Detenção de “rapper” provoca onda de protestos violentos em Espanha

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A Espanha viveu ontem a terceira noite consecutiva de protestos, que nalgumas localidades se convertem em distúrbios, em reação à prisão do “rapper” catalão Pablo Hasél condenado por “injuriar a monarquia”.

Os protestos violentos estão a concentrar-se em Barcelona, capital da região da Catalunha (nordeste de Espanha), onde grupos de manifestantes queimaram caixotes do lixo e atiraram pedras, garrafas e fogo de artifício contra a polícia regional, os Mossos d’Esquadra.

Em Valência, na Comunidade Valenciana, ao lado, a polícia também já fez diversas cargas para dispersar manifestações que começam por ser pacíficas e em seguida tornam-se violentas com cenas de luta de rua e algumas pessoas feridas, havendo já vários detidos e pelo menos um ferido.

Segundo fontes da polícia, já há pelo menos oito detidos na sequência dos distúrbios desta noite em pleno centro de Valência.

Os protestos têm sido convocados nas redes sociais por grupos pró-independência, como na passada terça-feira, e com palavras de ordem como “Estem fartes” (Estamos fartos).

Durante os distúrbios ocorridos na terça-feira à noite na Catalunha, os Mossos d’Esquadra e a polícia local prenderam cerca de cinquenta pessoas e dispararam cerca de 420 projéteis de borracha, um dos quais alegadamente fez com que um manifestante perdesse um olho.

Mais de 50 dos manifestantes foram presos na noite de quarta para quinta-feira durante os confrontos muito violentos entre manifestantes e a polícia e cerca de 70 pessoas foram feridas, metade das quais eram agentes da polícia.

A prisão do ‘rapper’ – que acumula outras sentenças, uma delas de dois anos que foi suspensa em 2019 – desencadeou a onda de protesto.

Canção de Pablo Hasél “Ni Filipe VI” critica regime monárquico e a repressão das forças da ordem

Pablo Hasél tornou-se um símbolo da liberdade de expressão , depois de ter sido condenado por ‘tweets’ em que insultava as forças de ordem espanholas e atacava a monarquia.

A sua situação legal está a ter uma considerável atenção pública porque acontece no seguimento de uma série de outros artistas e personalidades dos meios de comunicação social que foram levados a julgamento por violarem a Lei de Segurança Pública espanhola de 2015, que foi promulgada pelo Governo anterior do Partido Popular (direita) e criticado por organizações de direitos humanos.

Música do rapper “Nuestras Libertades” denúncia a corrupção da nobreza espanhola e a repressão das liberdades pelo regime

Joan Manuel Serrat, Pedro Almodóvar e Javier Bardem encabeçam a lista de subscritores a denunciar que o Estado espanhol é o país que mais artistas persegue pelo conteúdo das suas canções.

“Agora, com a prisão de Pablo Hasél, o Estado espanhol está a equiparar-se a países como a Turquia ou Marrocos, que também contam com vários artistas presos por denunciarem os abusos cometidos pelo Estado”, denunciam os artistas.

O atual executivo de coligação de esquerda de Espanha quer alterar o código penal do país para eliminar as penas de prisão por ofensas envolvendo a liberdade de expressão, especialmente quando se trata da forma de expressão artística.

Entretanto, o Unidas Podemos (extrema-esquerda), coligado ao Partido Socialista (PSOE) que lidera o atual Governo, afirmou que vai trabalhar para conceder um indulto a Hasel.

 O artista Roc Blackblock pintou no domingo um mural de apoio a Pablo Hasél com a imagem do rei emérito espanhol, atualmente fugido do país e alvo de acusações de fuga ao fisco e desvio de fundos, e os serviços camarários apagaram o mural horas depois

Mas os incidentes também levaram a uma tempestade política, com a oposição de direita a condenar o Unidas Podemos por não condenar de forma inequívoca a violência de rua.

A vice-presidente do executivo Carmen Calvo, membro do PSOE, criticou hoje o líder da bancada do Unidas Podemos no parlamento, Pablo Echenique, por este mostrar o seu apoio aos “manifestantes antifascistas que lutam pela liberdade de expressão”.

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