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Guerras sociais – De Marcelino da Mata a Mamadou Ba

Em Opinião

No passado dia 11 de fevereiro, como é consabido, faleceu o tenente-coronel Marcelino da Mata, um dos combatentes da Guerra Colonial que mais condecorações recebeu por serviços prestados à Pátria. Logo após o disseminar da notícia, surgiu uma miríade de tropas-fandangas, infelizmente conotadas com mundividências e agremiações políticas de direita e de esquerda, que se quiseram aproveitar do triste acontecimento para deificar ou demonizar este ser humano que, como tantos outros, perdeu a batalha contra o negregado vírus que nos oprime há um ano.

Na praça ruidosa, soerguidas nos ombros da comunicação social e das redes sociais, destacaram-se as vozes de Mamadou Ba (o inquisidor) e de Nulo Melo (o hagiógrafo), que, na verdade, sob patines de colorações bastante divergentes, são frutos amargos com similar caroço.

Não se põe em crise que existem múltiplas perspectivas sobre a Guerra Colonial, assim como variegados entendimentos acerca da figura inultrapassável, para o bem e para o mal, que foi Marcelino da Mata; e não se nega que estes assuntos, se sairmos de determinados sectores académicos, se tornam em discussões acaloradas, sem chão comum (nem nos factos há concordância), e incapazes de resultar em concreta aprendizagem.

Talvez seja culpa de, felizmente, muitos dos participantes na estropiante Guerra Colonial ainda estarem vivos, o que impede o distanciamento necessário à reflexão, ou quiçá se deva à inabilidade portuguesa de debater a nossa história, distante e recente, sem a retratar como um inferno maníaco, ao estilo de  um quadro de Bruegel, o Velho, ou sem a caracterizar como um paraíso luso-tropical, visão hegemónica e que não admite a possibilidade dos nossos egrégios heróis, noutros pontos do mapa-mundo, poderem ser apelidados de vilões torcionários.

Voltando a Marcelino da Mata e à Guerra Colonial, desagrada-me que não se olhe para o específico enquadramento espácio-temporal sem compreender que, num contexto bélico como aquele – e do qual não sabemos a missa a metade –, não é possível, em todas as circunstâncias, manter linhas claras e distintas sobre o que é bravura e dedicação a uma causa e o que configura crime de guerra (até o domínio do Deus Marte está sujeito a regras).

É indisputável que Marcelino da Mata praticou actos de valentia com enorme relevância para os nossos esforços militares. Quanto aos seus desmandos, apenas encontro rumores e referências sem grande credibilidade, mas, por tudo o que acima escrevi, não acredito que não haja um pingo de veracidade no que nos chega ao conhecimento.

Daí a nos permitirmos posturas ligeiras e atoleimadas, ingressando, sem uma mónada de cautela, nas fileiras em oposição e a favor do fenecido tenente-coronel, parece-me uma atitude temerária típica de quem quer andar à pancada, porque gosta do confronto ou por condicionamento clássico, abusando do seu direito à indignação.

Outro exemplo de apoucamento colectivo motivado por estas pós-modernas guerras sociais foi o abastardar do direito de petição para exigir a deportação ilegal de um português, mesmo que não o seja de nascença; ou seja, sentencia-se um idiota ao ostracismo por delito de opinião! Sim, Mamadou Ba é um idiota provocador e ofendeu gratuitamente quem já não se consegue defender, no entanto, a estupidez verbal está longe de justificar exílios.

No fim, chega-se à conclusão de que o respeito por valores universais e o sentido de vergonha se diluem em frente a um ecrã de computador. Vivemos numa era de tribos virtuais e difusas cujos levianíssimos factores identitários fomentam o apego à batalha estéril, transformando a expressão “politicamente correcto” numa marca suja aposta a tudo aquilo que, por discordarmos, avidamente queremos odiar.

Vivemos, portanto, numa era deprimente!

João Salvador Fernandes

PS: Os meus sinceros pêsames à família e aos amigos de Marcelino da Mata.

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