Todos somos iguais, mas há uns iguais que são mais iguais que os outros

Em Ribatejo Cool

Esta fábula distópica foi publicada em 1945 e o seu autor nunca iludiu que estava frontalmente a denunciar processos totalitários. No prefácio da edição de Livros do Brasil à Quinta dos Animais, 2021, o ex-Presidente da República Jorge Sampaio recorda que a alegoria permite ao leitor revisitar a Revolução Russa de 1917 nesta gigantesca metáfora eivada de pedagogia sobre a natureza humana, a vida em sociedade, o exercício do poder, as condições da democracia e da liberdade, ou o resultado desastroso e dramático na sua falta. Como também observa: “É igualmente muito interessante que George Orwell tenha transposto o conceito de luta de classes para o plano da luta entre homens e animais, recuperando algumas noções darwinistas contemporâneas de Marx, e que enquadram a construção da Quinta dos Animais”.

A narrativa lê-se num só fôlego, é suficientemente empolgante para nos exigir reflexões umas atrás das outras. Era uma vez a Quinta do Solar, propriedade do Sr. Jones, dado à bebida e pouco cuidadoso com a alimentação dos animais, estes revoltam-se, liderados pelos porcos Napoleon e Snowball, a bicharada conquista a propriedade e expulsa os humanos. Em assembleia, cães e cavalos, vacas e ovelhas batizam a sua propriedade conquistada como Quinta dos Animais. Têm mesmo um projeto constitucional de direitos, as desilusões vêm depois e as desigualdades, uma a uma, manifestam-se, os porcos formam a classe dirigente e idolatram o líder supremo. Parece uma história destinada a um público jovem, mas não é. O varrão (porco reprodutor) Major tivera um sonho, vai dissertando sobre os males da vida dos animais que decorrem da tirania dos seres humanos, nesse sonho despertava a esperança de se livrarem desses tiranos, de terem o fruto do seu trabalho, ficarem livres, mas para isso exigia-se uma união perfeita, uma estreita cooperação na luta. “Todos os homens são inimigos. Todos os animais são camaradas”. E entoou a letra de uma canção que será a consigna na Quinta dos Animais, Animais de Inglaterra. Prepara-se a revolta, os dois porcos Napoleon e Snowball são declarados líderes da revolta que tem um complexo sistema filosófico, o Animalismo. Triunfa a revolta na Quinta do Solar logo transformada em Quinta dos Animais. São definidos vários mandamentos, por exemplo: tudo o que anda em duas pernas é um inimigo; tudo o que tem em quatro patas ou tem asas é um aliado; nenhum animal deverá matar outro animal; todos os animais são iguais. Lançam-se entusiasmados ao trabalho, cavalos, porcos, patos e galinhas, estavam felizes, o cavalo Boxer revela-se um trabalhador ímpar, está sempre presente quando o trabalho é mais duro. Todos trabalhavam de acordo com as suas capacidades, a divisão do trabalho não humilha ninguém, os animais aprendem a ler.

Os meses passam, o sucesso da Quinta dos Animais corre mundo, o Sr. Jones pensa em recuperar a sua propriedade, avança com um grupo de homens, o Sr. Jones de arma na mão e os outros com paus, os animais resistem e escorraçam os humanos, Snowball revela-se um bravo combatente. Começam as defeções, Mollie, a égua caprichosa desapareceu, irá aparecer atrelada a uma carruagem elegante pintada de vermelho e preto. A luta para tirar riqueza da terra é enorme e o tempo por vezes é devastador. Snowball pensa na criação do moinho para criar eletricidade na Quinta, elabora planos, a Assembleia dos Animais divide-se contra o moinho, Napoleon mostra-se opositor, argumentando que a maior prioridade era a produção de comida. Ambos os porcos discutem vivamente os prós e os contras na Assembleia, nisto surgem molossos que vêm direitos a Snowball, ele teve que fugir e despistou os perseguidores, eram os cães de Napoleon, que toma o poder, acabam as assembleias, pura perda de tempo, daí em diante o funcionamento da Quinta passava a ser obra de um comité especial de porcos, por ele presidido, mantém-se a bandeira e o hino Animais de Inglaterra. Nasceu o culto da personalidade, a polícia, o nome de Snowball é alvo do ódio, afinal quem criara os planos do moinho fora Napoleon, este surpreende os animais dizendo que se vão envolver em trocas com as quintas vizinhas para fins comerciais, o líder procura sossegar os animais inquietos, tem mesmo um porco que anda a fazer propaganda, tudo quanto corre mal é obra de Snowball. Os porcos têm crescentemente privilégios, passam a dormir nas camas da casa grande, o mau tempo arruína as obras do moinho, o líder logo responsabiliza o inimigo dos animais Snowball, e começa a reconstrução do moinho. Segue-se um inverno implacável, falta comida, nas quintas vizinhas insinua-se que tudo corre mal na Quinta dos Animais. O líder decide vender a produção agrícola e madeiras pelas quintas vizinhas, isto enquanto vai crescendo a perseguição ao nome de Snowball, afinal ele não fora nem valente, não passara de um agente de Jones desde o início. Mesmo perplexos, os animais aceitam, se o camarada Napoleon o diz é porque é verdade.

Mas a unanimidade vai-se diluindo, começam as execuções, o hino Animais de Inglaterra perde importância, está instalado o terror e o preceito Nenhum animal deverá matar outro animal passa a ter nova redação: Nenhum animal deverá matar outro animal sem motivo. Cresce a idolatria a Napoleon, intensificam-se os negócios com as quintas vizinhas, alguns destes negócios revelam-se fraudulentos, há que encontrar bodes expiatórios. As obras do moinho recomeçam depois de novo desaire. Trabalha-se cada vez mais. A Quinta dos Animais foi proclamada uma república, houve que eleger um presidente, inevitavelmente Napoleon. Boxer é figura paradigmática do animal que nunca desfalece, morre esfalfado a trabalhar, acabará num matadouro, o porco propagandista venderá a informação de que Boxer morreu numa cama de hospital a gritar hossanas ao camarada Napoleão.

E passam os anos, intensificam-se os negócios com os humanos, estes vêm negociar com os porcos dirigentes à Quinta dos Animais que retoma o nome de Quinta do Solar. Mas acontece algo que provoca a maior das perplexidades aos animais enquanto decorre o convívio com os humanos, mudavam as feições dos porcos, em dado momento porcos e humanos eram indistinguíveis: “Não havia agora dúvidas sobre o que tinha acontecido às caras dos porcos. As criaturas do lado de fora olhavam dos porcos para os homens e dos homens para os porcos, e depois dos porcos para os homens novamente, mas era já impossível distinguir quem era quem”.

Muito se tem escrito sobre esta fábula distópica, Orwell nunca escondeu que era uma denúncia do mito soviético, da consagração do estalinismo, toda a narrativa descreve o percurso da tomada do poder por um grupo num quadro de mentiras encenadas, urdindo um poderoso inimigo interno, mistificando a legislação genuinamente democrática para legalizar a barbárie, o poder indiscutível e a organização do terror. Era o mundo em que se dizia que todos os animais eram iguais, mas houve que retocar o preceito e dizer que uns eram mais iguais que outros.

Resta dizer que George Orwell foi uma das mais influentes figuras da literatura do século XX, não devemos descurar outros dois livros seus para além deste e o de outra fábula distópica, 1984, são Dias Birmaneses e Homenagem à Catalunha, merecem ser publicados porque são dois verdadeiros clássicos e encerram importantes avisos para as novas gerações.

Quinta dos Animais é uma leitura imperdível – seria escusado dizê-lo, mas não vá o diabo tecê-las, e pensar-se que fica tudo dito quanto ao assunto da história, quando o mais importante é a escrita do genial Orwell.

Mário Beja Santos

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