Santarém, a razão da existência ou a existência da razão?

Em Opinião

Para o povo Pitjantjara “eles não são os donos da terra, a terra é que os possui (…) para esses velhos Aṉangu[i], o conceito de posse da terra é de longe mais impossível do que para nós ser dono de uma estrela ou de uma parcela de ar.[ii] 

Podereis considerar este conceito anacrónico ou errado, mas foi esta conceção da natureza e da terra que salvou a vida deste povo aborígene. Salvou as fontes de água que escorrem da montanha sagrada Urulu da privatização, as áreas cultiváveis da ganância dos poderosos agrários, as áreas de minério da exploração destruidora da multinacional Rio-Tinto com a consequente expulsão das comunidades e salvou a destruição da montanha pelo turismo superintensivo.

Este conceito dos Pitjantjara não é compreendido pela “moderna” civilização ocidental, europeia, escalabitana, “superior”… Por cá é normal poluir as águas do Alviela, do rio Maior, do Almonda, do Tejo… É normal empestar o ar e dificultar a respiração das pessoas da Póvoa da Isenta, de Pernes, de Vaqueiros… Há, até, quem argumente que está tudo legal… Até é normal fazer do espaço comum uma lixeira e do lixo um negócio pago na fatura da água!

Para o povo aborígene, a natureza, a terra é “a lei, a ética, a razão da existência[iii]. Mas os aborígenes não sabem nada de suiniculturas, nem que agricultura química intensiva, nem fábricas de curtumes poluentes (…) enfim de “desenvolvimento económico”!

Imaginem se o povo aborígene do deserto da Austrália soubesse de ética? Aqui é que sabemos bem de ética! Aqui sabemos isso tudo, dizem que até o Presidente do Tribunal Constitucional sabe imenso de ética… Dizem, que eu não sou de intrigas…

Eis-nos chegados à razão da existência.

A existência de uma empresa destruidora da natureza encontra no lucro e na exploração do trabalho a sua razão. Já a razão humana só pode encontrar na natureza a condição da sua existência e do trabalho a sua sobrevivência. Existe uma contradição: a empresa destruidora suporta-se no poder, local e nacional, na sua lei; a população e os trabalhadores encontram a sua “lei” nos seus direitos de existência e sobrevivência!

Há uma razão a escolher por quem cá vive!

Vítor Franco

(Deputado municipal pelo Bloco de Esquerda)


[i] Palavra acrescentada por mim ao texto original. Ver definição de Aṉangu aqui.

[ii] Davidson, Robyn (1999), Trilhos, no deserto australiano, Lisboa. Quetzal

[iii] idem

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