Apesar de tudo o diálogo com o PCP é possível e desejável

Em Correio dos Leitores

No dia 6 de Março decorrerão cem anos sobre a Fundação do PCP – Partido Comunista Português, em 1921 ao que se sabe ocorrida na sede da Associação dos Empregados de Escritório, em Lisboa, onde se realizou a assembleia que elegeu a direcção do partido.

O centenário do partido tem sido uma data algo subestimada pela imprensa. Trata-se de uma efeméride que simboliza em si um património colectivo que quer queiramos quer não, faz parte da história de Portugal. Com erros e virtudes, seguramente fiéis ao “manifesto”, ontem como hoje. Só adere quem quer. Sobreviveram à ditadura e sobrevivem em democracia. Parece um partido condenado a uma minoria. A recente decisão europeia de equiparar o comunismo ao nazismo veio meter no mesmo saco a ditadura de Estaline e o comunismo propriamente dito. Como se todos os comunistas fossem estalinistas. O resultado dessa equiparação é tornar igual o que pode ser diferente. Não é uma decisão intelectualmente honesta.

Muitos dos regimes ditos comunistas não seguiram nem seguem sequer as filosofias e teorias originais de Marx e Engels, tendo criado derivas perigosas. Alguém pode afirmar que na ex-URSS vigorou o comunismo? Não é rigoroso. Não é factual. Há uma componente forte de ateísmo associada ao comunismo que a Igreja sempre condenou ao longo da história que está, aliás, estrictamente conectada com o chamado racionalismo iluminístico, que concebe a realidade humana e social do homem, de forma mecanicista. Mas há uma luz no túnel quântico do diálogo entre os homens. Não se apresentando rigidamente dogmático, o comunismo, mesmo com o contributo de Lenine, sujeita-se ao progresso e à ciência e ao diálogo. O comunismo vive no mundo dos homens.

Até ao magistério de João XXIII predominava na Igreja a doutrina do «Corpo Social» contrária à ideia da luta de classes» tão própria do comunismo. Havia uma compreensão aguda dos dois lados deste binómio. Os marxistas tendiam a ver na Igreja uma organização que adormecia as pessoas e ajudava a burguesia a perpetuar-se e a Igreja dos homens, por seu lado, entendia que a «luta de classes» assentava necessária e obrigatoriamente na violência de uns contra outros, o que haveria sempre de dividir os homens e entendia ser contrário à «conciliação» que deve existir na sociedade, donde, a condenação. Esse tempo histórico já é do passado. Tinha um contexto e circunstâncias de ontem.

Com o Vaticano II, abriu-se a porta e estendeu-se a mão: “Ainda que rejeite inteiramente o ateísmo, todavia a Igreja proclama sinceramente que todos os homens, crentes e não crentes, devem contribuir para a recta construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é possível sem um prudente e sincero diálogo” (“Gaudium es Spes”, 1966, p. 28).»Na sua Carta Encíclica “Fratelli Tutti “o Papa Francisco escreve o seguinte: ” Nos primeiros séculos da fé cristã, vários sábios desenvolveram um sentido universal na sua reflexão sobre o destino comum dos bens criados. Isto levou a pensar que, se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido. São João Crisóstomo resume isso, dizendo que, «não fazer os pobres participar dos próprios bens, é roubar e tirar-lhes a vida; não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos».E São Gregório Magno di-lo assim: «Quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, não oferecemos o que é nosso; limitamo-nos a restituir o que lhes pertence».

“Estes princípios da Igreja nascente sabiamente recuperados pelo actual Pontífice, têm-lhe valido a oposição interna feroz. O que não abala em nada o «Caminho» da Verdade do bom Francisco.

Dizem que os extremos se tocam, numa alusão àquilo que divide o comunismo e o cristianismo e àquilo que os unirá….A Igreja persegue a Santificação do homem com o objectivo da união de todos e cada um com Deus. O comunismo almeja uma sociedade perfeita quanto possível na terra, sem exploração do homem pelo homem.

Somos todos humanos e irmãos. Se hoje há cristãos a lutar ao lado de comunistas é porque o amor venceu. O diálogo e o respeito mútuos, sem prescindir das convicções próprias, possibilitou a aproximação. O Concílio do Vaticano II foi a maior revolução de sempre desde a Igreja nascente. Para que duas pedras se movam basta que uma se desloque.

Há muito tempo que dialogo e integro grupos de reflexão com comunistas. Na vida só poderemos crescer, em diálogo e nunca fechados no nosso mundo Ontem foi o dia da Fraternidade e eu vi como o Papa Francisco, um líder do islão e o Secretário Geral da ONU, em conferência a distância pela Fraternidade, procuraram dar um exemplo fraterno entre os homens.

É esse o Caminho Só o amor vencerá!

É esse o erro histórico do Marxismo: esqueceu o amor. Mas o amor tudo vence! O amor conquista o coração dos homens. Nos últimos tempos temos assistido a um certo discurso do ódio pela voz de uma crescente extrema-direita que não tem o mínimo respeito pelo adversário político. Não se sabe qual é o pensamento político desta gente. Em nome de um falso messianismo, um líder delirante federa o que de pior há no país: racismo, xenofobismo neonazismo, neofascismo, , radicalismo religioso, nacionalismos exacerbados. O Presidente, o Primeiro-Ministro e a PGR fingem que o rei vai vestido. Mas o rei vai nu, diz a Ana. É assim a nossa sociedade. Perante o insulto gratuito ao Secretário-Geral do PCP feito pelo candidato da extrema-direita fazem piadas nas redes sociais. E votam no candidato que se considera o Messias do quinto império… Como diria o filósofo,, «nos assuntos inteligentes, discute-.se as ideias e não as pessoas». Ódio , gera ódio…Quando se perde o respeito pelos adversários políticos, só porque estão noutro campo político, perde-se a razão. E não há racionalidade que resista Não há democracia nem liberdade que possa tolerar o ódio esse maldito discurso do ódio.

Com todos os seus defeitos eu prefiro mil vezes uma sociedade com um partido como o PCP no seio dos restantes partidos da democracia . O PCP ajudou a construir a democracia e, não obstante os seus erros materialistas, evoluiu e é hoje moderado e está plenamente integrado na vida política nacional. Não vamos vender a alma ao diabo…Fé e razão não são inimigas e não se excluem.


José Luz

(Constância)

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