Um novo jardim para Santarém

Em Opinião

Como zona nobre no Centro Histórico, seria bom que a Câmara fosse pensando em transformar o chamado “Ferro de Engomar” num espaço privilegiado ao serviço da cidade e dos cidadãos.

Santarém já foi, em tempos, uma ”linda cidade” com bonitos e bem tratados jardins. Floridos, com arruamentos limpos e locais de descanso e desfrute aprazíveis e românticos. Lagos e repuxos que refrescavam e sugeriam uma bucolicidade e uma beleza acrescentadas pelas espécies animais residentes: cisnes, peixes vermelhos, patos e outros. Isto tudo que era o encanto dos locais, de turistas e das crianças está/foi completamente descaracterizado e perdeu o esplendor e a beleza que até deram o mote a uma canção da Tónicha, durante muitas décadas. Uma referência e quase um hino da cidade, “ fui colher um malmequer num lindo jardim de Santarém” Diz a letra da canção.

 Isto é só para refrescar a memória daqueles que, deslembrados e deslumbrados ou mal assessorados, ajudaram a destruir todo aquele património de que Santarém e os escalabitanos tanto se orgulhavam. Os seus jardins.

Agora, tudo não passa de incaracterísticos espaços criados por arquitetos modernistas, a trabalharem para prémios sem qualquer valor, desenraizados da terra e das suas idiossincrasias e que vão fazendo lembrar e confirmar o comentário de Garret que, na sua chegada a Santarém ( Viagens na Minha Terra), se mostrou francamente desiludido com uma cidade sem pessoas, suja e em ruinas.

Uma Câmara competente não deixa degradar uma cidade assim.

Mas eu queria chegar era aqui: Santarém tem de começar a pensar em tornar belos e uteis alguns dos recantos e espaços abandonados. Alguns proprietários vivem na esperança de que melhores tempos lhes proporcionem coletas especulativas e desproporcionadas em relação aos valores intrínsecos e patrimoniais dos seus terrenos. Uma Câmara competente e que privilegie os cidadãos, tem que olhar pelo seu bem-estar, pela sua qualidade de vida e, quando o interesse público o exigir, deve negociar a aquisição dos terrenos imprescindíveis para esse fim. Através da expropriação, da compra ou da permuta, existirá sempre uma solução, desde que haja vontade política.

Estou a lembrar-me daquele espaço popularmente chamado de “Ferro de Engomar” situado mesmo no entroncamento da Av. António dos Santos e da Rua Vasco da Gama. Que alegria poderia ser dada àquele largo abandonado e atual serventia de automóveis estacionados ad hoc, se um executivo camarário fizesse dele um espaço verde e de convívio social e até turístico. É que, por detrás da vegetação lá existente, esconde-se uma parte da história da cidade, um troço da antiga muralha fernandina de que aquele é um dos poucos resquícios atualmente existentes. O que existe está abandonado e sem qualquer tipo de conservação ou atenção.

Parece que se vão iniciar as obras de beneficiação da Av. António dos Santos. Aquele largo é um sítio de passagem diária obrigatória de centenas ou milhares de pessoas e viaturas. Passará a existir uma avenida nova que serve o cemitério, o crematório e muitos outros serviços, manchada por esta nódoa que, com um pouco de engenharia financeira, poderá ser transformada num belo local de passeio, relaxe e convívio, numa zona nobre e de bastante densidade populacional.

Como zona protegida incluída no Centro Histórico, seria bom que a Câmara fosse pensando no seu aproveitamento, de modo a que, esse espaço, fique ao serviço da cidade e dos cidadãos.

Armando Leal Rosa

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