Para que haja memória – A guerra colonial começou há 60 anos

Em Correio dos Leitores

O Homem só progride e evolui se resolver o seu passado, conseguindo a capacidade necessária para construir o seu presente, olhando de forma objetiva para o seu futuro.

Hoje “celebra-se” uma efeméride que marcou o nosso passado como nação, mas que ainda não está resolvida no íntimo de muitos portugueses, antigos militares e colonos, a quem ousaram chamar de forma depreciativa “retornados”.

É verdade, começou há 60 anos uma chaga, uma ferida que subsiste e que demorará ainda uma, ou duas décadas a sarar, à medida que forem morrendo os que por lá passaram.

A chaga da Guerra Colonial!

No dia 4 de fevereiro de 1961, um grupo de 200 angolanos ligados ao Movimento Popular Libertação de Angola (MPLA), atacou a Casa de Reclusão Militar de Luanda, a Cadeia da 7.ª Esquadra da Polícia, a sede dos Correios e a Emissora nacional.

Foto: Joaquim Coelho, Espaço Etéreo

Estava dado o pontapé de saída para um tormento que duraria 13 anos!

No dia 15 de março do mesmo ano, guerrilheiros da União dos Povos de Angola (UPA) atacariam as fazendas a norte de Luanda, espalhando o terror, matando e desventrando colonos, violando mulheres, matando crianças, lançando o terror.

Foi semeado o pior de que o Homem é capaz e, ao ódio, foi acrescentado ódio.

Ódio preto, ódio branco?

Que importa a cor, ódio é ódio.

Os relatos foram chegando à Metrópole, como se chamava então o nosso cada vez mais pobre Portugal, e perante o descontrolo que se vivia numa área estratégica para a produção de café, Salazar acordou, tarde, mas acordou.

A 13 de abril, reconheceu que não se tratava apenas de um grupo de guerrilheiros com catanas, mas que se compunha um cenário de movimento organizado, apoiado e fornecido por potências internacionais.

De facto, os blocos movimentavam-se e a guerra fria também se vivia no calor de Angola.

“Para Angola, rapidamente e em força!”

Em julho de 1961 compunha-se a primeira grande campanha militar em solo ultramarino, após mais de 400 anos de ocupação. A operação Viriato, que juntou cerca de 1500 militares portugueses, divididos em 3 companhias.

O objetivo era libertar Nambuanbongo, centro logístico da guerrilha, onde era recebido o material militar disponibilizado pelas potências internacionais aos guerrilheiros.

A 9 de agosto de 1961 terminava-se o início da guerra colonial, com a conquista desses territórios.  Infelizmente a conquista da terra não se seguiu à conquistou o coração dos Homens.

É verdade, aquela conquista foi só uma conquista, que o 25 de abril tornaria efémera.

A ação psicossocial militar, de apoio às populações nativas, foi um paliativo, não curou, ajudou a aguentar.

O tempo passou, muitos jovens passaram por Angola e pelas outras colónias.

Tudo terminaria de forma abrupta!

Alguns foram convidados a atirarem-se aos tubarões, mas uma ponte aérea, marítima e terrestre, possibilitou que centenas de milhares de portugueses fossem salvos, e chegassem pobres, mas seguros, aos portos de abrigo.

Pois é amigo (a), há 60 anos começou a guerra colonial, que nos devemos relembrar sempre, porque só quem aceita o seu passado, conquistará o seu futuro.

Não é saudosismo, é memória e reconhecimento a quem sofreu.

Relembro o meu tio, Manuel Reis Ferreira, natural de Zambujal, Atouguia, concelho de Ourém. Foi o soldado condutor, n.º 3160 do 2.º esquadrão do 1.º pelotão dos Dragões de Angola, que cumpriu serviço na defesa da 7.ª Esquadra e na Reclusão de Luanda, precisamente há 60 anos.

Incorporou o Esquadrão de Cavalaria que chegaria a Nambuangongo.

Contou o que viveu, sofreu muito e morreu aos 80 anos.

Só nesse dia a Guerra para ele terminou.

José Manuel Pereira Lopes

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