícia rara mesmo para homens sãos e trabalhadores. O moço viu o cego colocar a dádiva no bornal e não tardou muito a roubar-lha, distanciando do possuído pelas trevas na intenção de comê-la sozinho. Se o pensou, melhor o executou. Duas pedras, no meio delas pedaços de mato seco, fogo e não tardou surgirem brasas vivas nas quais a chouriça ficou assada. Deglutido o precioso enchido, o moço aproximou-se do cego dando-lhe um pedaço de pão atingido por pingos da assadura. O cego recebeu os aromas, percebeu a marosca, mal apanhou o rapaz espancou-o dura e vigorosamente por ter sido privado de tão substancioso petisco. O moço enquanto esfregava as nódoas negras engendrou um plano de vingança colocando-o em prática numa altura de atravessar uma vala na charneca. Daí ter dito ao amo: precisarem de saltar a vala para o lado oposto, por isso pegou na sua mão, explicou a necessidade de um salto grande e esforçado, a seguir gritou: salta. O cego saltou e esborrachou o rosto no tronco de um sobreiro a deixá-lo muito maltratado. O moço resmoneou: então cheira-te o pão à chouriça, e não te cheira o sobreiro à cortiça?

Este ano não cheiro, nem provo as chouriças!

Armando Fernandes

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