Leituras inextinguíveis (15): Procurar entender esta sociedade de relações descartáveis

Em Ribatejo Cool

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Estamos cada vez mais dependentes dos telemóveis e dos computadores. Toda a nossa comunicação passou a depender de contatos estritamente ligados às plataformas digitais. Não é possível estudar esta enigmática fragilidade dos vínculos humanos sem atender aos aspetos fulcrais do que se alterou no relacionamento humano, do trabalho ao amor, da participação em causas e ao puro convívio.

Zygmunt Bauman

Um dos maiores sociólogos do século XX, Zygmunt Bauman (1925-2017) procurou aprofundar os porquês da fragilidade dos laços humanos e deu-nos uma obra de leitura obrigatória para nos entendermos nesta era de velocidade e aceleração, pautada pela cultura da urgência e de relações descartáveis, Amor Líquido, Relógio D’Água Editores, 2006. O sociólogo justifica assim o seu trabalho: “O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Os seus personagens centrais são homens e mulheres, os nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam conter no momento de aflição, desesperados por se relacionarem”. Muitos estudos sobre a sociedade contemporânea dão conta desse processo inexorável que é a ascensão do individualismo; este define o homem do nosso tempo, ambivalente, cioso pelo seu sucesso, propenso a relações virtuais, pouco dado a relacionamentos antiquados, como aqueles que definiam a família extensa, o espírito de grupo, a grande equipa empresarial, etc.

Vivemos nesta modernidade líquida que atinge toda a vida afetiva, a sociabilidade, a relação com o Outro, os ancestrais esquemas associativos. Daí Bauman procedera a uma análise do amor e da paixão e das respetivas substituições afetivas. O chamado amor para sempre está definitivamente fora de moda. Ao longo da história da civilização e da cultura houve uma evolução do termo amar, significava abrir-se ao destino, à mais sublime de todas as condições humanas, medo pela intensidade da descoberta, regozijo pela potencialidade da fusão. Abrir-se ao destino significou admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. A sociedade de consumo alterou o padrão multisecular, favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, como se houvesse direito a apresentar queixa por se descobrir deficiência no produto e querer a devolução do dinheiro… O desafio, a atração e a sucessão do Outro tornam toda a distância insuportavelmente grande. E na sociedade de consumo o amor é um contrato com um conjunto de garantias aleatórias. Assim se procura cortar caminho a percursos que eram dados como aceitáveis, como o sociólogo observa: “Amar significa estar ao serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem, renúncia, sacrifício. Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação do seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e realiza-se na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor autoperpetua-se”.

Acresce que este amor líquido é o oposto à aceitação de que o amor germina, cresce e amadurece, o que exige tempo, e este tempo necessário é causticante na era da velocidade e da aceleração. E Zygmunt Bauman completa o raciocínio: “Para nós, os habitantes deste líquido mundo moderno que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo o que não se ajusta ao uso instantâneo nem permite que se ponha fim ao esforço, tal perspetiva supera toda a capacidade e vontade de negociação. Estabelecer um vínculo de afinidade proclama a intenção de tornar esse vínculo semelhante ao parentesco – mas também a disposição de pagar o preço do avatar na moeda corrente da labuta diária e enfadonha. Quando não há disposição, fica-se inclinado a pensar duas vezes antes de agir para concretizar a intenção”.

O mundo laboral convergiu para potenciar esta modernidade líquida, com os seus contratos zero, os vínculos precários, tudo a curto prazo. A caixa de ferramentas da sociabilidade deixou de ser o que era: na divisão do trabalho e na distribuição dos papéis familiares; esta é uma época em que um filho é acima de tudo um objeto de consumo emocional, como o sociólogo observa: “Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. Em termos puramente monetários, os filhos custam mais do que o carro luxuoso do ano, uma volta ao mundo num cruzeiro ou até mesmo uma mansão”. E, mais adiante: “Ter filhos pode significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, de sacrificar uma carreira, já que os encarregados de avaliar o nosso desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de lealdade dividida. O que é mais doloroso é que ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por tempo indefinido. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática”.

Há uma forte analogia entre a modernidade líquida e a sociedade de consumo. Os consumidores têm uma racionalidade líquida, de conveniência, de menor custo na satisfação imediata. O que carateriza o consumismo, escreve Bauman, não é acumular bens (quem o faz deve também estar preparado para suportar malas pesadas e casas atulhadas), mas usá-los e descartá-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos. A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. Aqueles que não precisam de se agarrar aos bens por muito tempo, e decerto não por tempo suficiente para permitir que o tédio se instale, são os bem-sucedidos”.

E o paradigma digital faz com que os telemóveis favoreçam as pessoas em movimento, toda a relação gira à volta da comunicação de telemóvel, saber se o filho já lanchou, se a mão tomou os comprimidos, recordar ao marido o pagamento da fatura, marcar consultas, aproveitar a viagem de comboio para ouvir um desabafo de uma amiga amargurada. E o sociólogo observa: “Os telemóveis assinalam, material e simbolicamente, a derradeira libertação em relação ao lugar. Os viajantes podem eliminar dos seus cálculos de perdas e ganhos as diferenças entre partir e ficar, distância e proximidade, civilização e isolamento”. A variedade virtual tornou-se a realidade, gerou novos estilos de comunicação, permite a perversidade de acompanhar os movimentos do marido ou do empregado.

As grandes operações de solidariedade já não estão confinadas a organizações não-governamentais, para terem sucesso precisam das plataformas digitais e do televisor, precisamos de imagens e de apelos já que é imensa a dificuldade de amar o próximo. O universo televisivo percebeu muito cedo que precisava de seduzir os telespetadores fazendo concorrência com os tabloides, pôr as pessoas a ouvir confissões, a desabafar a sua intimidade, e daí a euforia dos reality shows, o reverso da medalha de que a vida é um jogo duro para pessoas duras, como aliás pontifica o mercado de trabalho onde se diz que ninguém é indispensável só tem direito apenas a alguma contribuição pelo que faz a prazo numa empresa. Nada de compromissos para toda a vida, nada de promessas de amor para sempre ou até que a morte nos separe, o que interessa é andar à procura do cool, um híbrido entre a satisfação e o que nos apraz. No mundo dos afetos, investir fortes sentimentos na parceria e fazer um voto de fidelidade significava interatuar com o parceiro, agora quer-se leveza, o amor é bom enquanto dura. E não é por acaso que as cidades se tornaram campos de batalha em que os poderes globais e as entidades locais se chocam, planeia-se para que a cidade seja cada vez mais atrativa, digna do bilhete-postal, e é uma luta constante com a identidade local que não prescinde dos seus rituais, usos e costumes, nem quer ver o seu convívio destruído. Um confronto permanente entre a mobilidade e as suas panorâmicas grandiosas e o permanente da identidade local, que resiste.

De leitura obrigatória, para entender a misteriosa fragilidade dos laços humanos, esta contraditória necessidade de criar laços e de os manter flexíveis – sinal do nosso tempo.

Mário Beja Santos

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