Leituras inextinguíveis (12): Álbum das Glórias, a Capela Sistina do desenho de humor em Portugal

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Primeira edição do Álbum das Glórias, 1880

Se Columbano Bordalo Pinheiro é considerado o maior pintor português do século XIX, o mano Rafael tem outra forma de posteridade garantida: por outros processos ínvios das Artes Plásticas é o nosso inultrapassável desenhador de humor, foi o génio da crítica social e política, revolucionou o desenho, impôs a caricatura no jornalismo de referência e deixou-nos a maior galeria de retratos de gente do seu tempo, compôs a imagem de uma época que ainda hoje nos perturba, aqueles corpos esquálidos ou balofos são completamente maleáveis, podemos justapô-los ao nosso tempo, incorporam uma atmosfera de paródia como jamais os seus sucessores puderam rivalizar, mesmo quando se chamaram Leal da Câmara, Almada, Botelho, Amarelhe, Valença, Stuart, João Abel Manta ou Vasco.

Edição do Centenário, Jornal Expresso, 2005

Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) passou a vida a experimentar, a conviver, a saborear a pilhéria, a observar tipos e costumes, a trabalhar aceleradamente em cima da hora para publicar no jornal da manhã seguinte, sempre frenético no seu traço espontâneo, meteu-se a fazer jornais, folhas volantes, a gozar da boa mesa, a fazer crescer diariamente a observação desse imenso laboratório humano, ele que tudo experimentou nas artes teatrais, no jornalismo, como empresário numa fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha.

Em março de 1880 surge a primeira edição do Álbum das Glórias, folhas avulsas, imagem a cores com legenda e texto de mordacidade apimentada, conheceu outras séries em 1885 e 1902, cada um dos desenhos tinha um texto ao lado, ficaram à responsabilidade de Guilherme de Azevedo e Ramalho de Ortigão. Estes desenhos tiveram o seu antecedente. Já em 1873 Rafael Bordalo Pinheiro fizera várias litografias com celebridades teatrais do tempo, os Rosa, Taborda, António Pedro, Delfina do Espírito Santo, Rosa Damasceno – bem entendido, perfis artísticos e despidos de caricatura. Fazer sátira através do desenho não foi originalidade, nem nacional nem estrangeira, o que há de verdadeiramente inovador é mesmo o génio artístico, não há ali nenhuma graça alarve, não se pretende evidenciar o chocarreiro, nunca há ofensa gratuita, nem crítica humilhante.

Desenho do rei D. Luís

E qual o contexto? Vejamos o que escreve João Paulo Cotrim na edição de 1905: “De B de Braamcamp a P de Pato, o Álbum das Glórias é um dicionário, incompleto e fragmentado, impreciso e livre, mas dicionário de personalidades que marcaram o que somos. O projeto era bastante mais abrangente do que os 42 ‘homens d’estado, poetas, jornalistas, dramaturgos, atores, políticos, pintores, médicos, industriais, tipos das salas, tipos das ruas, instituições, etc.’ que a posteridade conserva. A maioria são políticos, a abrir logo com os responsáveis do Partido Progressista e Partido Regenerador, neste caso um dos alvos preferidos, Fontes Pereira de Melo; seguem-se os escritores, ainda que muitos destes, como Gomes Leal, partilhem ambas as categorias. À semelhança, afinal, dos jornalistas. Vêm depois os cantores e as atrizes, sinais do tempo (…) Cada folha pode ser pendurada na parede da sala dos próprios. É a lógica burguesa do retrato, onde pouco se passa para além da pose. Quando muito, sugestão de um ato. A glória joga-se num gesto. É o detalhe, na figura ou no entorno, que sugere o sorriso. Algumas marcas tomam-se com simplicidade emblemas que acompanham e acompanharão a personagem: a transparência de Braamcamp, o cachecol do Duque de Ávila, a albarda do Zé Povinho. Eis um dos sinais do estilo de Rafael. Daí a básica composição, como simples são os fundos. Nenhuma distração, nada de exagero ou distorção, exceto na pequenez do general Macedo ou no tamanho disforme, correspondente ao nome, do infante D. Afonso. A relação com o texto é bastante mais profunda do que aquilo que se possa pensar e de tal modo orgânica que se imagina um sem o outro”.

Desenho de Rosa Araújo, o Cócó, presidente da Câmara Municipal de Lisboa

É uma injustiça olharmos estes incomparáveis desenhos sem ler em paralelo os textos elaborados por João Ribaixo e João Ripouco, os pseudónimos dos escritores que entraram no projeto de Rafael. Atenda-se a este trecho que acompanha o desenho desmesurado de Rosa Araújo:

“O povo de Lisboa, elevando pelo sufrágio à dignidade de primeiro dos representantes do município Rosa Araújo, por simpatia e gloriosa alcunha Cócó, filho de um conserveiro e conserveiro ele mesmo na Travessa de São Nicolau, deu por esse facto à civilização o exemplo de estima e respeito pelo trabalho honesto e humilde que mais honra faz à capital destes reinos, cuja população tão bem parece querer fingir de outras vezes, no seu fetichismo dos sangues dinásticos e dos sangues azuis, que não passa, em democracia, de uma pobre banazola servil e basbaque (…) Para bem presidir a uma assembleia de mandatários do povo é preciso não ter menos, mas também não ter mais, do que as condições seguintes: bom génio, boa fé e boa presença. Ora é precisamente o que ele tem. A sua figura responde pelas suas qualidades: é o primeiro obeso de Lisboa. Conta-se que um dia, tendo cedido um par de calças a um elefante que lhas pedira emprestadas com medo que lhe rebentasse a pele por ter comido muito, as calças dele serviram ao paquiderme. Nos faustos dias do seu aniversário natalício tem de juntar-se a vereação toda, de mãos dadas, para o abraçar pela cinta. Em casas de pouco pé direito ele dorme em pé, porque bate no teto deitando-se. Enquanto aos seus próprios pés este varão não faz ideia alguma do tamanho que eles têm, porque nunca na sua vida os viu!

A mais universal das cerâmicas de Rafael Bordalo Pinheiro

Terminando estas regras com a declaração formal e categórica de que nunca vimos melhor homem, obriga-nos o nosso estrito dever a declarar também, sob a nossa palavra de honra – que nunca o vimos mais gordo! João Ribaixo”.

Há tudo a ganhar em passear os olhos e depois deter a atenção merecida no que saiu das mãos deste desenhador que marcou uma época graças ao desenho eficaz, definitivamente acabado, cuidando da figura para se sair do desenho graças à neutralidade do fundo, subtil em todos os pormenores da composição, olhe-se para o desenho do rei D. Luís e como tudo sai realçado não pelos atavios da figura, mas pelo que ele desenha, os pormenores de um chapéu de chuva, de uma étagère, o próprio desenho das mãos. O resto ao leitor pertence, é só ver e adaptar o que lhe entra pelo televisor, nas redes sociais, no que se publica nos jornais. Rafael é nosso contemporâneo, louvor mais inextinguível lhe posso conceder?

Mário Beja Santos

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