Uma lenda da comunicação, um guardião da biodiversidade: David Attenborough

Em Ribatejo Cool

Desde o início do ano que entro com o pé direito nas leituras e acabo de ler com a maior das comoções o apaixonante e mais recente livro de David Attenborough, Uma Vida no Nosso Planeta, O meu testemunho e a minha visão para o futuro, com Jonnie Hughes, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2020, não sei se há comunicador mais prodigioso do que esta estrela da televisão que já palmilhou o mundo inteiro como mensageiro da nave espacial Terra.

Ele inicia esta viagem no mesmo local onde deixará a derradeira reflexão, Pripyat, na Ucrânia, um lugar de desespero absoluto, tem a ver com Chernobyl, foi concebido como cidade com todos os seus elementos, não faltavam avenidas, hotéis, escolas, restaurantes, cabeleireiros, ginásios, supermercados. Era o lar projetado para quase 50 mil pessoas, a explosão da central nuclear ucraniana deitou por terra esta utopia modernista dos tempos soviéticos. Está tudo a ruir, a apodrecer, não há vivalma, todos partiram com a explosão do reator que expeliu material 400 vezes mais radioativo do que fora expelido pelas bombas de Hiroxima e Nagasáqui, é a imagem ao vivo de uma catástrofe ambiental, uma amostra chocante do declínio em espiral da biodiversidade do nosso planeta. E dá-nos o seu testemunho, é um nonagenário que tem tido uma vida extraordinária, como ele diz teve a experiência do mundo livre em primeira mão, em toda a sua variedade e beleza, pôde assistir a alguns dos seus maiores espetáculos e dramas mais apaixonantes. E faz uma agenda de 1937 aos dias de hoje, fala-nos da população mundial, que tem vindo sempre a crescer, do dióxido de carbono na atmosfera, também em crescendo e das áreas naturais que se têm vindo a reduzir, redige com uma esplendorosa simplicidade, é narrativa que nos prende do princípio ao fim.

Com o seu dom peculiar de comunicação, fala-nos da evolução da Terra, assim chegamos ao Holoceno, uma época com mais ou menos dez mil anos em que a temperatura média global não variava para cima ou para baixo mais de um grau celsius. Uma época sem precedentes, como ele nos lembra: “A florescente biodiversidade do Holoceno ajudou a moderar as temperaturas globais da Terra, e o mundo vivo instalou-se num suave e fiável ritmo anual: as estações. Nas planícies tropicais, estações secas e chuvosas alternavam com uma regularidade perfeita. Na Ásia e na Oceânia, os ventos mudavam de direção na mesma época todos os anos, trazendo a monção. Nas regiões a Norte, as temperaturas subiam acima dos 15 graus celsius em março, trazendo a primavera, e depois mantinham-se altas até outubro, quando desciam e traziam o outono.

Fotografia do New York Times, com a devida vénia

Fala-nos na sua vida no serviço de televisão da BBC, no seu programa Zoo Quest, na década de 1960, do seu assombro com as caraterísticas do continente africano, depois exerceu funções de direção nessa mesma BBC, houve séries de grande qualidade e popularidade, caso de A Vida na Terra, escreve primorosamente, é uma narrativa sentida de quem procura atrair o leitor para os cuidados do planeta, veja-se como descreve as florestas tropicais:

“São habitats particularmente curiosos, os lugares com maior biodiversidade do mundo. Mais de metade das espécies terrestres do Planeta vive nas suas profundezas verdes. Crescem em regiões tropicais húmidas, onde existe uma abundância dos dois recursos de que quase todas as plantas precisam: água potável e luz do sol. Junto ao Equador, o Sol brilha doze horas por dia com uma constância tal que praticamente não existem estações. As correntes de ar recolhem água de todos os lugares dos trópicos e inundam a floresta com até quatro metros de chuva por ano. E a floresta também faz circular a sua própria água: a humidade exalada por um bilião de folhas que se eleva sob a forma de neblina todas as manhãs, à medida que o Sol aquece até ao máximo, para depois voltar a cair sob a forma de chuva”.

Seguiu-se outra série de êxito retumbante, Planeta Azul, nova entusiasmante descrição: “Operadores de câmara especializados em mergulho registaram chocos a fazer a corte nos recifes de coral, lontras-marinhas a mergulhar em busca de marisco nas formações subaquáticas de laminárias, caranguejos-eremitas a lutar por conchas vazias, tubarões-martelo reunidos às centenas para procriar ao largo de um monte submarino no Pacífico e, talvez o mais difícil e notável de tudo, marlins e atuns-rabilhos à procura de presas em oceano aberto”. É estarrecedora a descrição da caçada dos atuns e dos tubarões e golfinhos à volta de uma gigantesca bola, é hoje um mundo em risco, devido aos objetivos das grandes frotas que devastam os oceanos”. E alerta-nos para a situação dos recifes de coral, que rivalizam com as florestas tropicais em termos de biodiversidade, e que dão manifestos sinais dos desequilíbrios do planeta.

E chegamos a 2020, os atentados à biodiversidade atingiram a hostilidade extrema: quase todos os grandes peixes oceânicos desapareceram; os detritos de plástico formam largos mantos, mais de 90% das aves marinhas têm fragmentos de plástico no estômago; cortamos por ano mais de 15 mil milhões de árvores e as florestas tropicais ficaram reduzidas para metade e também só metade do solo fértil da Terra é hoje cultivado; em média, desde a década de 1950, as populações dos animais diminuíram para mais de metade e lança um catálogo de advertências sobre o que nos espera se não se puser travão à dimensão devastadora que se anuncia, faz um repositório das previsões até 2100.

É de grande beleza a sua visão para o futuro, faz um programa de sustentabilidade onde tem lugar primordial a energia verde, dá-nos um belo texto sobre o modo de recuperar a natureza nas marés, e é irresistível não o reproduzir:

“Os oceanos cobrem dois terços da superfície do Planeta. Graças à sua grande profundidade, contêm uma proporção ainda maior de espaço habitável. Assim, o oceano tem um papel especial na nossa revolução de se recuperar o mundo selvagem. Ao ajudar o mundo marinho a recuperar, podemos fazer três coisas que precisamos desesperadamente de realizar em simultâneo: capturar dióxido de carbono, aumentar a biodiversidade e reforçar a nossa oferta alimentar. Tudo começa por colaborar com a indústria que está atualmente a causar mais danos nos oceanos: a pesca”.

E explica porquê. E alerta-nos para a reconversão da ocupação do espaço: “Atualmente reservamos mais de metade de toda a nossa terra habitável do Planeta só para nós. Para ganharmos os 4 mil milhões adicionais de hectares nos últimos três séculos, derrubámos florestas sazonais, florestas tropicais, bosques e vegetação rasteira, drenámos zonas húmidas e vedámos pradarias. Essa destruição de habitats foi não só a principal causa de perda de biodiversidade, como foi, e continua a ser, uma das principais causas de emissões de gases com efeito de estufa. As plantas terrestres e os solos de todo o mundo juntos contêm duas a três vezes mais dióxido de carbono do que a atmosfera. Ao derrubar árvores, ao queimar florestas, ao dragar zonas húmidas e ao lavrar pradarias selvagens, libertámos dois terços desse histórico dióxido de carbono armazenado até à data. Eliminar a natureza custou-nos caro”.

Nesse processo de inversão haverá que rever as cadeias alimentares e o nosso modo alimentar. Attenborough espraia-se sobre como recuperar a natureza nas terras, como planear para o pico humano e mostra-se confiante: “Se trabalharmos arduamente para melhorar o máximo possível de vidas, os modelos mais otimistas sugerem que a população humana poderá regressar ao nível de hoje em finais do presente século. Depois disso, talvez a nossa população continue a diminuir a um ritmo suave, com a sociedade global a exigir menos do nosso mundo e a ajudar a satisfazer as suas necessidades com soluções tecnológicas, como quase sempre fez”. Faz a apologia que devemos fazer um esforço para conseguir vidas mais equilibradas e despede-se do leitor com uma enorme confiança no futuro, porque ainda vamos a tempo de corrigir erros e de mudar a direção do nosso desenvolvimento. Leitura imperdível, para não dizer obrigatória.

Mário Beja Santos

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