Leituras inextinguíveis (9): Crónica dos Feitos por Guidage, por Salgueiro Maia

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Após o falecimento daquela que é porventura a figura mais icónica do dia 25 de abril de 1974, um conjunto de amigos decidiu homenageá-lo publicando um conjunto de escritos seus. Há textos marcadamente irónicos, bizarros e pícaros, Salgueiro Maia desmonta a figura faceta e rocambolesca do capitão Gaspar. Mas um texto que se impõe e se sobrepõe a todos, o seu testemunho em torno de uma das grandes tragédias da guerra da Guiné, o que ele viu em maio de 1973 quando um grande contingente militar do PAIGC cercou Guidage, uma povoação junta à fronteira do Senegal. Antes de chegarmos a Guidage, que ocorreu nas últimas semanas de maio, nos inícios desse mesmo mês, estando Salgueiro Maia e os seus homens noutra região, foi confrontado por um ataque avassalador, ele não localiza onde, mas terá sido entre Bula e Binar. Tudo começa ao amanhecer com um forte tiroteio, pedidos de apoio aéreo, de apoio e artilharia, a urgência de evacuações. Salgueiro Maia segue para ali com dez homens. Tinha havido duplo contato do PAIGC com as nossas tropas, saíram destroçadas da refrega, deixando armamento no terreno. Tudo num caos. “Face à situação, o comandante do batalhão manda avançar a companhia em reserva para acolher aos camaradas, mas, pura e simplesmente, a companhia recusa-se a avançar. Fico tão enojado com esta cena que, tendo como único pessoal sob o meu comando os dez homens que tinham vindo comigo mais outra secção de outro destacamento, disse-lhes que ia buscar os homens que estavam na mata. Se houvesse mais alguém que não fosse cobarde, podia ir comigo. As minhas duas secções e mais cinco homens subiram comigo para três Unimog 404 e, de imediato, fomos acompanhados por duas autometralhadoras Panhard. Para quem não conhece a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagens por entre as árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direção certa rumo a cerca de 60 homens deitados no chão. Para fazer cerca de 7 quilómetros demorámos cerca de hora e meia, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate. Ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham ar alucinado, de náufrago que vê chegar a situação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estavam ainda na fase de não saber se era verdade ou não. Mando montar segurança à volta da zona e pergunto pelos feridos ao primeiro homem que encontro – tem um ar de miúdo grande a quem enfiaram uma farda muito maior do que ele; parece de cera, olha-me sem me ver e aponta com o braço. Sigo na direção apontada e depressa vejo uma nuvem de mosquitos e moscas: já sei que à minha frente tenho sangue fresco. Debaixo de uma árvore, estão estendidos cinco homens; o capim está todo pisado; alguns dos homens estão em cima de panos-tenda; à volta, estão compressas brancas empastados de vermelho; o chão parece o de um matadouro, há sangue coalhado por todo o lado; a maioria do sangue vem de um dos homens que já está cheio de moscas. Dirijo-me para ele – está cor de cera e praticamente nu. Olha-me como que em prece; ninguém geme, o silêncio é total. Trago comigo o furriel-enfermeiro e um cabo-maqueiro. Mando-os avançar, assim como as macas. Dirijo-me ao ferido mais grave – o ferimento provém-lhe da perna. Tem em cima dela várias compressas empastadas de sangue. Tiro as compressas e vejo que o homem não tem garrote. Pergunto estupefacto porque é que não lhe fizeram um. Alguém me responde que o enfermeiro está ferido. Continuo a tirar as compressas, que foram postas a monte, sem sequer terem sido apertadas. O homem tem um estilhaço na zona da articulação do joelho. Vê-se a tíbia; toda a carne se encontra como que seca, envolvendo um buraco do tamanho de uma laranja”.

Se este relato tem ressaibos dantescos, o que irá ocorrer a partir de 22 de maio de 1973, é de uma brutalidade sem limites. Salgueiro Maia e a sua companhia preparavam-se para regressar a Portugal, chamado de urgência, irão participar na operação de apoio a quem está a viver o inferno em Guidage. “Na zona de Guidage, as flagelações no mês de maio passaram de 50, no mês anterior, a 167. O único acesso a Guidage passava por Binta, a cerca de 20 quilómetros. No itinerário, o IN implantou um campo de minas anticarro e antipessoal, com a originalidade de, pela primeira vez, as minas anticarro rebentarem com a simples pica. Antes das minas, a última coluna de reabastecimento a Guidage foi atacada consecutivamente durante cerca de 24 horas, tendo a escolta esgotado praticamente todas as munições de armas ligeiras que transportava, pelo que as viaturas com o restante material e os nossos mortos foram abandonados no terreno, tendo as nossas tropas retirado em boa ordem para Guidage. Sofreram 4 mortos, 8 feridos graves e 10 ligeiros. O batalhão de comandos foi enviado às bases do IN localizadas no Senegal – Operação Ametista Real – para tentar diminuir a impetuosidade do ataque, mas, apesar de destruir material diverso, teve de retirar, já que o IN lhes surgiu com viaturas blindadas. Sofreram 16 mortos, sendo 2 oficiais, e 20 feridos”.

É um cerco demolidor: uma companhia de paraquedistas e um destacamento de fuzileiros conseguem chegar a Guidage depois de uma grande tormenta de minas e emboscadas, antes, a companhia de Farim teve de abandonar as viaturas, a tentativa de colunas de reabastecimento era infrutífera. “Na sua luta por Guidage, o PAIGC utilizou a artilharia pesada e ligeira do Corpo de Exército N.º 1, apoiada pela infantaria e um grupo especial de mísseis terra-ar. Em armamento, o IN utiliza, nesta altura, peças de 120 mm de tiro rápido, foguetões de 122 mm, morteiros de 120 mm e 82 mm, canhões sem recuo de 7,5 e 5,7, lança-granadas foguete RPG-2 e RPG-7, isto para além de armamento ligeiro normal e mísseis terra-ar”.

Inicia-se a saga para chegar a Guidage. “No dia 29 de maio, pelas 5 horas, iniciamos a abertura do itinerário Binta-Guidage. Cerca das 10 horas, ao ser picada, foi acionada uma mina anticarro, de que resultou um morto, um furriel cego e dois feridos ligeiros. Foi ordenado ao pelotão a que pertenciam as baixas para, em dois Unimog, fazer a evacuação para Binta, onde a companhia local os evacuaria para Farim. O pelotão que fez a evacuação aproveitou a oportunidade e não voltou. Talvez para que o mau exemplo não se espalhasse, esta deserção coletiva em frente do IN, apesar de constar no relatório da Operação, não originou qualquer procedimento disciplinar”. É uma tormenta que parece não ter fim, com ataques sucessivos, homens desmaiados por insulação de rebentamento de minas. Ao anoitecer, Salgueiro Maia e os seus homens chegam a Guidage, o que ali se avista julga-se inarrável. O chão estava lavrado por granadas, as casas, todas atingidas, pareciam ruínas, os homens viviam em buracos, luz e água não havia. Houve grande regozijo e azáfama com a nossa entrada, pois era necessário preparar tudo para os cercados regressarem ao alvorecer do novo dia, sem dar tempo ao PAIGC para minar o novo itinerário. Por outro lado, era necessário dispersar os homens, pois os ataques eram frequentes (…) O pessoal dormia e vivia em valas abertas ao redor do quartel. Esporadicamente, errava-se por lanços por entre os edifícios ou o que deles restava. Se o movimento se tornava mais normal, lá apareciam umas granadas de morteiro 82 para nos fazer lembrar que devíamos ter mais cuidado. Como dormir no chão não é muito agradável, na primeira oportunidade passei revista aos escombros e tive sorte: descobri dentro de um armário que tinha pertencido a um alferes madeirense que ficou sem uma perna uma farda n.º 3, que me permitiu lavar o camuflado, uma escova de dentes usada e, como prenda máxima, um bolo de mel e uma garrafa de vinho da Madeira quase cheia e inteira no meio de tudo partido. Com isto fiz uma pequena festa com 3 ou 4 homens, porque era perigoso juntar mais gente. Nesta altura pensei em, depois de regressar a Bissau, ir ao Hospital Militar 241 saber quem era o alferes para lhe agradecer tão opíparo banquete, mas tal não foi possível e ainda hoje tenho esse peso na consciência”.

Este texto de Salgueiro Maia devia constar de toda a documentação que tem a ver com a educação para a cidadania, para se ensinar às novas gerações o que foram as provações das centenas de milhares de jovens que o Estado Novo mandou combater numa causa inútil.

Mário Beja Santos

1 Comment

  1. MAIO DE 1973 : A GUINE’ ESTAVA A FERRO E FOGO. Foi durante o cerco a GUIDAJE (cerca de 800 guerrilheiros da PAIGC) e na estrada que a liga vinda de BINTA debaixo dos maiores combates da GUERRA COLONIAL que SALGUEIRO MAIA sentiu que ”alguma coisa” tinha de ser feita para ………….. O RESTO E’ HISTORIA.

    RODOLFO BATALHA – CART 676 – BRAVOS E SEMPRE LEAIS – GUINE’ 1964 – 1966

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