Percorrer o Ribatejo, de Constância ao Sardoal sem esquecer a família Relvas

Em Ribatejo Cool

Olhar Portugal, Viagens e Paisagens, de Fernando-António de Almeida, Círculo de Leitores, 2015, é uma longa e preciosa peregrinação de um andarilho com créditos firmados com um conjunto de obras que falam de percursos e passeios de fim de semana, roteiros e caminhos de Portugal, a este andarilho não escapa um olhar peculiar sobre o património histórico construído, o património paisagístico, dá-se bem com a cidade e com o campo e sabe perfeitamente  que nenhum olhar se esgota, de Minho aos Açores, parafraseando José Saramago, o que se vê na primavera não é o que se vê no outono, o que se vê em dia ensolarado não é o que se vê com o céu plúmbeo.

Fernando-António de Almeida

Como leitura desta obra ultrapassa as 600 páginas, é bem dever que nos confinamos e convidamos o leitor por terras do Ribatejo, o primeiro olhar é em Constância, o antigo concelho de Punhete, terra de muita história, bem sofreu com as invasões francesas, oiçamos o autor a misturar as cores na paleta desta terra que é um bico apertado entre dois rios:

Constância ou quando uma imagem vale por mil palavras

“Este estreito anfiteatro que, do cimo da Senhora dos Mártires, vai descendo com alguma rispidez para a Praia do Tejo, não do Zêzere, já que coube ao Tejo oferecer ao visitante os cais ribeirinhos (o das Barcas, o da Cova), a vista de prestígio (as casas nobres, burguesas, de grossa volumetria). Isto, já que, verdade se diga, cabe sobre as águas do Tejo que o viageiro abarca a vista ampliada, os longes, as águas estendidas. Que o Zêzere, apertado na garganta em que corre, limita as vistas, empobrece o espetáculo do poente, quando o Sol, se decide a mergulhar no oceano. Um Sol a bater lá no alto, portanto, onde fica a Igreja-Matriz, onde a Matriz está a ocupar uma antiga capela de romaria, dedicada, já antes, à Senhora dos Mártires”.

É bem saborosa a observação do autor que fala com os seus botões quanto ao caminho que precisa de tomar até ao Sardoal: “Não sei se é este o caminho mais rápido para ir saudar a vila do Sardoal. Mas é seguramente o itinerário mais conveniente para quem, espevitado pelo olhar que já lançou ao rio a partir da sua foz, se interroga como subir um troço do curso, antes que a barreira que lhe opuseram lhe inflacionasse as outrora precipitadas águas, amansando-as agora, para que se fizessem bucólicas à chegada à antiga Punhete (…) Que o leitor siga novamente rio acima, se acerque dos regolfos, o que pode fazer pela Aldeia do Mato, marginando até à Cabeça Gorda, até à Carreira do Mato, depois ao Souto e a Bioucas, que aqui ficam como meros exemplos das vistas altas e acessos que permite a Albufeira de Castelo de Bode”.

As tábuas do Mestre de Sardoal

E já chegámos ao Sardoal, vamos direitos à Igreja Paroquial, dedicada a Santiago e a S. Mateus. O autor fala-nos nos dois grandes quadros das paredes laterais e lembra que a grande atração do templo são as sete tábuas quinhentistas, como se desconhece o autor atribui-se-lhes ao Mestre do Sardoal: “Representam Cristo, a Virgem da Anunciação, o Anjo Anunciado, João Baptista e João Evangelista, e ainda, tal como acontece com Cristo, a representação em busto de Pedro e de Paulo. São agora consideradas como produto de uma oficina de Coimbra, de onde teriam saído outras tábuas presentes na área coimbrã”. Mas há outras belezas para além das tábuas do Mestre do Sardoal, caso da Igreja da Misericórdia, com o seu belo portal renascentista lavrado em calcário brando. “Datado de 1511 (ombreira esquerda), sobrepõe-se-lhe um retábulo, também em calcário, com a representação da Virgem da Misericórdia, decerto elaborado pela escola renascentista coimbrã. Sobrepõe-se-lhe, no medalhão, a pomba do Espírito Santo. Sobre este, ainda, a imagem de São Jerónimo (?). Na parte superior do pórtico figuram, ainda em corpo inteiro, mais dois personagens, um dos quais o rei David. Lateralmente, um portal de caráter manuelino é logo seguido por uma bela fresta renascença”.

O passeio prossegue para Almeirim, impensável não visitar a Casa dos Patudos, traça do Arquiteto Raul Lino, obra sonhada por José Relvas que cumulou a sua casa de objetos de arte. “De tão rico recheio, enumeremos os quatro painéis quinhentistas que faziam parte do políptico do Convento de S. Francisco de Évora, obra atribuída a Luís Henriques, um flamengo aportuguesado. Ou uma (obra de) Josefa d’Óbidos, ou uma série de telas portuguesas de pintores oitocentistas (Sequeira, Visconde de Meneses, Silva Porto, Malhoa…), bem como obras de outros pintores de nome e renome, aqui atirados a esmo: Zurbarán, Delacroix, Sánchez Coello, Caravaggio, Memling…)”. À volta há muito que ver, como o andarilho observa: “Vinhas inundadas, as vinhas de Almeirim, e terrenos em que apenas se espevitam os pés de restolho do milho que aqui, perto de Vale de Cavalos, traçam fiadas sinuosas e equidistantes ao longo dos campos alagados”. Cruza-se a ribeira de Ulme, entra-se na Chamusca e segue-se para a Golegã. “Eis-nos a cruzar os quase 800 metros da ponte da Chamusca, passando o rio Tejo, direitos à velha vila da Golegã. Velha, pois que já mencionada no século XII, mas que há de ter beneficiado da sua posição em relação ao leito do rio Tejo, quase no ponto em que este termina a sua orientação a norte (melhor, nordeste) e passa a inclinar-se a nascente. Isto no tempo em que as vias fluviais eram aquelas que melhores condições de trânsito ofereciam, nomeadamente no transporte de mercadorias”. A Igreja Matriz é magnífica, constitui um dos bons espécimes da arquitetura manuelina. “Templo de três naves, cobertura de madeira, só a capela-mor é abobadada. Destaca-se-lhe o magnífico portal, delimitado por colunas torsas, unidas no alto por um friso. Acima do arco do portal, dois óculos muito abertos quase lhe delineiam os traços mais marcantes de um rosto mitológico, boca, olhos…”

Casa dos Patudos de Alpiarça, escadaria principal

Antes de se encaminhar para Santarém, vê a indicação do Paul do Boquilobo. Mas antes, à saída da vila, está a casa do pai do senhor da Casa dos Patudos, José Relvas, na Golegã pontificou Carlos Relvas, um renomado pioneiro da fotografia, haja tempo e gosto para visitar este espantoso espólio. O genial fotógrafo era um monárquico ordeiro, o filho era republicano dos quatro costados, vemo-lo no balcão da Câmara Municipal de Lisboa a anunciar ao povo que tinham chegado os tempos republicanos. Já a caminho da Reserva Natural do Boquilobo, despede-se o autor e nós dele:

“Retomada a estrada, reencontramos o Almonda a banhar a Quinta da Broa. Uma casa alpendrada. Uma correnteza de casas modestas. Entre a Quinta de Santa Inês e a Quinta de S. João, passamos agora à Azinhaga, onde se levanta, imponente, a massa compacta da Igreja da aldeia, de raiz seiscentista. E acercamo-nos ao Tejo; depois o Pombalinho. E prosseguiríamos, pelos Chões de Alpompé (com o seu afamado acampamento romano), para Vale de Figueira, para Alcanhões e daqui para Santarém. De bom grado prosseguiríamos, não fossem estas pequenas ondas rumorosas que, vindas do lado do Tejo, se vão estendendo pelo alcatrão e alagando cada vez mais a Estrada Nacional N.º 365”.

E o andarilho vai-se perder de amores pelo Paul do Boquilobo.

Impossível não ficar encantado com estas deambulações ribatejanas no contexto de uma belíssima obra em que se percorrem pontos de Portugal de lés a lés.

Mário Beja Santos

Leave a Reply

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início
%d bloggers like this: