Memórias do comércio perdido da histórica vila de Constância

Em Correio dos Leitores

Lembram-se? Dos cartuchos? Do papel pardo (desperdício da velha reciclagem)? Eram usados nas mercearias da vila de Constância e um pouco por todo o lado.  Na vila,  podiam ser encontrados  no «João Costa», na «Mari Lopes», na «Marineta», no «Zé Rebimbas»,  no Sr Raimundo, na Drogaria do Sr Aurélio e, depois de usados, fazíamos “gatos” na escola com eles, consumidas as especiarias  que os mesmos acondicionavam.

Antiga mercearia do século XVIII, cujos armários de parede foram destruídos recentemente aquando das obras de reconstrução, apesar dos meis sucessivos apelos na net. Desejo que o projecto, contudo, tenha o maior sucesso.

Nas compras,  gostava de sentir o cheiro do colorau, da pimenta, da canela,  da erva doce, eu sei lá.   Era uma verdadeira miscelânea dos sabores que emanava dos armários da Mari Lopes, ali,  a meio da Rua de São Pedro, junto à casa do O’ Neill. Eu gostava das texturas e adorava «sentir o som» do papel vegetal com que se embrulhava a marmelada. Açúcar ao peso, era ao peso. Agora… já não há  aromas. Vem tudo embalado, selado, cerrado, escondido, aprazado e legalizado. Pronto!  Estamos integrados na União. E o sabão? Aquelas barras imensas azuis e cor-de-rosa que eram cortadas na lâmina, na medida que se pedia e queria.

«Quem está a seguir, por favor?!», apelava a minha prima Lurdes, funcionária exemplar da loja do «João Costa» (lá em casa assim se continuava a chamar a loja do primo. O pai dele,  foi um dia ao Coliseu ver a revista «O fim do Mundo» e… morreu de ataque cardíaco, não sei bem se em 1934). Os clientes eram tratados com gentileza, com fineza, em todas as lojas do burgo.  Sempre. Sim!, a vila era habitada na maioria das casas. Vivia-se a «Primavera marcelista» e depois. despontava a Revolução.  Essa foi a minha infância.  Uma infância em que o meu pai andava na guerra além mar. Mas o açúcar – as crianças adoram açúcar – era mascavado e amarelo.   

As sombrinhas da Dona Beatriz, ali dependuradas na montra verde da papelaria. Os armários de parede da Mari Lopes, aqueles armários com gaveta aberta e folgada em baixo,  eram um mimo. Aquele sobrado, um espelho. O atendimento, esmerado. Até o timbre da voz da Mari Lopes era o adequado para a função (a voz é o retrato da pessoa, da sua alma) Era assim na vila. Descia-se o Arco e, lá em baixo, quase defronte da antiga mercearia do século XVIII , entrava-se na loja do «Zé Rebimdas e da mulher a Dona Mariana. O trato antigo  que dispensavam e a conta no papel pardo com a prova dos nove, o «deve e haver» cheio de páginas… esse ambiente, essa «película do tempo parado».

Antiga Loja «Manoel dos Santos Costa», do tio da minha avó Flora da Luz.  As pedras seculares partiram numa camioneta. Desejo que regressem e que o projecto tenha o maior sucesso, enquanto requalificação inevitável da baixa da vila, zona de protecção histórica.

Anteriormente havia ali, paredes meias, a loja do Zé Baptista e da mulher, a Dona Elisa, dos célebres queijinhos do céu. Mais tarde foi pronto-a-vestir. Ah! E havia a fabrica das camisas. E a Dona Teresa do «Cação»? Onde mais tarde morou o escritor Baptista Bastos, pegado com a casa onde no despontar do século tinha nascido o grande Poeta Tomaz Vieira da Cruz – olvidado localmente pela estupidez e ignorância dos homens e da inveja que sempre acompanhou os patrícios de toda a terra. Maldito pecado de Caim. O bacalhau do Natal da Dona Teresa era uma obrigação. Que maravilha!« Embrulhado à antiga».  «Vai lá à Marineta!» (a Maria Neto tinha sido a sogra da Dona Teresa,  com loja no Olival, e o nome ficou na memória dos locais).

Natal! O presépio da Dona Teresa, minha primeira catequista, era um primor. As suas figuras de barro faziam o encanto das crianças que por lá passavam várias vezes ao dia.  Os caminhos eram feitos com farinha (lá em casa também era assim).  A cabana do Menino Jesus, um encanto. No «Santos Costa» («Vai lá abaixo ao João Costa!» dizia a minha mãe), era um mundo de gente de todo o lado.  Ia lá também ao petróleo, num piso inferior (o meu primo João Costa, filho do fundador, Manoel, tinha sido o empresário das antigas bombas onde havia um depósito de água que a minha avó Flora (sobrinha do fundador da grande empresa) enchia com cântaros, num eterno e pesado labor, mal pago. Ficou essa memória para herança.

Na loja, passava pelo escritório dos meus primos Galiano e Angelina, onde se faziam as “letras” e todos os contratos da grande indústria secular das redes de pesca. Vinha gente do Minho encomendar as alvitanas, as narsas, os tresmalhos, Também fiz muitas alvitanas em criança. Aquele escritório… ficou-me gravado o  «som do seu silêncio». 

Os meus primos… falava um de cada vez.  Com uma fluência e cadência coordenadas.  Recebiam-nos (a minha e à minha mãe). Primeiro tocávamos uma campainha  no rés-de-chão e a ordem era logo para subir. A loja era um verdadeiro «centro de comércio». A mercearia, as roupas do pronto-a-vestir, o armeiro (vinha gente de todo o país comprar armas), a secção baixa das loiças, quanta oferta no «Santos Costa» – o «João Costa» -, passo o quase pleonasmo. Até a velha cadeia onde metiam os caixões.

E quando a cheia ameaçava a loja, os seus funcionários accionavam um plano de emergência caseiro, habituados àquela rotina.  Há registos das cheias desde pelo menos o tempo de Camões.  É ver a «Miscelânia».  Camões teria estado preso na Torre, da Ordem, rodeado de água, esse cenário é potencial! Alguns investigadores do século XIX não viram o filme todo…  

À indústria das redes aderiu a  Drogaria (mercearia, drogaria, papelaria). A vila oferecia um   quadro pitoresco aos visitantes, desde a Olaria ao Olival.  Era ver as mulheres da vila sentadas à soleira da porta.  No Olival, a Dona Olívia ensinou gerações, diziam-me.  Ainda  vi durante vários anos,  as artesãs Zulmira, a Jaquina da Ana Bogas, a Maria Morais, a mulher do «Cacilhas», a Isabel da condução,  a Luci Barreiro, a minha mãe, a Dona Adelaide do «Santos» taxista, a Mari Lena, a Manuela do Alfredo, tanta gente nessa indústria.  Falava-se que o mestre das redes tinha sido o «Tonho Casca» que foi e veio da Grande Guerra . O nylon (dantes era algodão)  cortava-nos os dedos, pois os nós das malhas tinham de ser firmes. Quanto maior a malha, maior a dor produzida, dada a frequência  dos movimentos  dos dedos.  Recordo-me de um dia ter feito carreiras para uma cabeça de 750 malhas.   Ainda tenho as agulhas e as palhetas da malhas. Normalmente  as alvitanas eram de 12 vinténs, 250 malhas e doze carreiras. Aos pares e  entrançadas. Voltando à loja… as enormes peças de fazenda,  as montras.

A vila do meu tempo de criança e de juventude.  Constância era assim!  Vista Por Dentro! As tabernas, da Conceição Coimbra, do meu primo Mário Barbisco, da Mari Dona – o cheiro do peixe e das favas fritas era um chamaril na praça.  A barraca do Cuchinho, de canas, junto ao Tejo. A praça, de semana. E ao Domingo? Cheia de gente.  Levantava-me cedíssimo  pois às sete de matina  os suspiros e as ferraduras já quase se esgotavam. E os vendedores ambulantes? Vinham de Martinchel, das Limeiras, de Montalvo, das Amoreiras, eu sei lá.

Antiga mercearia do Isidoro Burguete nos anos 20 ou 30 do século XX, cujo edifício perdeu recentemente a sua trapeira típica e bem assim, perdeu um  fresco do pintor Joaquim Santos agraciado por dois chefes de Estado. Tudo no centro histórico protegido por lei. 

A nossa vila era tão diferente. Está pior! Ah! E havia a loja do primo Raimundo com os amendoins e o aniz. Havia comércio. A loja do João Pereira , que montava as antenas e vendia televisões. O saudoso Ercílio que tudo resolvia. A Dona Elvira, com a sua paciência para dar conta de tanta variedade de produtos. O Talho da Salcheiro na praça, o do Manel do Café,  o do casal dos porcos construído junto às ruínas da antiga praça de toiros de que há registo escrito no século XIX.   E o restaurante da Arroçada – A padaria da dona Luísa. Ah! A padeira ambulante que vinha duas vezes por semana do Alentejo.  O pão, de quatro canto, vinha quentinho.  Que delícia logo que  barrado da geleia, ou do doce de tomate, ou do doce de pedaços de marmelo. Tudo acompanhado com uma grande caneca de café.  Bem composto no estômago lá voltava às minhas recolhas das antigas tradições, de porta a porta.

Guardo zelosamente esses cadernos. O café da Ponte, perto da antiga «taberna» das velhas Burguetes, tias das velhas Burguetes que conheci,, o café do bairro dos bailes tradicionais onde a minha família foi ver a ida do homem à lua (bebé incluído). O café «Estrela» na praça que nos anos 20 e 30 era a mercearia do Isidoro Burguete, pai do escritor Meira Burguete autor do «Caso de Rio Maior», da família do escritor  Elviro da Rocha Gomes.

O Clube Estrela Verde, tão concorrido à noite para as cartas, para o orfeão, para o teatro, para a biblioteca, para o ping pong, para o bilhar, para a sala da televisão, para o bar. A Casa da Sopa, com as aulas de música do padre João, com o pingo pong (onde havia antigamente a  Associação de São José. As lojas do Salgueiro, com muitas novidades.  As barbearias do «Cação» e do Lino. E a Nanda cabeleileira. A Mimi cabeleileira. A dona Beatriz Gouveia cabeleileira..

As vendedoras de ovos., de galinhas e de coelhos. A Mari do Peixe do Cagaréu, gente muito honesta, trabalhadora e humilde. A taberna da Ti Cesaltina, onde ia ao carvão. A Júlia do Sapateiro que tinha também pronto-a-vestir.

A oficina dos mecânicos na João Chagas onde o Elias tinha em tempos o armazém, ao lado do velho e desaparecido «Sport Club Strêla Verde». O fotográfo na Luís de Camões defronte da antiga câmara.   Na farmácia, o Godinho (que não passava sem a sua aguardente purificadora) e o sr Henrique da farmácia, irmão do poeta Tomaz. O relojoeiro Ramos. A oficina do Zé David que em tempos recuados teria sido um celeito. E os antigos celeiros do Dr Godinho. Os tendeiros.

A venda de arraiolos, particular. Paz à alma da Dona Etelvina, a grande mestre na vila dessa arte difícil só para alguns, do ponto dois e três. As mulheres que faziam colchas de renda e não só. Saudades da vila de Constância. de uma vila feita de famílias conhecidas e de parentes. Saudades de gente que se respeitava.

Saudades das idas à quinta de Santa Bárbara ao lagar, na minha bicicleta,  apeado, pelos antigos caminhos, transportando no velocípede  as saca sde azeitonas.

Na quinta, havia venda farta de fruta variada, a saber,  ameixas, pêros (não são maçãs), e outras maravilhas. Saudades da apanha da azeitona. De ver lavar no «rio». De ver vender o peixe à porta, de ver vender os queijos que, depois se secavam e punham «de azeite». 

Saudades de ouvir esses quase pregões: «Teeenho fataaaça!», «Teeenho «boooga». Saudades de ver esses fogareiros pela vila a ser acesos para a grelha do peixe. Saudades das noites de convívio no Clube, no cine-teatro histórico (que substituíram pelo mamarracho inútil). Saudades dos ensaios permanentes, do rancho, do teatro, do orfeão eu sei lá, Saudades da Constância que perdemos!  Saudades de tantas marchas populares.

Memória de ouvir falar da carvoaria defronte da Casa da Dona Adelaide Sommer, da loja da Nazaré nas escadas da São Pedro, do forno da Paralva, na Rua de São Pedro confinada com o Avelar Machado, das duas casas comerciais da Etelvina Gil, na praça, da taberna do primo Eduardo e do Talho do Leitão de Abrantes, da loja da Sara, da Pensão da Rebolas (Pensão Central), da Pensão da Jaquina Ferreira, pensão Ribatejo, (a sobrinha que me disse que levava as refeições à cabeça para a base, para os militares.) Memória ainda de tantas e memórias sem fim…

José Luz

(Constância)

PS – não uso o dito AOLP. este texto é telegráfico. Assim deve ser lido…

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