Foto: Artur Coutinho

Comeres & beberes – Masseira

Em Ribatejo Cool

Na casa que herdei numa pitoresca aldeia do concelho de Vinhais guardo uma masseira de castanho e respectivos cavaletes a recordarem tempos idos, pão cozido no forno do povo.

Trago à tona este utensílio ora caído em desuso porque a ciência transmitiu conhecimentos à técnica, esta inventou as batedeiras eléctricas capazes de mexerem e remexeram as massas – farinha e água – num instante poupando ingente trabalho às mulheres e aos padeiros. No entanto, as masseiras ainda são utilizadas (especialmente em confeitaria e pastelaria) para gáudio de quem mastiga as representações doceiras à base do beijinho da farinha, a mais fina, a mais pura.

A evocação da masseira a qual era empregue noutras funções, por exemplo mesa desde que virada ao avesso, prende-se com a negra e pavorosa gripe espanhola, pois na emergência aquela peça de mobiliário de cozinha converteu-se em cadafalso dos desgraçados mortos no decurso da tormenta nas aldeias em que as tumbas eram caras e difíceis de aparelhar em virtude da carência de carpinteiros e marceneiros.

As masseiras, símbolo do alimento vital nas comunidades rurais, deixavam de o ser passando à condição de improvisados esquifes até porque as populações desapareciam dizimadas pela praga pandémica de há cem anos (1919-20) ceifeira de milhares e milhares de mortos, muitos deles enterrados envoltos num lençol pois as famílias nem humildes masseiras dispunham.

Agora, a pandemia está a provocar mortandade semelhante, o progresso instituiu a cremação, as casas mortuárias e os camiões frigoríficos guardam os cadáveres, a única e importante diferença reside no facto de no tempo presente as famílias serem impedidas de fazerem o funeral aos falecidos. Três vezes: porca miséria!

Armando Fernandes

Leave a Reply