Ecos e registos da Cadeira de São Pedro na vila de Constância

Em Correio dos Leitores

O dia 22 de Fevereiro é um dia muito importante para a Igreja Católica.
Neste dia  celebra-se a festa solene da Cadeira de São Pedro. É de tal modo importante esta festa que se “interrompe” a Quaresma para cantar Aleluias e o próprio Glória.
Parece que a festa já era celebrada em Roma no século IV. Para significar a unidade da Igreja, fundada sobre o Príncipe dos Apóstolos.

Como saberão a sede do Bispo de Roma é a Arquibasílica de São João de Latrão e não a Basílica de São Pedro.

São Pedro. Pormenor da tela de Pedro Alexandrino, da Última Ceia (capela do Santíssimo).

A Igreja Matriz de Constância foi unida à  igreja do Papa (São João de Latrão) mesmo antes da paróquia para aqui ter sido transferida em 1822 na sequência da ruína e do incêndio de má memória provocado pelos “malditos franceses”.

Os registos da Confraria dos Mártires, da então Comarca de Tomar, esconderão vasta informação sobre os acontecimentos da época… Não será por acaso que o altar de São Pedro na actual matriz possui no seu tecto as insígnias dessa Cátedra? É muito provável.

Havia na vila uma lenda não sem fundamento que rezava mais ou menos assim: que a igreja de Constância esteve para ser a Cabeça Primaz. Creio que tal anedota se deverá (?) às Bulas papais? Certo é que em 1830 já se dizia algo parecido sobre a Igreja de Santa Maria do Zêzere,  fundada no local onde se encontra o cemitério da Praia. Disso sabemos pela pena do Padre Veríssimo o qual – e bem – graceja com a anedota. Mas nestas coisas há sempre algum fundamento, seja ele qual for.

Em Constância havia a Irmandade de São Pedro Advincula já no século XVII. Que teve sede na Ermida de Santana. O cronista Joaquim Coimbra que muito me ensinou, encontrou esses registos quando em novo estudou os arquivos da matriz mais o então seminarista José Maria Rodrigues d’Oliveira, o nosso saudoso Cônego capitular.

A antiga capela de São Pedro estava unida à paroquial segundo consta do arquivo da nossa matriz e do sumário  da documentação paroquial dos registos da torre do tombo.

Para aqui trasladaram o Santíssimo, por exemplo, aquando duma cheia, salvo erros l, em 1712.Só resta a torre actualmente desta antiga capela que deu o nome à rua.. E temos a imagem antiga de São Pedro Ad Vincula, na sacristia da matriz.

Foto do altar de São Pedro, na matriz de Constância, com as insígnias do Vaticano, símbolo da Autoridade papal, da Cadeira de São Pedro.

As colunas de pedra da antiga capela, compradas pelo Tenente Soares, antigo presidente da câmara que veio aqui pela primeira vez em prospecções de barco, no início do século XX ( falámos sobre o assunto), infelizmente,  já não existem. Só temos uma foto de uma. Estiveram a segurar uma videira enquanto puderam e as deixaram…
Na capela do Santíssimo existe um pormenor de São Pedro pintado por Pedro Alexandrino, na Última Ceia. 
A rua de São Pedro é um excelente exemplo toponímico que retrata bem a cultura religiosa da vila de Constância, as suas raízes. Alguns no poder mudaram o nome da rua para “Machado Santos”. Este homem pertenceu à carbonária a qual era anticlerical e tinha um núcleo na vila que tentou dinamitar a ponte sobre o Tejo em Constância. Chegaram a levar uma carroça para o Entroncamento com esse fim. O intento era matar as tropas realistas que se soube iriam fazer a passagem do Tejo
Mudar o nome da “Rua de São Pedro” para o nome de um elemento de uma organização terrorista só podia ser obra de republicanos fanáticos como aqueles que andaram então aos tiros à torre da matriz, fazendo apostas. Deste triste episódio nos deu conta um antigo cultor das nossas memórias locais, no caso Ruy Dias Ferreira, no jornal Abarca, nos anos 90 o jornal que tive a honra de fundar com o saudoso camarada Silvino Nunes.

A Cadeira de São Pedro , símbolo da autoridade papal,  está assim bem presente na vila de Constância, na sua matriz, desde pelo menos o século XVII , a fazer fé nas Bulas papais que estão aí para o comprovar. A fama dos Milagres – A Senhora dos Milagres, A Senhora dos Mártires-  era tal que aqui trouxe reis e rainhas ( sobre o assunto já o escrevi) e, é claro, levou à emissão de indulgências papais. O rei Dom Sebastião que por cá teve a corte várias vezes no palácio (antigo castelo templário onde uma das tradições coloca Camões como prisioneiro), erigiu a  própria Confraria  em 1566 como se vê pela cópia do século XIX dos seus estatutos.

Permitam-me algum enquadramento sobre o significado para um católico desta questão da Cadeira de Pedro.
A autoridade de Pedro?

Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.” – São Mateus.

Os apóstolos escolhem sucessores com a mesma autoridade de ligar e desligar (Actos dos Apóstolos, 1, 15-26); A transmissão da autoridade apostólica (cf. 2 Tm 1,6; Tt 1,5).

A ordenação de presbíteros (2 Timóteo, 1-7).
A autoridade da Igreja Católica apostólica vem de Jesus, O Filho de Deus:“… Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; baptizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”(Mt 28:18-19).
O depósito da fé,  através do Espírito Santo: 2 Timóteo, 1, 14.
O Governo da Igreja: “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16).


José Luz

(Constância)


PS- não uso o dito AOLP

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