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Leituras inextinguíveis (13): A era do vazio: reedição de um ensaio seminal de Gilles Lipovetsky

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

A primeira edição francesa da Era do Vazio data de 1983. Com a passagem das décadas, esta narrativa do filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky tornou-se numa obra de referência obrigatória. Estava-se então na transição do consumo semicolectivo e a sociedade organizava-se para o triunfo do individualismo. Falava-se abundantemente em Pós-Moderno, no narcisismo e na indiferença pura. Facto comprovado: já vivíamos numa sociedade Pós-Industrial, com preocupações ambientais, o indivíduo passara para o centro do mercado.

No posfácio de uma edição de 1993, Lipovetsky dava como ponto assente o movimento social de personalização, o culto de dinheiro paradoxalmente misturado com as preocupações em torno dos Direitos do Homem, a responsabilidade da empresa, os proibicionismos, a começar pela perseguição aos fumadores.

A Era do Vazio, Ensaios sobre o individualismo contemporâneo”, por Gilles Lipovetsky, com prefácio de Manuel Maria Carrilho, Edições 70, 2014, é obra de leitura obrigatória em qualquer ramo das ciências sociais e humanas. Para se entender o seu alcance, vale a pena retomar algumas teses do filósofo.

Até então, e como corolário da sociedade de consumo, o mundo moderno acreditava piamente no futuro, na ciência e na técnica. O concurso de várias circunstâncias introduzira uma mudança ainda de alcance imprevisível: a realização pessoal e imediata passara a ser a questão nuclear da década de 1980. Houve como que um desmoronamento da modernidade, a sociedade deu sinais de estar entregue à sedução, à frivolidade, ao narcisismo. O consumo pôs o indivíduo a tratar dos seus interesses e posicionou-o de modo nuclear, nessa função. Para ser bem-sucedido, o indivíduo vive rodeado de propostas de reconciliação, de uma publicidade e de uma moda cheias de humor, precisa de estar sempre euforizado, de dar importância à sua segurança e por isso mesmo acompanha o fenómeno da mitologia da insegurança. Lipovetsky diz mesmo que a sociedade atual vive em conflito aberto contra o estado mas numa luta sem classes. E afirma-se ainda mais polémico quando assevera que, ao contrário das revoltas libertárias dos anos 1960 e 1970, não há nenhuma direção que precisa nos conflitos sociais, mais ou menos violentos. Pós-modernidade e narcisismo afiguram-se como ilusão e desencanto. E comunicar por comunicar é a expressão mais brutal do vazio contemporâneo (daí viver-se sob a tirania do instante e da espetacularidade do quotidiano.

Sedução? É verdade, é o tempo da imagem de nós próprios, mas também das empresas, das operações de relações públicas e do divertimento mediático. É verdade que estávamos no início da explosão do vídeo e que tudo se exacerbou com o digital, que veio facilitar a personalização e o privado. A linguagem adocicou-se, como ele observa: “Os cábulas são crianças com problemas ou casos sociais, o aborto é uma interrupção voluntária da gravidez”. Os partidos políticos também seduzem. A par desta sedução, por mais paradoxal que pareça, temos a indiferença, a derrocada dos ideais, os grandes mestres já não estão no pedestal, o futuro já não entusiasma ninguém. O corpo ganhou novas valorizações. Lipovetsky avalia o fim da modernidade e os desconcertos da Pós-modernidade, disseca os tiques desta sociedade humorística onde se trivializaram as mais diversas formas de grosseria, de rebaixamentos brutescos e de arremedos paródicos. Estuda a moda como código humorístico, como passa em revista as manifestações de violência para sublinhar o vazio do nosso tempo, vazio social, revolta pura da desocupação, do desemprego. E, paradoxalmente, reativou-se o moralismo puritano. Ao escrever esta obra, Lipovetsky preparou o caminho para outros ensaios hoje de grande importância e que tem a ver com a cultura mercantil graças às tecnologias da informação e às indústrias culturais. O que é pertinente registar é que em “A Era do Vazio” ficaram delineados os grandes tópicos sobre a lógica individualista em que continuamos mergulhados neste nosso Estado social Pós-Moderno, como ele observa: “Já nenhum projeto coletivo e histórico – ainda que da Europa se trate – parece capaz de mobilizar os seres em profundidade. Em lugar e em vez dos ideais históricos, temos agora a preocupação com a formação e os diplomas, a busca de responsabilidade profissional e de realização pessoal, a exigência de um ambiente limpo. “A Era do Vazio” é uma previsão brilhante da revolução individualista que se encetou no mundo ocidental em finais dos anos 1970 e que continua sem dar sinais de arredar pé.

Beja Santos

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